Um dia intenso para o ‘Monumento às Bandeiras’
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Um dia intenso para o ‘Monumento às Bandeiras’

Edison Veiga

03 de outubro de 2013 | 00h01

Agora à noite, manifestantes jogaram tinta no Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret. A quarta-feira (2) foi um dia intenso para o cartão-postal paulistano.

FOTO: EVELSON DE FREITAS/ ESTADÃO

Personagem central da própria noção de identidade paulista, a figura do bandeirante protagoniza uma dicotomia histórica: de um lado, o valente desbravador que enveredou pelos sertões consolidando o País. De outro, o assassino de índios. Na manhã de ontem (quarta), o Monumento às Bandeiras, principal homenagem paulistana ao bandeirante, amanheceu pichado.

O local não foi escolhido por acaso. Afinal, não se tratava de um ato de vandalismo qualquer. As inscrições em um dos mais famosos cartões-postais de São Paulo – conhecido popularmente como “empurra-empurra” ou “deixa que eu empurro” – eram contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de número 215, que muda regras para a demarcação de terras indígenas (leia abaixo).

Ferir símbolos é ferir o próprio orgulho. A Prefeitura agiu rapidamente. Na tarde de ontem, a empresa de limpeza contratada pelo Departamento de Patrimônio Histórico – órgão da Secretaria Municipal de Cultura – encarregou-se de deixar o monumento tinindo. De acordo com a secretaria, o serviço foi feito por “jateamento de água limpa e quente, com pressão determinada para o tipo de material do monumento”, mas também foram “utilizados removedores químicos”. Até o início da noite de ontem, não foi especificado quanto a operação custou aos cofres públicos.

Com 240 blocos de granito de 50 toneladas, a monumental obra é assinada pelo escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret (1894-1955). Nela, estão representadas 29 figuras humanas, entre bandeirantes, índios, mamelucos e negros. “Meu pai orgulhava-se da solidez dessa obra. Ele costumava brincar que, mesmo que caísse uma bomba atômica em São Paulo, ela permaneceria intacta”, afirmou ontem o engenheiro Victor Brecheret Filho, de 71 anos, ao Estado.

Sobre a pichação, Brecheret Filho disse estar “espantado”, “chocado” e “horrorizado”. “Estamos vivendo um período de pré-barbárie. Até pouco tempo atrás, o vandalismo não atingia locais que as pessoas foram educadas a respeitar”, comentou. “ Agora, nada mais é respeitado. A convivência harmônica está acabando.”

Ele sugeriu que seja adotada em São Paulo uma solução semelhante a que protege a escultura La Carreta, de José Belloni, em Montevidéu (Uruguai). “Um detector de passagem, com feixe de luz, capaz de acionar uma sirene quando alguém passa”, explicou à reportagem.

Intervenções. Não é a primeira vez que o icônico monumento é alvo de intervenções. Em maio do ano passado, um dos bandeirantes da escultura teve as unhas do pé pintadas com giz de cera azul – como se tivessem sido esmaltadas.

Também em 2012, um grupo de artistas resolveu colocar orelhas de burro nos cavalos do monumento. Neste caso, entretanto, a escultura não foi danificada: as orelhas eram feitas de plástico e ficaram ali apenas por cerca de 5h – tempo suficiente para que os artistas fotografassem o, digamos, novo visual da escultura.

Entrevista: o filho do escultor

FOTO: ALEX SILVA/ ESTADÃO

Como o senhor recebeu a notícia da pichação do Monumento às Bandeiras?
Estou espantado. Horrorizado. Chocado. Trata-se de talvez o último monumento aberto da cidade, que pode ter uma convivência além do que a educação das pessoas sugere. Esse vandalismo é sinal dos tempos. Estamos vivendo um período de pré-barbárie. Até pouco tempo atrás, o vandalismo não atingia locais que as pessoas foram educadas a respeitar. O Metrô é um exemplo. Agora, nada mais é respeitado. A convivência harmônica está acabando.

Mas, por estar integrado à paisagem urbana, esse tipo de manifestação era previsível um dia, não?
Meu pai criou o Monumento de uma maneira que estivesse incorporado à cidade. Ele nasceu integrado. Mas o pessoal passa dos limites. Crianças sobem nele, até adultos sobem. Isso também é vandalismo. O Monumento às Bandeiras é de granito, é resistente, mas não pode ser maltratado assim. Meu pai orgulhava-se da solidez dessa obra. Ele costumava brincar que, mesmo que caísse uma bomba atômica em São Paulo, ela permaneceria intacta.

Diante do ocorrido, algumas pessoas apontam que seria necessário protegê-lo, cercá-lo. Mas isso certamente criaria uma interferência visual muito incômoda. Em sua opinião, o que poderia ser feito?
Já pensei muito sobre isso. Imaginei uma cerca viva baixa, uma profundidade no terreno circundando o monumento, uma série de coisas. Há alguns anos, encaminhei à prefeitura algumas sugestões. Agora tenho pensado que o melhor seria termos algo como aquela escultura de Montevidéu (La Carreta, de José Belloni) que tem um detector de passagem, com feixe de luz, capaz de acionar uma sirene quando alguém passa.

