Fusos horários de verão
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Fusos horários de verão

CRÔNICA

Edison Veiga

26 Setembro 2017 | 05h17

Foto: Brian/ Flickr/ Creative Commons

Para Giovana Girardi.

Eram dois os que ditavam o tempo naquela casa simples, paredes de reboco, no interior paulista. Do lado oposto ao quadrinho da Santa Ceia, na cozinha, um velho relógio de parede mexia os ponteiros dentro de sua moldura azul clara, desbotada, sistematicamente como se espera de um relógio, um minuto por vez. No único criado-mudo do quarto do casal, à esquerda da cama, um rádio-relógio com numerais verdinhos reluzentes no mostrador.

Pelo acordo tácito jamais conversado entre os dois moradores, ela cuidava do de parede, ele daquele que ficava no quarto. Era natural, aliás, naquela casa simples de costumes igualmente simples, que a mulher se encarregasse de tudo o que estivesse na cozinha – sim, os tempos arbitrados por aqueles relógios eram outros, os papéis gozavam de uma definição tradicional. Igualmente não causava surpresa nem estranhamento que o rádio-relógio, praticamente um gadget naquele mundo analógico, fosse a distração do homem em suas recorrentes insônias.

Ambos os relógios estavam alinhados. Sincronizados. Obedeciam ao mesmo fuso horário. E era com essa regularidade que, de um lado os ponteiros, de outro os numerozinhos no mostrador digital, a casa funcionava. O despertar, sempre às 5h45. O café da manhã, nunca iniciado antes das 6h15. O almoço, 12h. O jantar, 18h30. O ir para a cama, às 21h45 – exceto nas noites de futebol, quando havia o direito da prorrogação do sono.

Naquele casal equilibrado, de poucas mas precisas palavras, nunca transparecera nenhum atrito. Era como se os dois relógios estivessem ali para lembrá-los que, mesmo sendo dois, eles estavam juntos. Aqueles relógios metaforizavam a unidade – do tempo, dos espaços – que, para eles, parecia ser um jeito de provar o amor.

Então veio 1985. O governo decidiu criar o horário de verão.

– No meu relógio, presidente nenhum manda – ela disse.

– Ordens são ordens – resignou-se ele, talvez calejado por tantos anos de militares no poder.

Chegou o dia de adiantar os relógios.

Descalibraram-se os dois.

Era com uma hora de diferença que passaram a acordar, a tomar café, a almoçar, a jantar, a dormir. O sexo, que já era raro, passou a inexistir – não havia a menor hipótese de um ponto de encontro naquela casa em que reinavam dois fusos horários, não existia mais convergência, não poderia mais serem nenhuma sobreposição, nenhuma intersecção de ideias, de almas, de corpos.

Desde aquele fatídico 1985, os dois deixavam de ser ambos nos quatro meses da vigência do horário de verão. Viravam dois países coexistindo sob o mesmo teto. O analógico que jamais era alterado, na parede da cozinha; o digitalzinho, adiantado em uma hora naquele famigerado um quarto de ano.

De sorte que, 32 anos depois, Isaura sorriu quando viu no jornal da TV que o governo estudava extinguir o horário de verão. Mario, que já havia se informado na véspera no noticiário ouvido do próprio rádio-relógio, disfarçou o contentamento, mas até ensaiou um assobio. Aos 64 anos, contou mentalmente, era meia vida de desencontros periódicos.

Se não mais houver horário de verão, voltarão a se encontrar todos os dias, em todos os meses do ano. De outubro a fevereiro, Mario tem saudade de Isaura. De outubro a fevereiro, Isaura se sente viúva de marido vivo.

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