Houve um tempo em que os manequins andavam nus
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Houve um tempo em que os manequins andavam nus

CRÔNICA

Edison Veiga

03 Outubro 2017 | 01h02

Foto: Epitacio Pessoa/ Estadão

Quando aquele grupo chegou ao poder, começou a perseguição aos manequins. A primeira lei preocupava-se com as peças desnudas, de sorte que todo comerciante precisou incorporar ao modus operandi do negócio a retirada dos bonecos da vitrine para trocar suas vestes a cada nova coleção. “Lugar de trocas é no vestiário”, determinava o recém-publicado regulamento.

Não era o bastante. Bastou uma certa acomodação do empresariado frente à legislação para que a pudica doutrina endurecesse, ainda sem perder a ternura. A partir daquele longevo mês de setembro, não seria mais tolerada a existência de nenhuma vitrine em que os manequins, fossem eles masculinos ou femininos – pior ainda se apresentassem gênero indefinido, aliás –, usassem trajes de banho.

A indústria da moda praia chiou, mas de nada adiantou. Um site de fake news tratou de publicar estudos correlacionando a exibição de biquínis com impulsos suicidas. Em ação concatenada, como se fossem robôs, perfis nas redes sociais começaram a perseguir todos os que haviam postado fotos descontraídas no último verão. Um político disse que era preciso ter limites, ou aquela sem-vergonhice escancarada ainda perigava destruir as famílias brasileiras.

Aos poucos, as pessoas foram se acostumando. De modo que nem parecia mais estranho que as ruas do centro da cidade não tivessem mais manequins expostos – eram tantas especificações, que o comércio achou mais fácil abolir de vez os bonecos, em vez de mantê-los trajados com longas roupas de inverno polar em pleno verão de país tropical.

Mas os que haviam assumido o poder naquele universo paralelo não se deram por satisfeitos. Resolveram mirar seus pervertidos olhares para as escolas infantis. Afinal, era preciso acabar com aquela rotina nos berçários em que milhares de crianças tomavam banho. Sim, ficavam nuas. Disparatados com a descoberta, trataram de interpretar o fato cotidiano como uma apologia à pedofilia e desandaram a publicar portarias e novos regimentos enquadrando as instituições de ensino. Um vereador usou a tribuna para se manifestar, demonstrando preocupação com a erotização infantil. O tal site das fake news fez alusão a um retorno do ‘kit gay’.

Naquele lugar imaginário onde a nudez era perseguida, o tomar banho passou a ser execrável.

Em seguida, foi a vez da cultura sofrer retaliações. Censores nomeados pelo grupo começaram a assistir a peças de teatro, entrar em museus, frequentar shows. Desacostumados à arte, porque em suas formações tudo o que não fosse funcional era visto como inútil, tudo o que fosse intelectual era encarado com fastio, foram tomados por um cruel estranhamento; não aquele que se espera da arte, capaz de provocar reflexões e, consequentemente, promover a melhora do ser humano – mas, sim, um estranhamento de quem não tolera, de quem só se sente confortável se extinguir o diferente.

Eles descobriram que havia quadros retratando mulheres nuas. E as pessoas consideravam isto arte.

Eles descobriram que havia músicas tratando minorias sexuais como cidadãos. E as pessoas cantavam isto.

Eles descobriram que havia peças de teatro com mensagens de encorajamento. E até crianças repetindo que “juntos somos fortes”.

A sociedade daquele mundo paralelo já estava ficando cada vez mais moldada ao talante do grupo que havia chegado ao poder. Então o governo lançou um aplicativo incrível, capaz de rastrear leituras nos perfis de Facebook de todos os cidadãos. De livros inteiros a poemas falsamente atribuídos a escritores consagrados, passando por fragmentos de crônicas da chamada esquerda-caviar a lombadas de obras que por ventura aparecessem nos fundos de fotografias, tudo passou a ser monitorado, indexado, re-explicado conforme o cânone vigente, sempre retirado de qualquer contexto.

Bibliotecas públicas começaram a organizar fogueiras semanais. Estava cada vez mais claro: quem não lê tem medo de livro. Estava cada vez mais obscuro: a literariedade matava a literatura.

As pessoas já estavam mergulhadas em um universo iletrado quando o grupo, seguindo o mantra base e depravado que parece não enxergar que nudez não precisa ser sinônimo de erotismo, decidiu proibir também que os cidadãos ficassem pelados dentro de suas próprias casas. A partir daquela data, câmeras passaram a ser obrigatórias em todos os cômodos. Nos banhos, homens precisavam usar sungas; mulheres, maiôs.

Era uma tarde chuvosa. O representante máximo do grupo que estava no poder ficou com saudades de Deus e decidiu entrar em uma igreja do centro de São Paulo. De joelhos, olhou para o altar.

O crucifixo mostrava que Cristo morreu nu.

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