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Hermelinda, a filha de Camargo, o ‘C’ do MMDC

Edison Veiga

22 de maio de 2011 | 00h01

Caçula de mártir da Revolução de 32, morto em 23 de maio, sente-se esquecida

FOTO: TIAGO QUEIROZ/AE

Dona Hermelinda tem 80 anos e mora, caprichosamente, em uma rua que fica entre as Avenidas 23 de Maio e 9 de Julho. Duas avenidas, duas datas. Duas datas que significam muito para a história e o orgulho paulista e interferiram em toda a vida de Hermelinda e sua família. Hermelinda Teixeira de Camargo Motta é filha de Antonio Américo de Camargo Andrade, um dos quatro jovens mortos em 23 de maio de 1932. O “C” do MMDC.

“Segunda (amanhã) será um dia triste para mim, como todo 23 de maio. Até desligo a televisão, não gosto de ver ninguém falando no assunto.” A morte do pai, quando ela, caçula de três irmãos, tinha acabado de completar 1 ano, é um trauma familiar. “Você não imagina a dor que é crescer sem pai… Todos os dias eu olho para essa fotografia (aponta para o único retrato que tem de Camargo) e digo: ‘Ô, pai, como o senhor fez falta na minha vida!’”, diz, sem conseguir segurar as lágrimas.

Hermelinda é a única filha viva de Camargo. Há 12 anos vive em um modesto apartamento na Bela Vista, na companhia de sua única filha, Arlete, viúva – que está internada em um hospital público, tratando-se de câncer. Sofre de artrose, pouco sai de casa e sobrevive com a aposentadoria de um salário mínimo. “Nunca recebi qualquer pensão, mesmo meu pai tendo sido um herói da Revolução”, reclama.

Ela afirma que é a primeira vez que dá uma entrevista – mas admite que relutava em falar sobre o assunto e nunca gostou da ideia de aparecer em eventos públicos comemorativos. “Vai ver, nem sabem que estou viva”, supõe.

Memórias. Quando Camargo morreu, deixou a viúva, Inaiá, com 29 anos e três filhos – Clésio, com 7, Yara, com 6, e Hermelinda, com 1. Ela não se casou novamente. “Para piorar, mamãe brigou com minha avó paterna, que queria a guarda dos filhos. Como a família paterna era a que tinha dinheiro, ficamos na pior”, conta ela – os pais de Camargo eram fazendeiros da região de Amparo, no interior paulista.

Inaiá trabalhou um tempo como escriturária na Prefeitura, até se aposentar por problemas de saúde. “Tínhamos ainda muitos imóveis, herança de meu pai, e fomos vendendo ao longo da vida”, diz.
Hermelinda se casou cedo, aos 13 anos – sua filha nasceu quando ela tinha de 14 para 15 –, também trabalhou na Prefeitura, separou-se muito jovem e passou a viver da compra e venda de imóveis – até restar somente o apartamento onde mora.

Hermelinda se recorda das histórias que sua mãe contava sobre Camargo. “Ele era um bon vivant. Não trabalhava, vivia gastando a herança do pai. Boêmio, chegava sempre tarde em casa e só aprontava”, relata. “Uma vez chegou só de cuecas, de madrugada, porque estava frio e ele decidiu dar as roupas para um mendigo. Bêbado como ele estava, não sentia frio.”

No fim dos anos 1920, já casado e pai de dois filhos, Camargo deixou a família em São Paulo e decidiu rodar o mundo. “Ficou gastando dinheiro”, conta Hermelinda. “Aí encontrou com um amigo da família em Paris, que o alertou: ou você volta para o Brasil ou sua mulher vai pedir o desquite. Então ele voltou e, pouco tempo depois, eu nasci.”

Exímio atirador, Camargo gostava de acertar frutas no pomar da fazenda de Amparo. E certa noite, quando chegou em casa após uma noitada e pediu moela de frango para a mulher, zangou-se com a negativa dela em matar um animal do galinheiro naquela hora para servi-lo. “Ele foi lá e atirou nos frangos todos, sem dó”, conta Hermelinda.

As últimas palavras de Camargo, há 79 anos, teriam sido sobre Hermelinda. “Ele foi escolhido porque era o mais alto da turma, media 1,99 metro”, explica a filha. “Seus amigos contavam que, quando ele agonizava, falava de mim. Ficou preocupado em deixar uma filha tão nova sem pai.”

Hermelinda resume com simplicidade o motivo que levou seu pai a participar do movimento: “Ele era contra o Getúlio, né?” Em seu velório, o caixão estava coberto com a bandeira de São Paulo.

PARA LEMBRAR
Dois anos depois de assumir o poder na Revolução de 1930, Getúlio Vargas ainda não havia cumprido a promessa de criar uma nova constituição. Em 23 de maio de 1932, após vários comícios contra o governo federal, estudantes paulistas tentaram invadir a sede um dos bastiões do regime, o Partido Popular Paulista, na Rua Barão de Itapetininga, no centro. Euclides Bueno Miragaia, de 21 anos, Mario Martins de Almeida, de 21, Drausio Marcondes de Souza, de 14, e Antonio Américo de Camargo Andrade, de 30 (o único a deixar filhos) foram fuzilados por soldados. As primeiras quatro vítimas do confronto entre São Paulo e o governo Vargas se tornaram a sigla MMDC, que inspirou outros paulistas a se rebelarem. Em 9 de julho, começou a Revolução Constitucionalista de 1932.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 22 de maio de 2011

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