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Eduardo Srur, o ecologista da arte

Edison Veiga

26 de fevereiro de 2012 | 03h43

Com nova instalação no Parque Villa-Lobos, artista confirma sua veia engajada
FOTO: FILIPE ARAUJO/ AE

Desde ontem, o frequentador do Parque Villa-Lobos, na zona oeste de São Paulo, pode perder-se no meio de um monte de lixo. Trinta toneladas de plástico, garrafas PET, alumínio… Não, não é um problema de limpeza do parque. Trata-se de Labirinto, a nova instalação do artista plástico Eduardo Srur, de 37 anos, o mais engajado ecologista da cena artística contemporânea.

Como o próprio nome sugere, a ideia é que o público interaja com a obra, percorrendo os corredores de lixo. “Que a pessoa se perca em um primeiro momento, mas em seguida encontre a saída. É o que queremos para a sociedade, não é?”, provoca.

Não é a primeira vez que Srur flerta com a causa ambiental. “Acredito que a arte tenha esse poder: provoca, conscientiza e educa a população de uma forma direta.” Formado em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), ele começou sua carreira como pintor – mas não foi assim que conquistou fama, público e crítica.

Em 2004, sua carreira decolou. Inspirado em Javacheff Christo, artista americano de origem búlgara conhecido por grandes intervenções urbanas – em 1995, por exemplo, embrulhou a sede do Parlamento alemão –, Srur trocou de suporte: em vez das telas, passou a fazer arte na cidade. Naquele ano, paulistanos se surpreenderam ao ver 35 barracas de acampamento penduradas do então “esqueletão da Doutor Arnaldo” – estrutura de concreto que estava abandonada na avenida homônima e onde hoje funciona o Instituto do Câncer Doutor Arnaldo.

Desde então, Srur afirma que consegue viver da arte. “E vivo bem”, diz. Paulistano criado nos Jardins, bairro onde até hoje mantém seu ateliê, ele atualmente mora no Real Parque, miolinho nobre do distrito do Morumbi. “O segredo é que meu lado artístico se mistura com meu lado empresarial”, admite. Em 2006, ele montou uma empresa de intervenções urbanas que oferece inusitadas soluções de marketing para a iniciativa privada. “Assim, os lados autoral e comercial convivem sem se confundir. São universos diferentes que se complementam.”

Currículo. Difícil o paulistano que nunca tenha se deparado com uma obra de Srur, ainda que não ligue o nome à criação. Foi ele quem encheu o Rio Tietê, em 2008, com gigantescas garrafas PET coloridas – cada uma medindo 11 metros de comprimento. Foi ele que equilibrou seis bicicletas sobre cabos de aço em plena Avenida Paulista, em 2007. Foi ele que vestiu estátuas paulistanas, do Duque de Caxias ao Borba Gato, com alaranjados coletes salva-vidas, em 2008. E, em 2006, espalhou 100 caiaques pelo Rio Pinheiros. Também é ele o autor das 12 ecobags gigantes espalhadas pela cidade.

Misturando humor e crítica social, sua carreira tem cativado público e ganhado admiração até de colegas artistas. “Suas obras ficam na memória, são sensacionais. É um artista único no Brasil”, elogia o muralista Eduardo Kobra – outro que usa a cidade como pano de fundo para obras.

Para conseguir esses resultados, Srur diz que não consegue se desligar nem nos momentos de lazer. “Se vou ao cinema ou a um passeio qualquer, no caminho já estou imaginando as respostas que posso dar a essa cidade, tão caótica e dinâmica”, exemplifica. “Misturo, sem perceber, trabalho e lazer, arte e vida.”

A instalação do Parque Villa-Lobos não deve parar por aí. Nas próximas semanas, os Parques da Juventude, na zona norte, e Ecológico do Tietê, na leste, também ganharão obras semelhantes. A intervenção faz parte do Cultura Livre SP, projeto do governo do Estado que promove atividades culturais gratuitas em espaços públicos da capital.

Todo o lixo utilizado foi adquirido de cooperativas de catadores. “Houve uma negociação nos últimos 45 dias para que elas coletassem e armazenassem o material.” Para a montagem, Srur contou com 15 assistentes.

Montanha. O artista já tem um plano para essas montanhas de lixo, quando os labirintos forem desmontados, em 8 de abril. “Minha vontade é juntar todos em um só, um megalabirinto, e instalar em local público. Quem sabe o Parque do Ibirapuera”, vislumbra.

PROVOCAÇÕES URBANAS

FOTO: DIVULGACAO
A intervenção Acampamento dos Anjos lançou o nome de Eduardo Srur. Em São Paulo, ela foi instalada no então “esqueletão da Doutor Arnaldo”. Mas a obra correu o mundo – o artista pendurou barracas de camping em prédios de Florianópolis, Curitiba e outros sete municípios brasileiros, além de construções na França, Suíça e em Cuba.

FOTO: PAULO WHITAKER/ REUTERS
As 20 garrafas de 11 metros de comprimento cada da obra PETS espalhadas pelo Rio Tietê foram o ponto alto de um trabalho de conscientização ecológica de 3 mil crianças. Quando a obra foi desmontada, o material plástico foi reciclado e se transformou em mochilas ecológicas distribuídas para estudantes da rede pública.

FOTO: WERTHER SANTANA/ AE
No meio da polêmica do fim das sacolas plásticas, a Associação Paulista de Supermercados espalhou ecobags gigantes pela cidade. As esculturas, com mais de 4 metros de altura, são assinadas pela Attack Intervenções Urbanas, empresa de Eduardo Srur. A ideia é espalhar as sacolonas pelo interior – já há uma em Itu e outra em Santos.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, seção ‘Paulistânia’, dia 26 de fevereiro de 2012

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