É a avenida mais bela da cidade
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É a avenida mais bela da cidade

Em artigo, bisneto do engenheiro Joaquim Eugênio de Lima, que "abriu a Paulista", defende os usos da avenida

Edison Veiga

16 Fevereiro 2016 | 05h19

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Por Paulo Roberto de Lima Bühler*

A Paulista continua sendo a mais bela avenida paulista. Isso mesmo, só não enxerga quem a vê com olhos de Belle Epoque. Nasci e cresci na Paulista, ouvindo minha mãe falar que “era a avenida do vovô”. Ouvia a toda hora a história da Paulista, ia para a escola na Paulista. Depois, na adolescência, pegando o bonde Avenida para ir à Rua do Carmo, onde fiz o ginasial. Como se não bastasse, quando cabulava aula, cabulava na Paulista. Ia brincar de pega-pega no Trianon e descansava sentado encostado no busto do meu “Bivô”.

Mais tarde, já adulto, ia pra PUC pela Paulista. Trabalhando, terno e gravata, perdi a conta das inúmeras reuniões na Paulista. Hoje não passo lá todo dia, mas, há uns quinze dias, tive o prazer de levar meus netos, num domingo ensolarado, para brincar nos parquinhos do Trianon, onde me vi criança outra vez. Que delícia! A Paulista estava toda colorida, cheia de gente flanando, passeando a pé, de bicicleta, curtindo a vida. Gente brincando com as crianças, gente namorando, casais conversando alegremente, conjuntos tocando jazz, samba, MPB. Vida, muita vida. Tinha de tudo um pouco, mas tinha mesmo era a alegria de viver.

Em 1891, quando a avenida foi inaugurada, São Paulo tinha cerca de 65 mil habitantes. Acharam que deveria ter nome de flor, seria Avenida das Acácias. De forma alguma, dissera meu bisavô (o engenheiro Joaquim Eugênio de Lima), “será Avenida Paulista em homenagem aos Paulistas”. Ele já olhava para uma cidade vibrante, era não só um grande urbanista, mas um empreendedor nato. E assim a avenida foi conhecendo os diferentes momentos da cidade e de seu povo, foi se desconstruindo e se reconstruindo ao longo do tempo. E assim será sempre, como deve ser. Passou dos bondes puxados a burros para os elétricos, depois para o asfalto, depois para as duas pistas, para o Metrô e agora, recentemente tem também a ciclovia. Acompanhou as grandes mudanças sociais e culturais do país. De fato, conheceu o Modernismo de Mário de Andrade, de Anita Malfatti, e de Menotti Del Picchia em 1922 e a Revolução Constitucionalista em 1932. Olhou na cara feia da ditadura de 1964 e a repudiou, abraçou e vibrou com a garotada de cara pintada. Enfim, abriu espaço e abrirá sempre espaço para as manifestações populares democráticas, as mais diversas. Crescemos um pouquinho, é verdade, somos hoje só 12 milhões de habitantes.

Isso posto, a Paulista será sempre um reflexo do cotidiano da cidade, e como tal, não pode ser uma perfeição em termos urbanísticos. É mutante, mas tem identidade própria. Ainda agora, no carnaval, deu aula de alegria e de urbanidade. Que delícia ver aqueles blocos, o povo todo brincando. Maravilha!

Então, meu caro, não espere uma avenida asséptica, inodora, seria insossa essa avenida que você parece imaginar. A beleza da nossa Avenida Paulista está no fato de que ela tem mesmo cara de povo, cheiro de povo, barulho de povo. É um espaço não só do trabalho, mas da cidadania, da democracia, das manifestações populares. Essa é a beleza da nossa avenida, ela é o retrato da nossa gente.

* Paulo Roberto de Lima Bühler é cientista social – e bisneto do engenheiro Joaquim Eugênio de Lima.