Entre cavalos e automóveis
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Entre cavalos e automóveis

Edison Veiga

23 de outubro de 2015 | 07h47

Foto: Reprodução

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Por Edison Loureiro*

É antiga a relação dos homens com os cavalos, não só como meio de transporte e tração, mas também como esporte. Em São Paulo não foi diferente. Mesmo na época colonial as festas eram motivos para os paulistanos mostrarem suas habilidades na equitação disputando corridas animadas.

Por outro lado, sempre existiu uma paixão pelo jogo, mas os jogos de azar sempre foram reprimidos, ao contrário das apostas em torneios em que se disputassem habilidades. Logo, qualquer corrida de cavalos era motivo para apostas. A renda das corridas era taxada. Em meados do século XIX o imposto “pelas corridas de cavallos denominadas parelhas” era de 50 mil réis. Naquele século XIX, até 1876, as corridas eram realizadas no Campo da Luz, na região onde ficava a antiga Chácara do Campo Redondo. Hoje naquela área estão as ruas do Bom Retiro e Campos Elíseos.

Não havia nenhuma associação que organizasse as corridas, eram simplesmente arranjadas entre os criadores de cavalos e no dia combinado lá estavam todos eles e mais o povo para a diversão. E claro, as apostas. Uma frequentadora ilustre e animada das corridas era a Marquesa de Santos e sua família, que levava seus cavalos e participava ativamente das apostas. Dá para imaginar a nobre senhora, agora já aposentada de suas diabruras de juventude na corte, recolhendo o dinheiro das apostas num campo ermo, arrabalde da Imperial Cidade de São Paulo. Um jornal de 1864 noticiava: “Effectuaram-se ante-hontem as corridas, na Luz, conforme havíamos annunciado. Foram immensas e valiosas as apostas que se fizeram, sendo quasi todas ganhas pelos cavallos pertencentes à família da exma. Snra. marqueza de Santos”.

Em 1875 aquele grupo resolveu fundar uma associação para organizar as corridas. Assim foi fundado o Club Paulistano de Corridas, atual Jockey Clube de São Paulo, que no mesmo ano conseguiu da Câmara o aforamento “de um kilometro em quadra de seus terrenos na Moóca”, conforme anotava o jornal O Estado de S. Paulo. Em outubro do mesmo ano seria ainda concedida uma subvenção de 3:000$000 (três mil contos de réis) anuais para o clube. A primeira diretoria provisória do clube era Raphael Tobias de Aguiar Paes de Barros, Eleutério da Silva Prado e Bento de Paula Souza. Antonio da Silva Prado também foi um dos fundadores. Mais tarde, João Tobias de Aguiar e Castro, filho da marquesa de Santos com Tobias de Aguiar seria nomeado secretário do clube. Bem, talvez a presença de nomes tão ilustres ajude a explicar a presteza e generosidade da Câmara.

Este terreno situa-se onde hoje estão as Ruas Bresser, Taquari e a Radial Leste. Aí foi construído em 1876 o Hipódromo Paulistano. A inauguração, prevista para setembro de 1876, acabou acontecendo em 29 de outubro daquele ano e a “concurrencia foi numerosa avultando obello sexo alli dignamente representado”, conforme descrito por um jornal da época.

Correram quatro páreos, no primeiro venceu o cavalo Macaco, de João Tobias de Aguiar e Castro, no segundo venceu Corsário de Brazílico de Aguiar e Castro, o terceiro foi vencido por Corisco de Maria de Aguiar e Castro e o último (páreo dos pungas) por Kalifa de Antonio Queiroz dos Santos. Como se vê, a família da marquesa de Santos, que esta altura já havia morrido, continuava a ganhar quase todas.

O caro leitor, que teve a paciência de seguir esta narrativa até este ponto deve estar pensando: “Este cara está me enrolando. Só fala de cavalos. Cadê os automóveis?”.

Calma, já estamos chegando lá.

Foto: Fundação Energia e Saneamento/ Divulgação

Foto: Fundação Energia e Saneamento/ Divulgação

Diz o historiador Nuto Santana que o primeiro automóvel que surgiu em São Paulo pertenceu a Henrique Santos Dumont, irmão do inventor Alberto Santos Dumont. Isso foi em 1900. Dois anos depois já existiam alguns veículos automotores circulando pela cidade, ou tentando circular, considerando as condições da maioria das ruas e estradas e a dificuldade de manutenção e abastecimento. Era realmente mais um esporte que transporte propriamente dito. Henrique Santos Dumont desistiu do dele em 1901 após um ano de uso.

E não é que em 1902 alguns desses entusiasmados automobilistas resolveram realizar uma corrida de automóveis? O local escolhido não poderia ser outro: O Hipódromo da Mooca.

Assim é que o jornal O Estado de S. Paulo noticiava no domingo, 14 de dezembro de 1902 que “A corrida que dá hoje o Jockey Clube Paulistano é inquestionavelmente a mais bella e importante do anno… No intervalo do terceiro para o quarto pareo será disputado pela primeira vez no Brasil um pareo de automóveis, dirigido por moços das mais distintas famílias desta capital.” Eu não fui conferir para ter certeza que foi a primeira do Brasil, mas com certeza a primeira de São Paulo. Mas acredito que o jornalista tinha razão pois no Rio de Janeiro, parece que o primeiro automóvel só foi surgir naquele ano de 1902, pertencia a José do Patrocínio e era um carro movido a vapor.

Eram quatro os competidores, realmente de famílias ilustres de São Paulo, com carros de marcas que hoje são inteiramente desconhecidas para os leigos da atualidade.

A. Morelli, representante da Prinetti & Stucchi, fabricante de máquinas e veículos, em agosto daquele ano abriu um salão de exposições de veículos no prédio do antigo Hotel D’Oeste, no largo de S. Bento. Apresentou um carro marca De Dion-Bouton de 6,5 cv, porém não fez parte da corrida, apenas participou da abertura.

José Paulino Nogueira, político e empresário de Campinas, pilotava um Darracq de 12 cv. Provavelmente tenha sido um Opel-Darracq.

Francisco da Cunha Bueno, filho do visconde da Cunha Bueno, Paulo da Silva Prado, Antonio da Silva Prado Júnior e Flavio Uchoa com um Darracq de 9 cv.

Como José Paulino corria com um motor mais potente, deu duas voltas de vantagem aos adversários, mesmo assim ganho o páreo, que completou 9.700 em 10 minutos. Uma média de 58,2 km/h. Francisco Cunha Bueno ficou em segundo lugar.

Como era de se esperar, a tarde daquele domingo no Prado da Mooca, foi de sucesso, “notando-se grande entusiasmo por parte das senhoras que não pouparam palmas aos vencedores, principalmente ao Sr. Jose Paulino, vencedor do páreo de automóveis”.

E também se apostou muito. A poule simples da corrida de automóveis pagou 31$000 e a dupla 21$500.

O difícil foi ter que esperar uma hora para conseguir pegar o bonde da Light de volta.

* O memorialista e pesquisador Edison Loureiro é economista aposentado.

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