De como as mulheres passaram a dirigir metrôs e outras coisas mais
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De como as mulheres passaram a dirigir metrôs e outras coisas mais

No início, havia quem se recusasse a viajar nos trens pilotados por elas, conforme conta metroviário

Edison Veiga

08 de março de 2015 | 00h01

Foto: Acervo da Companhia do Metropolitano de São Paulo

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Por Laurindo Martins Junqueira Filho*

– Mulheres? E ainda mais pilotando trens? Cês tão malucos, cara!

Décadas atrás, foram estas as palavras ditas, dentre outras mais, ainda impublicáveis, quando se intentou, pela primeira vez, selecionar e treinar mulheres para dirigir trens de metrô em São Paulo.

– Botar mulher pilotando trem de metrô? Como? Há ao menos algum lugar no mundo que tenha cometido a loucura de fazê-lo? Acham vocês que teríamos que inovar quanto a isso, justo aqui em São Paulo, onde tudo está funcionando às mil maravilhas?! E a operação da complicada Válvula Seis, que comanda os freios dos trens, como é que fica? Mulher não tem força bastante para acionar a sua alavanca, vão sujar as mãos de negrume de pastilha de freio e de graxa, tudo embaixo do trem, em meio aos trilhos! E depois vão querer retocar a maquiagem! Insanidade total, meu! Sai dessa, cara!

Agentes poderiam ascender na carreira, tornando-se operadoras de trens

Assim foi recebida a proposta de que mulheres viessem a ter a oportunidade de ocupar o então honroso e disputado cargo de operador de trens do metrô paulistano. Para o pessoal de RH, nada pareceria mais natural do que permitir às bilheteiras e demais agentes femininas ascender em sua carreira dirigindo trens… Mas a chuva de impropérios contra a “intrínseca” incapacidade feminina de assumir essa função, não parou por aí… E a coisa foi sendo empurrada com a barriga.

Os tempos, porém, estavam mudando… Felizmente, hoje, com a expansão da presença das mulheres em todos os setores, não parece haver do que se arrepender, com algumas importantes exceções – é verdade! Já podemos concluir que elas – as mulheres -, de fato, não são nem mais nem menos capazes (de fazer besteiras e de cometer acertos) do que os empedernidos homens.

Pesquisa foi feita entre os empregados

Com o passar do tempo e diante da controvérsia intensa, a turma do contra resolveu ser “condescendente” com a pretensão das mulheres… Bolaram algumas estratégias procrastinadoras, talvez para aliviar a pressão existente, como fazem os compressores dos trens, de vez em quando: tchuááár. Certos de que uma pesquisa de opinião, se feita entre os operadores de trens homens, culminaria numa rejeição cabal da proposta, engendrou-se uma enquete entre os operadores de trem (todos ele homens, como é óbvio!). Apesar de todos os reclamos de que essa seria uma forma eludida e falaciosa de contornar a questão, a pesquisa veio realmente a ser feita. De fato, às vezes compensa perder uma batalha, desde que se venha a ganhar a guerra, ou entregar os anéis para não perder os dedos, como diziam então.

A questão cabal da enquete tinha mais ou menos o seguinte espírito, embora não tenha assim sido formulada, evidentemente:

– A inclusão de mulheres em seu seleto grupo – óh! magnânimos operadores (homens) de trens -, seria ou não seria aceitável por vossas mercês…?

Não deu outra: surprise! Como sói ocorrer frequentemente, um verdadeiro raio num céu azul aconteceu! A pesquisa, surpreendentemente, deu empate! E deu empate não simplesmente “técnico”, como se diz, mas, sim, total e absoluto! Até a última casa da vírgula… E sem qualquer manipulação… Não foi o caso nem de estabelecer margens de erro de 2% para mais ou para menos, com níveis de confiança de 95%… A amostragem abarcou todo o universo de operadores e simplesmente, empatou! Com efeito, exatamente a metade dos operadores de trens do metrô (todos homens, reforce-se!), votou contra vir a se incluir mulheres em seu privilegiado quadro. E a outra metade foi peremptória: a favor de que as mulheres viessem a ter a oportunidade (histórica) de poderem vir a conduzir aquela massa robótica de mais de duzentas toneladas de aço e de gente, sobre os trilhos do metrô, carregando às vezes até duas mil pessoas cada trem…

Mulheres seriam ameaça ao emprego dos homens

Os que foram contra incluir mulheres como operadoras de metrô deram como motivo argumentos “muito fortes”, como as “dificuldades inerentes à função”, as quais exigiam força muscular, exímia capacidade de… entrar embaixo dos trens, serenidade ante emergências, capacidade de administrar situações de conflito… Foram muitos os que falaram sobre a quase impossibilidade de que a (“bendita”) Válvula 6, então situada sob a carcaça do trem, pudesse vir a ser operada pelas “frágeis mãos femininas”… Mas a maioria dos que rejeitavam dizia – à boca pequena, é claro! – que as mulheres representavam…, na verdade, na verdade, uma ameaça séria ao emprego dos homens no metrô.

