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É da Lapa a banda mais antiga da cidade

Edison Veiga

05 de fevereiro de 2012 | 00h01

Criada em 1881, Corporação Operária tem 22 músicos e se reúne toda sexta-feira
FOTO: JB NETO/ AE

Dobrados, marchinhas, valsas… Sons que remetem ao tempo em que o programa noturno paulistano era passear pelos jardins ouvindo apresentações de bandas e fanfarras nos coretos. Quem for ao Sesc Santana no próximo fim de semana será convidado a fazer uma viagem pela história musical de São Paulo. E terá, como cicerone, a banda mais antiga da cidade: fundada em 1881, a Corporação Musical Operária da Lapa se apresenta ao lado da Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo.

Com 22 integrantes, a Corporação se reúne toda sexta-feira em um imóvel simples na Rua Joaquim Machado, na Lapa, zona oeste. Para ensaiar. À frente do grupo, o bancário aposentado Nestor Avelino Pinheiro, de 71 anos, mais de 20 de Corporação, maestro desde 2003. Ele sabe de cor a história da instituição. “Fui juntando os pedaços, pesquisando, porque nossa banda é importante para São Paulo”, explica.

O conjunto musical nasceu em outro endereço, na região conhecida como Lapa de Baixo. Chamava-se Lira da Lapa e, acredita-se, foi criada por influência do pianista e maestro ítalo-brasileiro Luigi Chiaffarelli (1856-1923), hoje nome de rua nos Jardins. Com o advento da República, em 1889, os músicos decidiram homenagear o novo momento histórico rebatizando a banda: virou Corporação Musical 15 de Novembro. “Aí, na primeira apresentação com esse nome, quebrou o pau”, conta Nestor. “Apareceram uns monarquistas, virou briga, confusão. Vários instrumentos acabaram destruídos.”

Em 1908, novo nome. Era uma época em que muitos integrantes trabalhavam na São Paulo Railway (SPR) – o grupo então se tornou Banda dos Empregados da SPR. “No fundo, eles tinham esperança de conseguir um dinheirinho da diretoria da SPR”, comenta o maestro.

O nome atual – Corporação Musical Operária da Lapa – é de 1914. Até então, a banda não tinha sede própria. Os ensaios eram ora na casa de um músico, ora na casa de algum admirador do trabalho deles. Dono de vários lotes de terra na região, o fruticultor e verdureiro italiano Nicola Festa (1863-1938), entusiasta das artes, doou um terreno para a Corporação. Os músicos se cotizaram e, no fim dos anos 1920, ergueram o imóvel que, até hoje, é sede do grupo.

Tempos modernos. “Quando assumi, tentei melhorar um pouco. Era engraçado: você ia no bar da esquina e ninguém sabia da existência da banda”, conta Nestor. “Então começamos a fazer mais apresentações, coloquei coisas mais modernas no repertório, uns boleros, Roberto Carlos, John Lennon…”

Atualmente, a Corporação Musical Operária da Lapa chega a fazer 15 apresentações por ano. “Dividimos o dinheiro do cachê entre os músicos e separamos uns 10% ou 15% para a manutenção da sede, como contas de luz e água”, diz ele. Outra mudança de sua gestão foi que, finalmente, mulheres passaram a ser aceitas na Corporação. “Era um ‘clube do bolinha’. Hoje, há três meninas: uma na bateria e duas nas clarinetas”, afirma.

FOTO: JB NETO/ AE

Frentista aposentado, o tubista Arnaldo Alves de Moura (foto acima), de 76 anos, é o mais antigo músico da banda. “Já toquei em várias outras, todas extintas. Sempre que morria o maestro, acabava a banda”, conta ele, que desde os 13 anos integra corporações musicais. Sua primeira passagem no grupo da Lapa foi ainda na década de 1960. Depois, voltou no início dos anos 1990.

Do outro lado da ponta está o trompetista Vitor Craveiro Fusco (foto abaixo). Estudante do 8.º ano, o garoto de 13 anos é o caçula da turma – entrou na Corporação com apenas 8. “No começo, ficava meio tímido, já que todos são mais velhos. Mas com o tempo vi que são legais”, diz ele, que encara a música como hobby. “Não quero ser profissional. Quando crescer, vou ser biólogo ou chef de cozinha.”

FOTO: JB NETO/ AE

Para Livio Tragtenberg, o maestro da Orquestra de Músicos das Ruas e diretor-geral do espetáculo que ocorrerá no Sesc Santana, é nesse amadorismo – nenhum integrante da Corporação é músico profissional – que está a beleza da banda mais antiga de São Paulo. “Tosco e brutal, o som deles é executado de uma forma muito própria, de um jeito que só eles conseguem. E nos remete a um passado, a uma vivência”, analisa Livio. “É maravilhoso tocar com eles. Precisamos ter mais gente fazendo música de forma amadora. Porque essa é a música que faz parte da vida.”

Não é a primeira vez que a Corporação se apresenta com os Músicos de Rua. Já fizeram shows em algumas unidades do Sesc e – o que lhes desperta maior carinho – foram uma das atrações da Virada Cultural de 2008. “Acabamos a apresentação na Praça da Sé e decidimos caminhar até o Vale do Anhangabaú tocando música”, recorda-se Nestor. “Juntou muita gente. O que nós mais queremos é tocar novamente um dia em uma Virada Cultural.”

“O que a Corporação Musical Operária da Lapa faz é mais do que música. É parte da história das pessoas da cidade”, resume Livio. São emoções de um tempo em que os coretos eram palcos, os jardins eram baladas e São Paulo tinha um quê de cidadezinha do interior.

Sonho. Como na pequena Nazaré Paulista, hoje com 16 mil habitantes, onde Nestor viveu até os 20 anos. “Ainda menino, eu me encantava quando vinha uma banda se apresentar na cidade. Tinha um gravador e saía registrando tudo”, lembra. Em sua adolescência, a cidade chegou a ter uma banda – e Nestor, sem entender nada de música, foi um orgulhoso integrante, tocando caixinha. Com a mudança para São Paulo, a faculdade de Economia, o emprego no banco, o casamento, os quatro filhos e os cinco netos, o sonho de ser músico ficou de lado. “Só quando todos estavam criados, decidi fazer o que mais gosto na vida e fui realmente aprender música”, conta o maestro. Que, sem nenhum músico na família, sonha, um dia, passar o que sabe aos dois bisnetos – Pedro Henrique, de 4 anos, e João Vitor, de 2.

Serviço
ORQUESTRA DE MÚSICOS DAS RUAS DE SÃO PAULO E CORPORAÇÃO MUSICAL OPERÁRIA DA LAPA: DIAS 11, ÀS 21H, E 12, ÀS 18H, NO SESC SANTANA (AVENIDA LUIZ DUMONT VILLARES, 579, TEL: (11) 2971-8700). R$ 16.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, seção ‘Paulistânia’, dia 5 de fevereiro de 2012

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