Grafitaram os “Arcos do Jânio”
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Grafitaram os “Arcos do Jânio”

Arquiteto e urbanista da USP critica intervenção em patrimônio histórico de SP

Edison Veiga

02 Fevereiro 2015 | 17h29

Foto: Márcio Fernandes/ Estadão

Foto: Márcio Fernandes/ Estadão

É inegável o importante papel que o grafite – bem como diversas manifestações artísticas ditas “de rua” – tem na São Paulo contemporânea, quando queremos uma cidade mais bonita e mais “aberta ao público”. Goste-se ou não desse tipo de pintura. (Este blog, aliás, é um constante divulgador de iniciativas do tipo.)

Mas quando no domingo, dentro do projeto que tem deixado muito mais colorida a movimentada Avenida 23 de Maio, os grafites oficialmente chegaram aos “Arcos do Jânio”, confesso que fiquei um pouco preocupado.

Essas construções, construídas nos anos 1920, ficaram escondidas por seis décadas por cortiços erguidos nessa região. Só foram desvendadas em um processo de revitalização da região, obra da gestão de Jânio Quadros, nos anos 1980 – daí vem o apelido “Arcos do Jânio”.

A importância histórica do conjunto é atestada pelo Conpresp, o órgão municipal de proteção ao patrimônio. Desde 2002, de acordo com a lei, os arcos devem ser “integralmente preservados”, como bem lembra reportagem publicada na edição desta segunda do jornal Folha de S. Paulo. Mas o próprio Conpresp, aliás, autorizou os grafites, em reunião ocorrida no fim do ano passado.

Há pouco, recebi um e-mail do sempre atento arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Reproduzo abaixo, na íntegra, a mensagem. Para pensarmos juntos:

“Uma desagradável surpresa foi reservada aos paulistas ao transitar pela Avenida 23 de Maio e deparar com pinturas cobrindo os vãos dos arcos conhecidos popularmente como ‘Arcos do Jânio’. Tal denominação decorre do bom senso daquele prefeito em mandar remover algumas residências que impediam a visão dos arcos. Foi um presente à paisagem urbana. Esses arcos são testemunho da arte da construção em tijolo, característico de um momento da história das construções da cidade.
Em certa época, todas as construções eram executadas na sólida técnica de taipa de pilão, onde os paulistas eram insuperáveis. Um viajante chegou a declarar ‘São Paulo é uma cidade de barro’. Restam, dessa época, poucas edificações, a exemplo das casas bandeiristas. À era da taipa de pilão, sucedeu a das construções em tijolo, das quais subsistem projetos devidos a notáveis arquitetos cujas obras beneficiaram-se da presença de imigrantes estrangeiros a exemplo dos ‘capomastri’.
Os arcos em questão são autênticos documentos da técnica de tijolo por sua requintada execução. Agora somos surpreendidos com uma desastrosa intervenção. Algumas questões se colocam:
1. Tratando-se de obra pública, a população foi consultada?
2. Tratando-se de ‘arte plástica’, em espaço público, houve concurso para escolha do projeto?
3. A qualquer cidadão que tenha eleito a pintura como sua ocupação, cabe a prerrogativa de escolher livremente o local para exercer seu talento? Torna-se igualmente grave autoridades se arvorarem em críticos de arte, com tanta obra pública à espera de quem as execute.”