Dentre os operadores de trens que foram a favor de “dar uma chance às mulheres”, a metade (ou seja, um quarto do total) o fazia porque acreditava que elas deveriam ter os mesmos direitos que os homens. Afinal, “desde o direito ao voto, elas vinham podendo compartilhar das escolhas da sociedade”… E a outra metade, quer dizer, também um quarto do total, via nessa medida a chance de poder ter em seu meio… as benditas mulheres… Segundo essa turma, certamente elas, munidas que eram do seu charme e dos seus atributos de carinho e de compreensão dos problemas humanos e dos homens, iriam servir como alento para os rigores da profissão de operador de trem do metrô. Enfim! Era preciso ser politicamente condescendente com esse um quarto dos operadores (homens) de trem, que via em seu voto não mais do que uma chance – amplamente justificável – de poderem vir a, quem sabe, se enamorar das novas operadoras… Como o amor é lindo, não é mesmo!

De fato, glória às deusas protetoras das mulheres! Empatada a pesquisa, instou-se os defensores da ideia a apresentarem um rol de vinte mulheres potencialmente capazes de vir a receber o “complicadíssimo” e “quase impossível” treinamento de operador (homem) de trem.

Eram vinte as primeiras candidatas

– Mas elas terão que passar no treinamento de três meses, heim! – foi lembrado, para que ninguém esquecesse.

Exigia-se das vinte candidatas, entre outras coisas, que todas teriam que possuir capacidade física para operar a tal da Válvula 6. As más línguas diziam que um presumível mau resultado das mulheres nesse primeiro treinamento, caso viesse ele de fato a ser feito, viria a estancar na raiz – e de uma vez por todas – a intenção de ter mulheres operando trem.

Mas o resultado final veio a ser imensamente compensador para as mulheres, para o metrô e para a sociedade…

Hoje em dia, a tal Válvula 6 já não mais está sob a carcaça do trem, mas, sim, muito bem acessível, no próprio habitáculo dos operadores e das operadoras – para galhardia dos homens e das mulheres que conduzem os trens do metrô de SP. Essa válvula é um dispositivo chave para reatar os comandos pneumáticos dos freios dos trens, em caso de certas falhas, as quais são raras de ocorrer. Sua operação exigia alguma força física – é verdade! – força essa que “só estaria disponível para robustos operadores do sexo masculino”. Essa válvula, recorrendo-se aos dados estatísticos de falhas acumulados por muitos anos, de fato precisava ser acionada, em média, apenas uma vez por ano em cada trem. E não havia nada, absolutamente nada, que impedisse a correção futura do projeto da válvula, de molde a deixá-la mais amigável. E foi o que veio a acontecer, anos depois…

Das vinte mulheres selecionadas inicialmente para serem treinadas, não houve como eliminar, nos testes rigorosos a que foram submetidas, quatro delas, que vieram a ser as primeiras operadoras de trem do metrô de São Paulo e, quiçá, do mundo todo.

A experiência de inclusão de mulheres no comando de sistemas automáticos e complexos, imensamente inovadora à época, por mais trivial que pudesse parecer, foi repetida em várias outras condições, no Brasil e no Mundo, sempre resultando em conflitos de gênero semelhantes a este. Logo a seguir, em SP, em 1989, foram adotadas mulheres na operação de ônibus e também na de guinchos, ambas na ex-CMTC, empresa municipal que operava os ônibus em São Paulo. Depois disso, vieram as agentes de fiscalização de trânsito da CET, que “teriam que ser marronzinhas parrudas”, para poder enfrentar, caso preciso fosse, os infratores de trânsito mais raivosos. E, assim por diante, mulheres passaram a dirigir ônibus e a aplicar multas e dirigir trânsito nas ruas de Campinas e de Santos. E vieram a ocupar cargos de direção não somente dos veículos, mas também dos centros de controle e das próprias empresas de transporte urbano. Talvez poucos saibam que foi a partir dessa plêiade de corajosas primeiras operadoras de trem mulheres do metrô de São Paulo, que sistemas complexos e de caráter crítico passaram a também ser operados por mulheres. Contrariamente ao que contra elas se apregoava, as mulheres, seja quando movidas por um espírito de luta pela afirmação dos seus direitos (que são idênticos aos dos homens), seja quando movidas pela inefável vontade de vencer (que muito as caracteriza), conseguiam obter resultados operacionais, em determinadas tarefas…, que resultavam ser melhores do que os apresentados por operadores homens. Mais disciplinadas e mais calmas, menos sujeitas a atos inseguros, as mulheres que operavam os guinchos de 60 toneladas da CMTC (usados para retirar carretas de dentro dos rios), ou os ônibus articulados, conseguiram reduzir a zero (!) os índices de reclamação da população contra atos truculentos, os quais são comuns em operadores homens de máquinas pesadas… E os acidentes de trânsito com ônibus e viaturas de trânsito foram reduzidos, tanto em sua frequência quanto em sua gravidade, a índices inexpressivos, contrariando cabalmente a impressão quase generalizada de que as mulheres seriam “um desastre anunciado” ao conduzir veículos. Nada menos verdadeiro, ao menos à época… (mas os tempos continuam a mudar!).

Hoje já são dezenas as operadoras mulheres

Depois disso, o país inteiro resolveu escolher as mulheres para outras responsabilidades. Quanto às operadoras mulheres dos trens do metrô, elas tiveram muito sucesso e hoje já são dezenas… Mas é bom que se diga que, no início, não somente havia passageiros homens que se recusavam a viajar nos trens pilotados por elas. As próprias passageiras mulheres tinham lá os seus preconceitos e esperavam pelo próximo trem…

*Laurindo Martins Junqueira Filho trabalha no Metrô desde 1973.