Dentro do claustro do Mosteiro de São Bento, um papa que mais gostava de ouvir do que de falar
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Dentro do claustro do Mosteiro de São Bento, um papa que mais gostava de ouvir do que de falar

Edison Veiga

13 de fevereiro de 2013 | 13h52

Entre a noite do dia 9 e a tarde do dia 11 de maio de 2007, período em que se hospedou na casa religiosa, o papa se sentou à mesa por seis vezes, entre cafés da manhã – ocasiões em que a maior atração eram os tradicionais bolos e pães preparados pelo Mosteiro –, almoços e jantares

12 de dezembro de 2006. Foi quando uma comitiva do Vaticano, em visita a São Paulo, definiu que o Papa Bento XVI ficaria hospedado no Mosteiro de São Bento, fundado em 1598 no centro da cidade. “Para nós, monges, foi uma grande alegria receber o papa. Felicidade ainda maior porque ele, quando se tornou líder máximo da Igreja, escolheu o nome de Bento, nosso patrono”, comenta Dom João Evangelista Kovas, um dos membros da comunidade monástica.

Com a definição do local, vieram três pedidos: que os aposentos do papa contassem com três ambientes (dormitório com banheiro, escritório e uma sala para recepcionar visitas); que toda a comitiva papal tivesse quartos individuais, com banheiro; e nada de peixe ou frutos do mar nas refeições.

Aqueles cinco meses foram de reforma e preparação para os monges. O quarto que recebeu Bento XVI mantém, até hoje, as mesmas configurações, mesma decoração, tudo do jeitinho que foi preparado à época, como se fosse um memorial. Ali estão livros de literatura, arte e história brasileiras e quadros.

“Preocupamo-nos em ambientá-lo ao País e deixá-lo muito confortável durante a estadia. Sabíamos que ele precisava do mosteiro como um local de repouso e descanso, entre tantas atividades”, diz Kovas. “Os monges, por exemplo, foram orientados a não tietá-lo. Mesmo assim ele foi atencioso com todos e fez questão de cumprimentar, um a um, no dia da chegada e no dia da partida.”

O Mosteiro reservou 13 quartos para o papa e sua equipe. Além dele, se hospedaram ali seu médico e enfermeiro particulares, cinco seguranças desarmados, o cerimoniário geral, dois secretários e outros dois assistentes.

Entre a noite do dia 9 e a tarde do dia 11 de maio de 2007, período em que se hospedou na casa religiosa, o papa se sentou à mesa por seis vezes, entre cafés da manhã – ocasiões em que a maior atração eram os tradicionais bolos e pães preparados pelo Mosteiro –, almoços e jantares. Tudo foi preparado por uma equipe profissional de leigos católicos que se voluntariou ao serviço. “Ficamos orgulhosos porque ele disse que jamais havia comido pratos italianos tão deliciosos”, conta Kovas. “Oferecemos a ele exemplos da culinária italiana, mas sempre com um toque de brasilidade.”

As refeições foram servidas como manda a tradição – massa de entrada, prato principal e sobremesa, sempre com doces brasileiros – e o papa gostou de modo especial do nhoque de mandioquinha. Havia vinho disponível em todas essas ocasiões, mas ele preferiu suco de laranja. “Gostava muito de laranja”, recorda-se o monge. A exceção foi no almoço do segundo dia, quando o papa recebeu, à mesa, um grupo de cardeais. Aí fez um brinde especial ao mosteiro e tomou espumante.

Esses foram os principais momentos em que o papa conversou com alguns monges. “Ele falou muito sobre a importância de sermos um mosteiro urbano, de estarmos no meio de uma grande cidade – e não em uma floresta ou em um deserto”, lembra Kovas. Bento XVI dirigia-se a todos em italiano – mas entendia bem quando alguém o interpelava em português. “Mas ele gostava mais de ouvir do que de falar”, revela o monge.

Tema da coluna veiculada pela rádio Estadão em 13 de fevereiro de 2013

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: