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Da serventia da cidade

CRÔNICA

Edison Veiga

02 Maio 2017 | 17h20

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

“Vamos andar/
pelas ruas de São Paulo,/
por entre os carros de São Paulo,/
meu amor, vamos andar e passear.”

“A cidade existe para que se possa conversar”, disse outro dia o grande arquiteto Paulo Mendes da Rocha, eu soube pelo Facebook de Valter Caldana, professor do Mackenzie, e me pus a pensar em qual a serventia, a servidão e o serviço de se viver em cidade.

Conversar, viver, amar. Tentar ser feliz. Mais que sobreviver, é claro. Ter acesso, conviver, aprender, ser. Para mim está claro que a cidade não é uma empresa, não pode visar ao lucro; precisa oferecer o melhor aos seus cidadãos, aos que nela vivem. “Mais do que para morar, para viver”, foi a resposta que o músico Márcio de Camillo deu quando lhe perguntei para que, em sua opinião, serve uma cidade.

“Vamos sair pela rua da Consolação,/
dormir no parque, em plena quarta-feira,/
e sonhar com o domingo em nosso coração.”

O Fernando Meirelles, cineasta – que também é arquiteto –, me escreveu um pouco mais. “A maioria dos humanos são como formigas, seres gregários. Gostamos de viver colocados uns nos outros. Isso dá uma falsa sensação de pertencimento fora mais assunto para fofoca e maior oportunidade de acasalamento”, argumentou. “Nas cidade também é mais fácil se manter sem ter que fazer tanta força e sem ficar exposto ao sol o dia todo. Ha mais gente, portanto, mais oportunidades.”

Queria saber o que pensava o Tom Zé a respeito. Mas ele não me respondeu.

O Lusa Silvestre, roteirista de cinema, também se esquivou. “Gente do céu, que pergunta difícil! Vou pensar”, escreveu, em março, sem nunca mais tocar no assunto.

“Meu amor, meu amor, meu amor:/
a eletricidade desta cidade/
me dá vontade de gritar/
que apaixonado eu sou.”

Por sua vez, o Henrique de Carvalho, arquiteto, decidiu responder Paulo Mendes da Rocha – mesmo sem saber que a provocação toda tinha surgido da fala deste. “Definitivamente não é para que as pessoas possam conversar, como outro dia li num link de alguém que recebeu essa resposta do Paulo Mendes”, disse. “Não sei se a cidade serve para alguma coisa. A cidade é uma ocorrência aleatória, é um desdobramento do caos. Talvez em meu íntimo pense que a cidade serve pra gente desfrutar a beleza. Mas para isso existir, a cidade precisa ser um lugar bom de se viver, promovendo naturalmente a saúde, a paz de espírito, a contemplação, a ampliação do campo visual, o contato vibrante com a natureza e o desenvolvimento pessoal em uma existência mais solta e cheia de oportunidades. Se não existir isso, não há beleza e não tem pra quê existir uma cidade.”

A cidade existe para os cidadãos. E não o contrário.

“Nesse cimento, meu pensamento e meu sentimento/
só têm o momento de fugir no disco voador./
Meu amor, meu amor, meu amor!”

(Os versos espalhados são de Passeio, de Belchior, 1946-2017)

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