(Do baú) O ”cara” da Virada
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(Do baú) O ”cara” da Virada

Edison Veiga

05 de maio de 2012 | 04h50

O perfil abaixo saiu na edição impressa do Estadão em 25 de abril de 2009. Mas como hoje tem Virada Cultural, fica o repeteco.

Todos chamam apenas de Zé Mauro o homem que veste camiseta e jeans, vai trabalhar de bicicleta, abusa das gírias e adora quebrar protocolos. Apesar do diploma – pela tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco – e da carteirinha da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), José Mauro Gnaspini não tem a menor cara de advogado, recusa o rótulo de “doutor” e as roupas sociais. “Eu, de gravatinha? Não, tá maluco”, diz. Ex-roqueiro, ele já foi cabeludo – hoje, aos 35 anos (na época da publicação desta reportagem, em 2009), tem entradas que denunciam a futura calvície – e ajudou a organizar eventos como a Festa do Boi de Parintins e o Primeiro de Maio na Paulista. Desde 2005 na Secretaria Municipal de Cultura, tornou-se o homem por trás de festas como o Aniversário da Cidade e a Virada Cultural, cuja quinta edição ocorre no próximo fim de semana (neste fim de semana, ocorre a oitava edição).

O inchaço temporário da equipe que trabalha sob seu comando dá uma ideia da correria nesses dias. Os quatro funcionários que atuam normalmente com Zé Mauro ganham a companhia de outros 300 a um mês do evento. No dia, são cerca de 1.500. O corre-corre dá resultado: em 2005, 300 mil pessoas conferiram as atrações ao longo das 24 horas de programação; no ano passado (em 2008), foram 3,5 milhões. “A menina dos olhos da Virada é a festona no centro”, afirma. “Um mega-ambiente que não é de ninguém e acaba transformado na baladinha do ‘apê do brother’, onde o engravatado convive com o tatuadão, com copinho na mão e dando risada.”

Atividades culturais sempre pontuaram a trajetória de Zé Mauro, paulistano da Saúde. “Comecei a tocar guitarra profissionalmente ainda moleque, com uns 15 anos”, lembra. “Foi meu primeiro ‘trampo’. Fazia cover do Rush, do Police e de outras bandas no circuito roqueiro da cidade.” Nos anos 90, na faculdade, organizou eventos internos e montou, com amigos, a banda Quasímodo, que existe até hoje – Zé Mauro, que se diplomou em 1996, saiu do grupo pouco depois.

Advogou, então, por três anos, em um escritório que ajudou a fundar – e atualmente se chama Cesnik, Quintino & Salinas – e foi produtor de alguns músicos. Entre 2000 e 2003, já afastado do escritório, dedicou-se ao mestrado. Em Direito? Não exatamente. A dissertação, apresentada à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), discutia a liberdade de exibição do documentário em que Glauber Rocha (1939-1981) mostra o velório de Di Cavalcanti (1897-1976). Na ECA, Zé Mauro conheceu Carlos Augusto Calil, que viria a ser secretário de Cultura e o faria seu assessor. “Quando apareceram os eventos mais graúdos, eu chamei a ‘responsa'”, conta. “A Virada foi uma grande ‘sacada’.”

Para ele, o importante na primeira edição, em 2005, foi sedimentar o conceito. “Poderíamos ter resolvido de forma fácil: era só parar uma grande avenida e colocar lá Ivete (Sangalo), Zezé (Di Camargo e Luciano) e coisa que o valha por 24 horas e pronto”, diz. “Mas queríamos provar que o interessante era fazer um evento pulverizado e efetivamente cultural.”

De lá para cá, uma única cicatriz. “O ‘quebra-pau’ da Praça da Sé, em 2007”, cita, referindo-se ao episódio ocorrido durante a apresentação do grupo Racionais MC’s, que resultou em seis feridos. “Aquilo foi uma ‘brochada monstra’. Ninguém pode se eximir: foi culpa minha, da secretaria, do público, do próprio grupo, da polícia…” O saldo positivo, para Zé Mauro, veio dos debates que se seguiram. “Surgiu uma onda reacionária dizendo que a cidade não tem capacidade para aguentar a Virada, que não é possível misturar as tribos pacificamente dentro do mesmo espaço”, recorda-se. “É possível sim. A cidade precisa aprender a lidar com isso, aprender convivência. Pode ser traumático, mas é um exercício social indispensável.”

Zé Mauro voltou às arcadas do Largo de São Francisco para seu doutorado, concluído no ano passado (em 2008). A tese, sobre direito de autor, foi defendida cinco dias após a Virada. “Quando acabou tudo, tirei um ‘mesinho’ para descansar”, conta. Aproveitou para passar um tempo na fazenda que administra em Bonito (MS). Desde que um tio, o proprietário, entrou em coma, Zé Mauro é o responsável pelo empreendimento. “Vou para lá umas cinco vezes por ano, ver as vaquinhas (são 800 cabeças de nelore)“, revela. “Eu marco os bois, subo no cavalo, tem de fazer de tudo, ‘velho’.”

APLAUSOS
Em São Paulo, esse peão “das horas vagas” troca o cavalo pela bicicleta. “Sou ‘ciclistão’, venho trabalhar de bike todo dia”, afirma ele, que dá expediente no Largo do Paiçandu. Há três anos (quando a reportagem foi publicada, em 2009), vive em Pinheiros com a cineasta Chica San Martin – com quem tem o filho Pedro, de 2 anos. Na Virada Cultural, daqui a alguns dias, o pequeno vai junto. “Já está habituado”, garante. “No ano passado, quando todos aplaudiram um show, ele deu até ‘tchauzinho’, achando que era para ele.”

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, seção ‘Paulistânia’, dia 25 de abril de 2009

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