Gregório Gruber: o folião proletário
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Gregório Gruber: o folião proletário

Um baile de carnaval no Teatro Municipal

Edison Veiga

10 Fevereiro 2015 | 19h09

Imagem: Acervo Estado

Imagem: Acervo Estado


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– Inventaram de fazer um baile de carnaval lá dentro. Tiraram todas as poltronas e transformaram o Municipal num imenso salão. Por acaso, quem fez a decoração era um amigo de meu pai, e aí ele ganhou entradas e me levou. Aquilo, para um garoto, era o máximo.

O ano: 1968. Luís Gregório Gruber Novaes Correia, que futuramente viria a ser conhecido como artista plástico pelo nome de Gregório Gruber, era ainda adolescente – ele nasceu em 1951, em Santos, e vive em São Paulo desde os 11 anos.

Não era a primeira vez que o Municipal abrigava um baile de carnaval. Em fevereiro de 1914, de acordo com os registros do Museu do Theatro, aconteceu ali um “baile à fantasia em benefício das vítimas das inundações na Bahia”. Evento semelhante foi realizado em 1915 e, esporadicamente, em todas as décadas seguintes.

Gregório era um habitué do Municipal. Sua mãe adorava levá-lo lá, principalmente para ver balés do Leste Europeu.

– Morávamos na Rua Martins Fontes. Era pertinho e íamos a pé. Depois dos espetáculos, íamos tomar um chocolate lá perto, na Rua [Coronel] Xavier de Toledo. Era tudo muito chique. Havia um ritual próprio para ir ao Municipal, colocávamos roupa especial.

Ainda adolescente, quando ensaiava suas primeiras pinceladas, Gregório começou a retratar o teatro, encantado com sua arquitetura, com suas formas.

– Tinha essa vivência do centro, e isso passou a se refletir na minha obra. O Municipal é algo que se preserva ao longo das décadas. Ninguém vai querer destruí-lo. E já fizeram cada crime no centro.

Ele estudava na Escola Caetano de Campos, na Praça da República, também muito perto do Municipal.

– Matava aula e corria para as escadarias do Municipal. Ficava lá, desenhando.

Gregório acredita que a consciência do ofício de pintor só tenha vindo mais tarde, na década de 1970. Mas seguiu tendo o Municipal como uma de suas musas: em sua obra, aparece o teatro na luz da manhã, na luz da noite, com neblina, sem neblina, no escuro, no claro, chovendo… Tanto que se tornou, muito provavelmente, o artista que mais vezes pintou o centenário teatro.

– Impossível calcular. Devo ter feito umas 200 mil pinturas do Municipal. Não tenho, mesmo, a menor ideia da quantidade. Eu sempre fui meio humilde, meio tímido, hesitava em falar “olha, eu sou pintor”. Fui criado na ruptura, quando a pintura morreu, imagine se dava para assumir qualquer coisa assim. O Municipal é isso também: sua arquitetura não é futurista nem modernista; é neoclássico, totalmente nada arrojado, ultrapassado. Mas é um marco, mostra o ecletismo, a mistureba que fizeram e não foi infeliz, deu tudo certo.

E em todas essas pinceladas, toda vez que o Municipal nasce ali em sua tela, a memória que lhe chega é de uma estrondosa vaia. Daquela noite do baile de carnaval.

– Meu pai [o pintor Mário Gruber] era muito de esquerda. E quando nós entramos no baile, eu fiquei me sentindo um burguês: meu pai usava smoking, nós meio fantasiados de burgueses. Logo na entrada havia um povo com o dedo na boca querendo entrar, porque aquele baile era da elite, não era para todo mundo. Eu estava ali de gaiato. Aí levamos uma supervaia das pessoas. Fiquei constrangido, porque a gente era de esquerda. Meu pai estava travestido de burguês, mas ele era comunista. Na minha cabeça não fazia sentido estarmos numa festa de burguês. Éramos proletários.

Ficou a vaia.

Excerto do livro O Theatro Municipal de São Paulo: Histórias Surpreendentes e Casos Insólitos, de Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise (Senac, 2013)