Entrevista: o pichador

FOTO: FELIPE RAU/ ESTADÃO

Por Bruno Paes Manso

Eles avisaram algumas pessoas que fariam uma ação de impacto na noite de terça-feira. Pouco antes da meia-noite, entre quatro a seis pichadores foram para frente do Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret, no Ibirapuera, na zona sul. Escreveram “Bandeirantes assassinos” e “PEC 215 Não”, em referência ao projeto que pretende tirar do Executivo a definição sobre a delimitação de terras indígenas e passar ao Congresso Nacional. A ação durou poucos segundos. Os pichadores temiam que imagens das câmeras de vigilância ao redor do monumento acionassem o Centro de Operações da PM (Copom). “Temos amigos que foram enquadrados por formação de quadrilha e todo cuidado é pouco”, disse um dos pichadores, que na entrevista pediu para ser chamado de Bakunin, em referência ao líder anarquista Mikhail Bakunin.

Segundo ele, o objetivo era chamar a atenção da imprensa para o tema ao pichar um dos símbolos de São Paulo. Por que, então, entrar no jogo? Na entrevista abaixo, o pichador explica o que leva o grupo, que já participou de diversas depredações na cidade desde os protestos de junho (incluindo as pichações ao Teatro Municipal, Prefeitura e o pórtico feito por Paulo Mendes da Rocha na Praça do Patriarca), o que motiva a ele e outros jovens paulistas a atacar o patrimônio público.

Por que vocês picharam o Monumento às Bandeiras?
Aquele monumento representa os bandeirantes e muita gente não sabe quem foram eles. Os bandeirantes foram, na verdade, grandes estupradores e assassinos de índios. Aquele monumento representa toda uma era de opressão e segregação aos índios. Todos os esses monumentos representam símbolos da opressão. A maioria não sabe, está rolando agora uma emenda constitucional, a PEC 215, que pretende acabar com a demarcação indígena. A gente abraçou essa causa, nós do Pixo Manifesto Escrito. Porque a nossa cultura indígena é das poucas coisas que nos restam. Fomos civilizados por uma civilização ocidental que chegou aqui e destruiu nossa cultura. Fazendeiros e ruralistas continuam assassinado os índios e ainda querem mais. Senadores e deputados a favor dessas leis são os fazendeiros, travestidos de políticos.

Como foi a ação? Quantos participaram?
Participou número suficiente de pessoas pra não chamar a atenção. Porque a gente sabe que tem um monitoramento grande por lá. A gente destinou uma parte da nossa equipe, de competência, para fazer o ato e conseguir emplacar a repercussão na mídia. O objetivo dessa intervenção é trazer a pauta da PEC e colocar isso em discussão nacional.

É um monumento histórico da cidade. Não é uma forma agressiva de se manifestar?
Agressivo é aquele monumento, mas as pessoas não sabem disso. Estão ali os índios com os Bandeirantes, tem ali uma simulação de uma bondade dos Bandeirantes. Mas os índios eram escravos, eram mortos. Então o que realmente é violento são esses monumentos, mas as pessoas não sabem disso. A nossa ação é apenas uma intervenção efêmera, o monumento é uma intervenção permanente e eterno no espaço público.

Desde junho o Pixo Manifesto participou de outras ações, como a depredação da Prefeitura. Como você vê essa ação de destruição e intervenção ao patrimônio público. Como vocês se definem politicamente? Vocês são black blocs?
Nós somos pichadores. Somos um coletivo anônimo. Pra gente o vandalismo é um instrumento político. A origem do vandalismo é político. Visa destruir o símbolo da monarquia, o símbolo do inimigo. É uma destruição simbólica. Na verdade, o picho não chega a destruir. O certo mesmo era a destruição completa desses patrimônios. Era para destruir esses patrimônios e não existir mais. O Pixo Manifesto Escrito já está em sete capitais do Brasil, atuando de forma organizada e detonando as cidades.

Qual a relação de vocês com os black blocs?
A gente não tem relação com os black blocs. A gente tem relação do pessoal do Movimento Passe Livre e os movimentos das causas Indígenas. São pessoas que se aproximaram de nós. A gente tem alguns objetivos em comum. Com o black bloc, a gente não conhece ninguém. Eles não têm organização como a nossa.

Inicialmente vocês foram contra a PEC que tirava o poder do MPE de investigar, certo?
Sim, a gente ajudou a derrubar essa PEC que tirava o poder do Ministério Público de investigar a corrupção dos políticos. Agora a gente quer lutar para derrubar a PEC 215 até o fim.

Vocês têm novos planos?
Sim. Além de participar dos atos contra as tarifas, nós participamos de todos, metroviários. A gente também age com os nossos rolês pela cidade, escolhe os alvos antecipadamente, como ocorreu ontem. Para trazer essas discussões à tona. Além disso, a gente usa esses alvos para trazer a discussão à tona na mídia porque, se as pessoas não sabem, as causas não ganham potência.

Faz 30 anos que os pichadores existem em São Paulo. Essa é uma nova fase do movimento?
Sempre houve ações coletivas, principalmente no começo. A galera do picho, que era mais os punks e hardcore, os caras já tinham uma formação política. Com o tempo, o picho ficou mais focado às suas disputas internas. Para nós a potência do picho estava se perdendo nessa guerra de egos. Essa iniciativa do Pixo Manifesto Escrito era justamente unir os pichadores coletivamente de uma forma anônima e neutra. Ninguém quer representar aqui os nomes de suas marcas. O Pixo Manifesto Escrito é apenas para divulgar causas políticas com símbolos da organização sem ninguém assinar e levar crédito por isso. São os pichadores voltando ao pleno anonimato. É essa que é a intenção.