Da Luz ao Ipiranga, não faltam instituições fechadas
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Da Luz ao Ipiranga, não faltam instituições fechadas

Problemas variados obrigaram museus a interromper atividades; em muitos não há previsão de reabertura

Edison Veiga

09 de abril de 2016 | 16h02

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Incêndios, problemas estruturais, obras que custam a ser concluídas e desativações marcam a triste situação de alguns equipamentos culturais de São Paulo. Levantamento realizado pela reportagem mostra que há exemplos de instituições públicas e privadas

É o caso do Museu do Teatro Municipal, memorial que funcionava sob o Viaduto do Chá, na Praça Ramos de Azevedo, ao lado do próprio Municipal. Inaugurado em 1983, o espaço oferecia a pesquisadores uma hemeroteca, programas de espetáculos antigos, fotos históricas, além de alguns figurinos – não era preciso agendar horário para visitação. Atualmente, o prédio está fechado e pichado.

Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura informa que o acervo foi transferido e incorporado ao Centro de Documentação e Memória do Teatro Municipal, na Praça das Artes, na vizinha Avenida São João. Entretanto, o acesso se dá apenas mediante agendamento prévio. “O prédio que abrigou o museu encontra-se atualmente fechado (foto abaixo)”, confirma a pasta. “Ele será reformado e adaptado para um novo uso, ainda em estudo pela Secretaria Municipal de Cultura.”

Foto: Felipe Rau/ Estadão

Foto: Felipe Rau/ Estadão

Destruído por um incêndio em fevereiro de 2014, o centro cultural do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, no bairro da Luz, passa por obras de recuperação e reconstrução (foto abaixo). De acordo com cronograma exposto pela diretora institucional do Liceu, Patrícia Loureiro, os trabalhos foram iniciados no fim do ano passado, com previsão de conclusão até dezembro de 2016.

Fundado em 1873, o Liceu é uma das instituições de ensino mais tradicionais da cidade. É mantido pela iniciativa privada, sem fins lucrativos. “De um total de 38 esculturas que estavam expostas, por ora três são dadas como desaparecidas”, conta o restaurador Julio Moraes. “Ainda falta examinar 12 caixas de fragmentos recolhidos no rescaldo do incêndio e, somente após isso teremos certeza se elas realmente se perderam. Este exame é um processo lento e paciente, pois implica na identificação de cada fragmento.”

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Segundo o especialista, as demais peças estão em diferentes estados – e somente ao longo do ano é que serão definidas as possibilidades de resgate de cada uma delas. “Por exemplo, há réplicas de esculturas muito danificadas, que permitirão a reconstituição de partes perdidas, e por outro lado há esculturas menos danificadas para as quais podem faltar elementos informativos”, explica Moraes. “Assim, é preciso aguardar o desenvolvimento do processo de restauro.”

Também consumido por um incêndio no mesmo bairro da Luz, o Museu da Língua Portuguesa, no histórico prédio da Estação da Luz, ainda passa por ações emergenciais – a tragédia é recente, data de dezembro. No momento, de acordo com a Secretaria de Estado da Cultura, o objetivo é “preservar o conjunto arquitetônico protegendo-o das chuvas e retirando os escombros para liberar os espaços para os trabalhos de restauro e recuperação”.

Ou seja: estão sendo feitos trabalhos de impermeabilização das lajes expostas, a instalação de sistemas de drenagem e a construção de uma sobrecobertura provisória. De acordo com a secretaria, esta etapa está orçada em R$ 1,8 milhão – bancados pelo seguro do museu.

“Também estão em andamento as negociações com a seguradora para definir o valor final da indenização, assim como a adaptação do projeto, tomando como base o projeto original desenvolvido pelo escritório dos arquitetos Pedro e Paulo Mendes da Rocha para o restauro anterior, finalizado em 2006”, ressalta a pasta, em nota enviada à reportagem.

Em janeiro, a secretaria, a Fundação Roberto Marinho e a organização social ID Brasil firmaram um convênio para apoiar a reconstrução do museu “no menor prazo possível”. No último dia 21, o governo do Estado e a Fundação Roberto Marinho, iniciaram uma articulação para que seja formada uma “aliança solidária” da iniciativa privada a fim de viabilizar o restauro das áreas destruídas pelo incêndio. De acordo com a secretaria, estão previstas “atualizações da concepção curatorial, expográfica e do projeto de acessibilidade”. Desde que foi inaugurado, em 2006, até ser fechado em dezembro passado, o Museu da Língua recebeu cerca de 4 milhões de visitantes.

Foto: Felipe Rau/ Estadão

Foto: Felipe Rau/ Estadão

Inspirado no Castelo de Écouen, de Paris, o Palácio dos Campos Elísios (foto acima) foi inaugurado como um marco arquitetônico do País em 1899, na Avenida Rio Branco. Projetado pelo arquiteto alsaciano Matheus Häussler, a pedido do barão do café Elias Pacheco Chaves. De 1912 a 1965, foi sede do governo do Estado. Em seguida, várias secretarias ocuparam o palacete – a última, até 2006, foi a de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento.

O então governador José Serra (PSDB) anunciou na época que o mesmo seria restaurado e funcionaria como uma subsede do Palácio dos Bandeirantes. A reforma começou em 2008. De lá para cá, algumas mudanças. O palacete foi transferido para a Secretaria de Estado da Cultura em 2012. A ideia é transformá-lo em equipamento cultural: será transformado em um museu-casa. De acordo com a pasta, o restauro interno está em fase de retoques – entretanto, não foi autorizada a entrada da reportagem no local, para conferir os andamentos. “A obra terá ainda uma fase final que prevê a substituição de muro que circunda o imóvel por um gradil, além de instalação da luminotecnia externa e paisagismo”, informa a secretaria, em nota. “Até o momento foram investidos R$ 20 milhões da pasta. O plano museológico já foi contratado e a expectativa é de que o museu seja implantado em 2017.”

Também estadual – mantido e administrado pela Universidade de São Paulo (USP)– o Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, vive uma fase para lá de complicada. Com diversos problemas de conservação em seu edifício-sede, erguido em 1890, a instituição fechou as portas ao público em agosto de 2013, sem prazo para reabertura. Uma equipe fez um laudo com os problemas externos do histórico prédio. No ano passado, o acervo começou a ser transferido para imóveis locados na região do Ipiranga.

Em janeiro um grupo de trabalho foi montado, na reitoria da USP, para acompanhar os trabalhos de recuperação. No mês seguinte, a universidade assinou um termo de cooperação com o Grupo Mulheres do Brasil – o objetivo é que a ONG, que congrega empresárias e outras líderes, auxilie a captação de recursos. Presidente do grupo, a empresária Luiza Trajano afirmou, na cerimônia de assinatura da parceria, que decidiu se engajar porque ficou “sensibilizada” com a situação vivida pelo museu e “impressionada” com o tamanho do acervo.

Marco cultural importante do centro de São Paulo, o Teatro Cultura Artística foi destruído por um incêndio em 2008. “O incêndio atingiu o prédio e instrumentos da Cultura Artística. Não havia obras de arte no prédio. Já o acervo documental da instituição, composto de programas de concertos e fotografias arquivados durante mais de 100 anos não sofreu qualquer dano no incêndio e atualmente está sendo digitalizado”, informa o superintendente da instituição, Frederico Lohmann. Ele informa que a previsão de reabertura do Cultura Artística é 2020. “ A instituição já arrecadou cerca de R$ 30 milhões em doações. Ainda não podemos divulgar o valor total”, ressalta.