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“Entre o sonho e a vigília, trabalham”

Edison Veiga

03 Fevereiro 2011 | 18h58

O escritor e compositor Vitor Ramil é o nono participante da série por escrito.

FOTO: SERGIO CASTRO/AE

Como convivem o escritor e o compositor? São complementares, díspares ou indiferentes?
O escritor e o compositor andam pela casa aberta à noite quente de verão. Caminham entre as plantas suculentas do jardim interno, observam a sala através da grande basculante de ferro. No banheiro, se distraem com os ladrilhos hidráulicos do piso. Amam aquele lugar. Estão ali desde as lembranças mais remotas. A cada movimento que fazem, a casa lhes pergunta quem são. O escritor e o compositor começam a se conhecer. Vão dormir juntos, dividir pesadelos, quase sempre recorrentes. Acordam durante a noite. Às vezes sentem medo. Não deixam de se surpreender e de se deleitar com os sonhos, ainda que sejam os mesmos ou que os façam sofrer. Como é possível ver tanto e com tanta nitidez? Entre o sonho e a vigília, trabalham. No decorrer do dia, cada um irá se ocupar de abrir janelas e percorrer corredores que o outro desconhece. À noite irão se encontrar em algum ponto, quando a casa se perguntar por eles.

Qual sua leitura favorita? Por qual razão?
O compositor lê Angélica Freitas – que é sua conterrânea e vizinha, mas que conheceu há pouco –, põe música em nove de seus versos e viaja. O escritor fica na casa, trabalhando em seu novo livro. Às vezes precisa ler alguma coisa que não sejam suas próprias palavras na tela do computador ou na página caótica de sua agenda de papel. Há pilhas de livros por toda parte, até mesmo de livros velhos e já lidos. A biblioteca deixa as estantes. O escritor não sabe por que escolhe determinado livro dentre os muitos que está lendo ou relendo simultaneamente. A biblioteca quer ser a casa, onde o escritor pode, de uma hora para outra, puxar uma cadeira, ver imagens de Constantinopla no Perfecscope ou consertar um trinco, quase sempre atendendo a razões que desconhece.

De que maneira surgem seus textos literários?
Os textos do escritor costumam surgir de uma síntese a partir de uma sugestão formal.

Prefere escrever ou deletar? Por quê?
O escritor prefere escrever. Negativo, gosta de pensar positivamente.

Sua literatura surge de forma inesperada ou natural? A que velocidade? Com quais sensações?
“Um truque barato: inesperadamente natural e naturalmente inesperada”, pensa o escritor, “mas é isso mesmo, e a velocidades que não me esgotam. Posso até rir ou chorar. No fundo, será sempre a felicidade”.

Dos seus livros, qual o preferido? Por quê?
O escritor vai até o jardim das suculentas. Pensa, como Anaxímenes, que a alma é feita de ar e que através do ar que circula por aquela área descoberta a casa e a cidade de Satolep se comunicam. “O mesmo ar circula em meus três livros, Pequod, A estética do frio e Satolep.” Isso o faz voltar ao escritório muito excitado. Seu livro novo não tem Satolep, não tem pessoas. Tem outros ares. Por isso, no momento, é o seu livro favorito. O escritor gosta das mudanças. E dos começos. Prefere a escritura ao escrito.

E qual sua estante predileta?
O escritor volta a andar pela casa, agora em busca de uma estante. Distrai-se olhando o cinzeiro de ferro, descascado e enferrujado, com a inscrição Berta, que acaba de chegar de outra casa em outro tempo. Como não escolher a estante de Berta?

De qual parágrafo da literatura brasileira gostaria de ter sido o autor?
“Gostaria de ter sido o autor de qualquer parágrafo de meus próprios livros. Não me sinto seguro de tê-los escrito um dia”, diz o escritor ao compositor, quando se reencontram. “É compreensível. Boa parte deles foi escrita por mim”, diz o compositor.