Dona Dirce, a “tia da rua” (1930-2015)
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Dona Dirce, a “tia da rua” (1930-2015)

Como "quase sem querer",uma moradora de São Miguel Paulista inaugurou em São Paulo o conceito das ruas que não abrem aos carros nos fins de semana

Edison Veiga

20 de outubro de 2015 | 02h01

Foto: Ernesto Rodrigues/ Estadão

Foto: Ernesto Rodrigues/ Estadão


_____________________
Paulistices no Facebook: curta!
E também no Twitter: siga!
_____________________

Ela não sonhava com uma política pública, não imaginava Minhocão, Paulista e tantas outras vias fechadas aos carros todo domingo. Dirce Vieira só queria uma rua para os filhos brincarem. No caso, a pequena Manoel Faria Inojosa, em São Miguel Paulista, extremo leste da capital, onde ela morou desde o início dos anos 1950 – “quando era só um matagal”, lembrava-se ela – até o mês passado, quando morreu, aos 84 anos.

Em 1977, após 12 anos de insistência mensal na Prefeitura, Dona Dirce conseguiu o direito de interditar a via aos domingos e feriados para que a criançada pudesse brincar em paz. Da vizinhança, ganhou o apelido: “tia da rua”. À administração municipal, meio sem querer, legou o conceito das ruas de lazer. Os 18 filhos, 35 netos, nove bisnetos – e tantos filhos, amigos dos filhos, sobrinhos, netos, enfim, toda a criançada da vizinhança – só puderam se divertir, isentos dos riscos de carros indo e vindo teimando em atrapalhar a brincadeira, o jogo de bola, a amarelinha, o esconde-esconde.

Foto: Ernesto Rodrigues/ Estadão

Foto: Ernesto Rodrigues/ Estadão

“Eu só queria que meus filhos pudessem brincar, jogar bola, se divertir com segurança. Naquele tempo, nem havia muitos carros, mas charretes e carroças passavam o tempo todo”, contou ela, à reportagem do Estado, em março de 2012. Com simplicidade, modéstia até, ela dizia não se importar com as outras ruas de lazer que passaram a brotar em São Paulo. “Nem penso nisso, não. Nunca conheci outra rua de lazer. Estou feliz aqui”, limitava-se a responder.

Mineira de Machado, ela mudou-se para São Paulo em 1943, aos 13 anos, pouco depois da morte da mãe. Veio morar com a avó, que já vivia em São Miguel Paulista. Nunca mais saiu dali. “Não sei se gosto ou não de São Paulo. Sei que me acostumei, né? Todos os meus filhos foram criados aqui”, afirmou à reportagem, em 2012.

A criação dos filhos era seu grande orgulho. Quando ficou viúva, em 1980, muitos achavam que ela não daria conta de sustentar a família. Dona Dirce tirou de letra. Seguiu trabalhando como analista química em uma indústria do setor, da qual se aposentou em 1996 – na juventude, ela fez um curso técnico da área – e assumiu de vez o comando do barzinho na frente da sua casa, antes tocado pelo marido. O Bar dos Gois, sobrenome do marido, Osvaldo, funciona até hoje. Parada quase automática para o refrigerante da criançada nos domingos e feriados.

Tudo o que sabemos sobre:

CrônicaSão PauloUrbanismo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.