Kobra e a consciência da efemeridade
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Kobra e a consciência da efemeridade

No Capão, mural de artista é escondido por puxadinho

Edison Veiga

29 de abril de 2016 | 07h57

Foto: Facebook/ Reprodução

Foto: Facebook/ Reprodução

Quando recebeu a imagem acima, o grafiteiro e muralista Eduardo Kobra ficou em dúvida sobre o que dizer. “Resolvi postar no Facebook, sem legenda nem nada, para ver o que as pessoas diziam”, conta. Cinco dias depois, a imagem coleciona comentários lamentando sobre o “estrago” em sua arte.

Utilizar a rua como plataforma para a arte tem dessas coisas, Kobra sabe muito bem. Ele estima que já tenha feito mais de 3 mil obras em sua carreira – e conta com um arquivo de fotos para comprovar isso. “Mas, se for olhar, 90% delas não existem mais”, afirma. Exemplos são os murais abaixo, respectivamente feitos na Avenida Helio Pellegrino, em Moema, e na Praça Panamericana, Alto de Pinheiros:

Foto: Acervo Eduardo Kobra/ Divulgação

Foto: Acervo Eduardo Kobra/ Divulgação

Foto: Acervo Eduardo Kobra/ Divulgação

Foto: Acervo Eduardo Kobra/ Divulgação

Kobra diz que nem sempre é fácil lidar com isso. “Muitas vezes, a gente fica lá 30 dias fazendo o trabalho, e depois é natural que sintamos quando a obra é removida”, comenta. Por outro lado, ele tem consciência de que tal situação é inerente ao próprio fato de utilizar o espaço público para pintar. “Não que o artista seja efêmero, mas a arte acaba se tornando”, define.

Mas voltemos ao painel do início deste post. Pintado no Capão Redondo, bairro pobre da periferia paulistana, em 2014, era uma homenagem ao grupo Racionais MC’s, considerado por muitos como o conjunto de hip hop mais relevante e influente do País. Mano Brown e sua turma são fruto do Capão Redondo. A realidade áspera da periferia de São Paulo é narrada em suas letras. A pintura de Kobra, mais que uma homenagem, era um ícone de arte criado para ficar exposto em local estratégico do mesmo bairro que deu origem aos Racionais. Era cor onde só há cinza. Era arte de qualidade, assinada por um artista renomado internacionalmente, com obras em mais de 20 países, para uma realidade que pouco tem acesso à cultura. Ali, de graça.

Na época, conta Kobra, ele pediu autorização para pintar naquela fachada – um sobrado particular. Mano Brown não só autorizou como apareceu para ver. Com 20 metros de comprimento e 7 metros de altura, a obra pretendia ser um cartão de visitas do Capão – um atestado de que “aqui tem arte, aqui tem música, aqui tem cultura”.

Não deu.

Veio a necessidade do vizinho erguer mais um pavimento. O puxadinho urgia sobre a pintura. Mano Brown e sua turma que se contentassem em ser meia pintura de faces pela metade. “O proprietário do imóvel vizinho estava no seu direito”, resigna-se Kobra. “Mas, de uma forma ou de outra, perdemos nosso trabalho.”

Para o artista, restam as fotografias. “O que o tempo destrói, a fotografia eterniza”, filosofa.

Os moradores do Capão Redondo ficam com menos cor, mais concreto.

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