Kobra prepara maior mural do mundo na Grande São Paulo
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Kobra prepara maior mural do mundo na Grande São Paulo

Obra vai poder ser vista da Rodovia Castelo Branco

Edison Veiga

15 Fevereiro 2017 | 03h00

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Eduardo Kobra prepara a criação daquele que será o maior painel grafitado do mundo. Com 5.742 metros quadrados, a “tela” para esta obra é um paredão às margens da Rodovia Castelo Branco (km 35), no município de Itapevi, na Região Metropolitana de São Paulo. “Vai dar para todo mundo ver da estrada”, comenta ele.

No atual cenário em que o prefeito João Doria (PSDB) declarou guerra à pichação e, no embalo da polêmica, a Prefeitura tem removido diversos grafites da cidade, pintar fora do município e dentro de uma propriedade privada é praticamente um salvo-conduto – o painel gigantesco nascerá à prova de Doria.

O novo mural de Kobra vai superar o recorde mundial anterior – que, a propósito é seu. Em 2016, no centro do Rio, ele pintou a obra Etnias, às vésperas dos Jogos Olímpicos; o Guinness World Records deu a chancela de maior do mundo ao paredão 2,5 mil metros quadrados. “Confesso que estou assustado com as dimensões”, diz o artista. “A proporção é inacreditável. Vai ser incrível fazer essa obra.”

O paredão é de um prédio que será centro de distribuição e sede administrativa da marca de chocolates Cacau Show. Foi a empresa que o convidou para o trabalho. “Temos um plano de transformar uma parte deste prédio em museu para visitação, mas ainda não há previsão de abertura ao público”, adianta Monica Ogawa, diretora de comunicação da firma.

Pelas estimativas de Kobra, o mural deve ser um trabalho de dois meses. “Tudo vai poder ser acompanhado por quem passar pela rodovia”, comenta. Os preparativos já estão em andamento. “É preciso uma logística especial, andaimes adequados para que consigamos pintar em um espaço tão grande”, exemplifica. Nos próximos dias, o artista deve viajar para a Amazônia em busca de inspiração.

Isto porque Kobra pretende pintar no paredão cenas do processo de produção do cacau – do plantio à colheita. “Vou conhecer famílias que trabalham com isso, fotografar as pessoas em ação. É a partir deste material que pretendo criar o mural”, conta.

Antes, entretanto, uma outra viagem está na agenda do artista. No dia 22, ele embarca para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Será um dos dois brasileiros a participar do concurso Dubai Canvas 3D Art Award, que dará US$ 650 mil ao melhor grafite em 3D dentre os inscritos – o outro representante do País é o artista Renê Muniz. No ano passado, ambos estiveram entre os 120 artistas convidados a apresentar propostas. Houve uma pré-seleção, e seus nomes figuram entre os 25 que vão participar. “Terei uma semana para pintar um painel de 4 por 8 metros”, conta Kobra. As obras ficam expostas no início de março, antes da premiação.

Doria. Paulistano do Jardim Martinica, bairro pobre da região do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, Kobra orgulha-se de ter obras espalhadas por dezenas de países do mundo. Mas, ao mesmo tempo, também lembra que 90% de seus trabalhos foram feitos em sua São Paulo natal.

Recentemente, e completamente sem querer, ele acabou envolvido na polêmica cruzada do prefeito João Doria contra os pichadores. Primeiro porque foi anunciado, sem ter sido consultado, como coordenador de um programa de arte de rua. Desmentiu em seguida. Depois porque o prefeito já o citou entre os artista de sua predileção.

No mês passado, quando uma ação da prefeitura apagou diversos grafites da Avenida 23 de Maio, um mural de sua autoria na mesma via foi preservado. No dia seguinte, amanheceu danificado, após intervenção em protesto contra o prefeito. A administração municipal o consultou – queria saber se ele gostaria de restaurar a obra. “Se removeram o trabalho de outros artistas, a minha posição foi de que deveriam remover o meu também. Esta era a atitude mais correta”, avalia.

Assim como boa parte dos grafiteiros da cidade, Kobra começou pichando muros. Aos 15 anos, começou a grafitar. Hoje, considera-se muralista. “Não vejo uma coisa como evolução da outra. São transições”, diz. Ele afirma que participaria “voluntariamente” de qualquer ação que envolvesse “arquitetos, urbanistas, grafiteiros e muralistas” para discutir a paisagem urbana. “Sou a favor de pintar mais muros, mais empenas. E que a arte de rua se espalhe mais e mais pelas ruas da cidade”, defende. “São 30 anos de história e a arte de rua se tornou uma marca registrada de São Paulo. O assunto virou polêmica justamente porque nós, paulistanos, amamos a arte de rua.”

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