E se nada der certo mas tudo der certo?
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E se nada der certo mas tudo der certo?

CRÔNICA

Edison Veiga

06 de junho de 2017 | 14h36

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Não, não chegamos ao ponto de fazer uma festa ridícula, felizmente. Durante a adolescência, contudo, ouvíamos diariamente de alguns professores, em tom de ameaça: “se você não estudar, não passar no vestibular, vai acabar lavando pratos, vai acabar trabalhando como pedreiro, vai acabar varrendo a rua”.

Houve um professor de História. Que, ao contrário do estereótipo comum aos professores de História, era reacionário. Era opressor. Era petulante e arrogante. Ensinava com ódio, querendo que não entendêssemos. Parecia se zangar quando um aluno, desafiando sua contradidática, muitas vezes aprendendo por conta, lendo livros que ele jamais recomendaria, conseguia tirar um 10. Era um dos sócios de um colégio do qual acabei expulso, mas isto é papo para outro dia.

Ele representava o ensino opressor daquele colégio.

Eu tinha 14 para 15 anos e me orgulhava de ser repórter do jornal O Momento, alternando manhãs escolares com tardes e noites de entrevistas, muitos cafés na redação, teclados frenéticos, pautas, laudas, réguas paicas, pestapes, fechamentos. Um dia ele, que certamente sabia de meu ofício extracurricular, perguntou-me se eu já havia escolhido qual vestibular prestar:

– Jornalismo – respondi, convicto.

– Não faça isso. Semana passada eu fui para São Paulo, tomei um táxi e, veja só, o taxista era um jornalista desempregado.

O professor disse isso com desdém, como se a profissão de taxista fosse menor do que a de jornalista. Em sua pedagogia ditatorial, queria demonstrar que algumas profissões são superiores a outras, que pessoas podem ser medidas por seu salários e não por suas éticas e suas felicidades.

– Tudo bem – rebati. – Aposto que há muitos taxistas que também são formados em História.

Nunca mais tocamos no assunto, muito porque para mim não me importavam conselhos de alguém como ele.

Acho pouco provável jornalistas virarem taxistas porque sabemos que é muito difícil (e cara) a obtenção de alvará para tal controlada profissão. Mas já fiz mais de uma viagem de Uber com um motorista que, durante a conversa, me confidenciou ser jornalista desempregado.

O cenário da profissão é ruim. Mas isto não faz dela menor ou maior do que qualquer outra. Da mesma maneira que uma festa intitulada “se nada der certo” com alunos caracterizados como atendentes de lanchonete, faxineiros e ambulantes não faz sentido – pior ainda porque realizada dentro de uma instituição escolar, ou seja, com a anuência de professores, coordenadores e diretores -, a pressão criada por um discurso que procura obrigar o jovem a se tornar um “doutor”, a ter uma profissão considerada de elite, também só pode nos envergonhar.

Meu filho tem apenas 3 anos mas já ouvi algumas vezes a pergunta:

– E se ele quiser ser jornalista?

Apesar de preocupado com as agruras da profissão que escolhi, procuro responder da mesma maneira que responderia se alguém me perguntasse:

– E se ele quiser ser médico?

– E se ele quiser ser pedreiro?

– E se ele quiser ser engenheiro nuclear?

– E se ele quiser ser ator?

– E se ele quiser ser porteiro?

– E se ele quiser ser astronauta?

– E se ele quiser ser cozinheiro?

Que, como pai, irei tentar mostrar a ele como funciona a profissão, seja qual for. Que, como todas as que existem, tem lá seus momentos ruins e seus dias sensacionais. Que, seja qual a carreira que ele escolher, só pedirei para que se esforce para dar o melhor de si, para ser um bom profissional. E, principalmente, que se encontre.

Porque para um pai é a felicidade do filho que importa. (E, certamente, o mesmo pensam os bons professores.) Portanto, o “se nada der certo” não é ganhar a vida com dignidade em um emprego com menos status social; mas sim passar a vida sob as consequências de uma escolha errada, movida por outros interesses que não a satisfação pessoal.

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