Expedição segue rota de Saint-Hilaire
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Expedição segue rota de Saint-Hilaire

Edison Veiga

12 de setembro de 2015 | 20h02

Foto: Divulgação

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Um grupo de botânicos brasileiros e franceses está refazendo, quase 200 anos depois, os mesmos caminhos percorridos pelo botânico, naturalista e viajante francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire (1779-1853), mais conhecido simplesmente como Saint-Hilaire. O objetivo da equipe é traçar um paralelo na quantidade e variedade de vegetação encontrada, tanto tempo depois e após os efeitos nocivos de desmatamentos e urbanizações.

O projeto está sendo viabilizado graças a um termo de cooperação firmado entre o governo paulista e a administração de Île-de-France, a região da França que abrange a cidade de Paris. O pontapé inicial da parceria foi a criação, em 2010, do Herbário Virtual de Saint-Hilaire, um catálogo on-line da coleção de Saint-Hilaire (disponível em hvsh.cria.org.br).

História. O francês Saint-Hilaire veio ao Brasil em 1816, acompanhando a missão extraordinária do Duque de Luxemburgo, para tratar do conflito entre Portugal e França quanto à posse da Guiana. O botânico conseguiu participar da viagem por conta de sua influência pessoal, mas contou com a aprovação do Museu de História Natural de Paris e financiamento do Ministério do Interior da França. Ele permaneceu em solo brasileiro até 1822. “Nesse período, fez duas expedições em São Paulo”, conta o botânico Sérgio Romaniuc Neto, do Instituto de Botânica, órgão ligado à Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo. “Uma em 1819, na qual ele deixou na cidade 20 caixas de plantas que tinha coletado e desceu para o sul do Estado, indo em seguida até a Argentina. E a outra, em 1822, quando ele entrou no Estado por Minas e caminhou pela região do Vale do Paraíba.”

Conforme relata a Brasiliana da Biblioteca Nacional, Saint-Hilaire foi um exemplo da maneira como os cientistas europeus “civilizados” daquele tempo se relacionavam com o País. “Não foi um amador que veio ao Brasil. Saint-Hilaire conhecia profundamente a literatura científica e de viagens da época e os procedimentos práticos do trabalho de um naturalista, tais como noções básicas de agricultura, confecção de herbários, transporte de vegetais e, principalmente, dissecação de plantas, a fim de descobrir seus órgãos, por menores ou mais escondidos que estivessem”, informa o livro. “Uma das características mais marcantes do envolvimento de Saint-Hilaire com o Brasil foi sua vinculação aos discursos e práticas utilitárias e filantrópicas que dominam a literatura de viagens desde fins do Antigo Regime. Segundo ele e as autoridades ministeriais que o enviaram, os objetivos maiores de sua viagem seriam o bem-estar da humanidade e a glória nacional. Como na época a França considerava seus interesses como universais, esses dois objetivos se confundem. O Brasil poderia ser benéfico à França por conter uma infinidade de plantas úteis ainda mal conhecidas.”

Claro que a dificuldade encontrada por Saint-Hilaire, ao se embrenhar por matas quase desconhecidas, não faz mais parte das preocupações da equipe atual, composta por cinco pesquisadores – brasileiros e franceses. O primeiro trecho refeito foi o de 1822. “Saint-Hilaire levou dois meses”, contextualiza Romaniuc. “Eram oito mulas. O botânico seguia em uma, seu camareiro francês em outra, um índio botocudo – que ia a pé – e dois índios crianças eram os guias e havia ainda um tocador de mulas. Três mulas serviam apenas para carregar as coisas.” O trecho de 1819, mais longo, está previsto para ser percorrido pelos pesquisadores ainda neste ano.

De acordo com Romaniuc, o estudo – cujos resultados concretos só serão conhecidos alguns meses após o término da segunda expedição – pretende fazer uma análise diacrônica da biodiversidade. Isso significa avaliar a presença de espécies considerando o espaço e o tempo. “Mas não estamos atentando apenas para a ‘presença’ e a ‘ausência’ de determinada planta, e sim para a representatividade delas”, explica.

Um exemplo: Saint-Hilaire relatou, reiteradas vezes, encontrar jacarandás-mimosos e quaresmeiras durante o trajeto; a equipe atual encontrou poucos exemplares da segunda árvore, e nenhum da primeira.[ESCONDER] Para Romaniuc, a maior contribuição do projeto, portanto, é poder propor um “método de trabalho para estimar de fato a perda da biodiversidade”. Porque, como ele lembra, há também a questão da adaptação da paisagem às novas situações. “A flora evolui naturalmente no espaço, ao longo do tempo. Precisamos entender como ela está ocupando a paisagem”, afirma.

Em sua chegada a São Paulo, consta que Saint-Hilaire ficou particularmente entusiasmado pelas “matas paulistas”, com as quais se deparou subindo a Serra da Mantiqueira. Era Mata Atlântica em seu esplendor, sem os desmatamentos e as manchas urbanas que a fizeram praticamente inexistente nessa região.

Exemplos de plantas coletadas por Auguste de Saint-Hilaire em 1822 e encontradas durante a missão franco-brasileira de 2015
Nome científico: Enterolobium contortisiliquum
Nome comum: Timburi, tambaúva, orelha de macaco, orelha de negro
Família botânica: Fabaceae
Ocorrência natural: Mata Atlântica
Nome científico: Cariniana estrellensis
Nome comum: Jequitibá, jequitibá rosa ou vermelho, pau estopa
Família botânica: Lecythidaceae
Ocorrência natural: Mata Atlântica
Nome científico: Moquiniastrum polymorphum
Nome comum: Candeia, cambará, cambará do mato
Família: Asteraceae
Ocorrência natural: Cerrado e Mata Estacional Semidecídua
Nome científico: Ficus guaranitica
Nome comum: Figueira branca
Família: Moraceae
Ocorrência natural: Mata Atlântica e Mata Estacional Semidecídua

Exemplos de plantas coletadas por Auguste de Saint-Hilaire em 1822 e que não foram encontradas durante a missão franco-brasileira de 2015
Nome científico: Schizolobium parahyba
Nome comum: guarapuvu, bacuruva, birosca, faveira
Família botânica: Fabaceae
Ocorrência natural: Mata Atlântica
Nome científico: Psidium cattleianum
Nome comum: Araçá, araçá do campo, araçá amarelo, araçá vermelho
Família botânica: Myrtaceae.
Ocorrência natural: Mata Atlântica
Nome científico: Ocotea odorifera
Nome comum: Canela-sassarás, sassafrás amarelo, canela-funcho
Família botânica: Lauraceae
Ocorrência natural: Mata Atlântica

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