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Jardim da Aclimação

Edison Veiga

05 de agosto de 2010 | 13h03

“O Dr. Carlos Botelho tinha no vale da Aclimação uma granja leiteira com campinas e estábulos modernos. Fornecia às famílias e hospitais o melhor leite de São Paulo.

Quando fui lá pela primeira vez, já estava por metade do tamanho. Pela outra metade era um parque aberto ao público.

Havia lugares para piqueniques.

O córrego estava represado num lago, onde pares vogavam em canoas, comendo sanduíches.

No cercado ao centro, com altas paredes de cimento, havia ursos rodeados por valas profundas.

Numa jaula bocejava uma família de leões.

Noutra, duas onças de mau hálito.

Havia uma capivara, coatis, um tamanduá, carneiros, cabritos e macacos.

Um jacaré cercado à beira de um filete de água.

Passavam baleiros, sorveteiros, vendedores de pastéis, cocadas e pés-de-moleque.

Fotógrafos tiravam retratos de motorneiros da Light, sentados, a mulher atrás, pondo-lhes a mão no ombro. Nas vitrinas de exibição, havia retratos de meninas vestidas para primeira comunhão, um garçom e sua noiva, em trajes de casamento, três caixeiros de palheta sentados à mesa do parque, bebendo cerveja.

Em certo ponto do jardim, havia uma cobertura onde tocava a banda de música. Os músicos coçavam as pernas por causa das motucas.

Tabuleiros de cocadas, pastéis e pés-de-moleque, de que se afugentavam as moscas com espanadores feitos de tiras de papel picado.”

Excerto do livro São Paulo Naquele Tempo (1895-1915), de Jorge Americano (Carrenho Editorial, Narrativa Um e Carbono 14, 2004)

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