Era a avenida mais bela da cidade
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Era a avenida mais bela da cidade

Em artigo, arquiteto da USP lamenta atual estado da Paulista

Edison Veiga

11 Fevereiro 2016 | 13h35

Foto: Rafael Arbex/ Estadão

Foto: Rafael Arbex/ Estadão

Por Benedito Lima de Toledo*

“Era quanto bastava, para poder ser enfim rasgada da Consolação ao Paraíso, a grande artéria de 2.800 metros de extensão por 30 metros de largura, com que sonhara Joaquim Eugênio de Lima. Assim, por sua conta e risco, contrataram os três sócios o agrimensor Tarquinio Antonio Tarant, que, sob a fiscalização direta de Joaquim Eugênio de Lima, executa todo o plano por este elaborado: movimento de terra, arruamento, pavimentação, arborização, cercados, corte de transversais e o aterro do ‘Trianon’… Reservam, para um parque, uma grande quadra – magnífico maciço de mata virgem – e trazem do Rio o francês Villon, que se encarrega do ajardinamento e da construção de um pitoresco pavilhão-restaurante. Em maio de 1891, Joaquim Eugênio de Lima convida o governador do Estado a visitar as obras da avenida: e este vai em companhia de Rangel Pestana, Clementino de Souza e Castro e Julio de Mesquita. A obra é, para o nosso ‘momento’, realmente um golpe de audácia.” (Rocha Azevedo Filho – Um pioneiro em São Paulo. São Paulo, 1954)

A Avenida Paulista, inaugurada a 8 de dezembro de 1891, comemora este ano 125 anos de história. Por muitas décadas ostentou o título de “a mais bela Avenida de São Paulo”, conforme depoimento de vários viajantes estrangeiros.

Hoje, mais parece um esgoto a céu aberto.

Naquele mercado de peixes tudo é permitido e os responsáveis promovem até loteamento de espaços na avenida! Quem não estiver no “esquema” não tem que piar. Direitos dos cidadãos são conceitos que evaporaram. Fica-se com a sensação de que não entram mais nas preocupações dos magistrados.

É de se lamentar, ainda nesta cidade, entre outros transtornos, o transporte público que continua sendo coisa de terceiro mundo (imundo). As vias públicas fazem inveja à lua, a saber: a superfície lunar não pode concorrer com as crateras reinantes na capital.

As horas perdidas em congestionamento colocam a Prefeitura entre os principais promotores do esgotamento (estresse) de quantos são obrigados a dirigir nesta cidade. A culpa é dos automóveis, alegarão as autoridades.

Os dois maiores urbanistas de sua época, Francisco Prestes Maia e Luiz Inácio de Anhaia Mello, só utilizavam transporte coletivo, particularmente o bonde. Ao término de seu mandato na Prefeitura, Prestes Maia recusou a porta do carro oficial que lhe era aberta, tendo declarado: “Obrigado, agora não sou mais prefeito”. Em seguida, cruzou o Viaduto do chá e foi tomar bonde na Rua Xavier de Toledo. Anhaia Mello, em seu curso na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, igualmente insistia na visão do urbanismo integral, no qual o transporte coletivo era componente essencial. Costumava tomar o bonde na Avenida Paulista na esquina com a Alameda Rocha Azevedo, onde residia.

É oportuno lembrar ainda que a avenida contava com um equipamento admirável: o Trianon. Dessa esplanada era possível descortinar largas vistas, tendo sido local de experiências científicas pioneiras, as quais poderão ser descritas em local mais adequado.

O projeto do Museu de Arte Moderna, da arquiteta Lina Bo Bardi, teve como premissa o respeito a essa paisagem, e nisso foi muito bem sucedida, como é do conhecimento geral. É lastimável que obra tão marcante na paisagem urbana da cidade seja condenada a conviver com a promiscuidade reinante à sua volta.

A degradação que acomete a Avenida Paulista nada mais é do que um reflexo do canibalismo reinante em Brasília. Nessa Esplanada, predomina a desordem e regresso, em lugar da “Ordem e progresso”.

* O arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, é autor de ‘Álbum iconográfico da Avenida Paulista’, ‘Prestes Maia e as origens do urbanismo moderno em São Paulo’, entre outros livros.