Francisco, bispo de Roma: ano 2
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Francisco, bispo de Roma: ano 2

Professor da PUC faz balanço dos primeiros anos de Francisco à frente do Vaticano

Edison Veiga

13 de março de 2015 | 00h01

Foto: Reuters

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Por Fernando Altemeyer Júnior*

Um breve balancete do segundo ano do papa Francisco impressiona em números e gestos. Jorge Mario Bergoglio completou 78 anos de idade, ordenado sacerdote faz 45 anos, sagrado bispo há 23 anos e eleito papa há dois. Ele é o 266º bispo de Roma, eleito em 13/03/2014 e empossado em 19/03/2013 como o primeiro papa argentino, primeiro latino-americano, primeiro do hemisfério sul, primeiro não-europeu desde 731, e primeiro papa jesuíta.

Francisco tornou-se o pontífice que mais pessoas canonizou depois do papa polonês e agora santo João Paulo II. Francisco inseriu no livro dos beatos 974 bem-aventurados – e canonizou 51 beatos. Assim, desde sua posse como bispo de Roma em 19/03/2013 até o final de 2014 foram proclamadas beatas e santas 1.025 pessoas. Entre estas, canonizou em 27/04/2014 os papas João 23 e João Paulo II. Em 19/10/2014 fez beato o papa Paulo VI. Quanto ao Brasil, ofereceu dois presentes: canonizou padre Anchieta em 03/04/2014 e beatificou madre Maria Assunta Caterina Marchetti em 25/10/2014. Um recorde para um mundo sedento de santidade transparente interlocutora dos empobrecidos e de seus movimentos sociais de transformação.

18 milhões viram o papa em 2014

A produção pastoral de Francisco é expressiva. Divulgou a encíclica Lumen Fidei em 29/06/2013; a exortação apostólica Evangelii Gaudium em 24/11/2013; e redigiu sete constituições apostólicas, 59 cartas, doze cartas apostólicas, cinco motu próprios, e se fez presente em 73 audiências gerais. Está sendo escrita uma encíclica sobre Ecologia. Diante do papa, em 2013 estiveram presentes 13 milhões de fiéis, entre participantes de audiências e fiéis presentes nas viagens. Estima-se que em 2014 o número tenha passado de 18 milhões de peregrinos e fiéis cristãos e outros irmãos de outras religiões.

Tem se empenhado junto aos líderes de inúmeras religiões na causa da paz e na defesa dos povos marcados pela guerra e perseguições no Oriente Médio. São frequentes e fraternos os encontros com patriarcas ortodoxos, de maneira especial o patriarca ecumênico Bartolomeu I, e as reuniões fraternas com luteranos, metodistas, anglicanos, judeus, islâmicos, Exército da Salvação, siro-antioquenos, pentecostais, evangélicos, reformados, religiões sino-nipônicas, budistas, hindus e outros.

Até agora, seis viagens internacionais

Fez sete viagens dentro da Itália: Lampedusa em 08/07/2013; Cagliari em 22/09/2013; Assis em 04/10/2013; Campobasso e Isernia em 05/07/2014; Caserta em 26/07/2014; Cassiano all´Ionio em 21/06/2014 e, finalmente, Redipuglia em 13/09/2014. As viagens internacionais foram seis: Rio de Janeiro e Aparecida, Brasil, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, de 22 a 29/07/2013; Terra Santa, 24 a 26/05/2014; Coreia do Sul, 13 a 18/08/2014; Tirana, na Albânia, 21/09/2014; Estrasburgo, no Parlamento Europeu, em 25/11/2014; Turquia, de 28 a 30/11/2014, e Sri Lanka e Filipinas, de 12 a 19/01/2015.

Foi escolhido como a personalidade do ano de 2013 pela revista Time, e foi capa da Rolling Stones em 28/01/2014. Manteve as reuniões do conselho de nove cardeais para a reforma da Cúria Romana. Realizou importante celebração pela paz nos jardins do Vaticano convidando para rezar pela paz o presidente de Israel Shimon Peres e o líder da autoridade palestina Mahmoud Abbas em 08/06/2014. Foi figura central para o acordo diplomático entre Estados Unidos e Cuba, no dia 17/12/2014, suspendendo o bloqueio de 53 anos. Tem realizado ampla ação diplomática junto aos líderes chineses. Sua fala contra a xenofobia na Europa é enérgica, mas rejeitada pelos grupos da ultradireita dentro e fora da Igreja.

No debate: pão, terra e moradia

Inédito encontro em Roma, de 27 a 29/10/2014, por convite pessoal de Francisco, reuniu 200 representantes de organizações populares para analisar as causas da exclusão social. Do Brasil, estiveram presentes o secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Leonardo Steiner, e o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile. O único presidente convidado foi o da Bolívia, Evo Morales. Os temas debatidos com o papa Francisco foram: pão, terra e moradia.

Medidas internas tomadas nestes dois anos: limitar o número de títulos honoríficos na instituição católica; nova comissão de controle do Instituto para as Obras de Religião (IOR) (15/01); nomeação de 19 cardeais, em 20/02/2014 e outros 20 em 15/02/2015, sendo 31 eleitores e oito eméritos.

O atual Colégio de Cardeais comporta 125 eleitores. Deve concretizar a reforma estrutural da Cúria Romana tornando-a ágil e serviço efetivo de comunhão entre as igrejas. Convocou um sínodo extraordinário sobre a família e consultou por meio de um questionário global a real situação das famílias, as relações homossexuais, o drama do divórcio e demais questões do mundo atual, realizado no Vaticano entre 05 a 19/10/2014. Esta foi uma reunião preparatória fundamental para o Sínodo ordinário de outubro de 2015. Pediu que os bispos, como pastores de famílias concretas, falassem abertamente e sem restrições. Isto foi inédito depois de anos de centralismo vaticano esterilizante.

Misericórdia: sua palavra-chave

Comentou, em 22/12/2014, aos funcionários vaticanos o catálogo das 15 doenças que afligem a Cúria Romana, entre as quais o Alzheimer espiritual, a divinização dos chefes e o exibicionismo. Uma nova forma de governar, do jeito de Jesus se faz realidade no governo deste papa. Como diz: “Reconhecer-se pecador é uma graça”. Sua palavra chave é a misericórdia.

Francisco se assume como um pecador fazendo-se um “world´s parish priest” (pároco do mundo), muito próximo das pessoas. Usa o Twitter e atinge 15 milhões de seguidores. A preocupação maior são os escravos de hoje: imigrantes, crianças em situação de guerra e povos massacrados em lugares como Palestina, Iraque e Síria. Sua bandeira é a do mensageiro da paz e da alegria.

Programadas viagens para Turim, Estados Unidos, Espanha, França, Cuba, México, Uganda e Bolívia. A Igreja está sendo reformada profundamente, no corpo e em sua alma. As preces continuam para que o Espírito Santo faça a obra florescer nesta primavera cultivada pelas mãos de Francisco.

* O teólogo e filósofo Fernando Altemeyer Júnior é professor de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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