‘Crucificado’ de 1777 do Mosteiro de São Bento é restaurado
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‘Crucificado’ de 1777 do Mosteiro de São Bento é restaurado

Recuperação da histórica obra marca fim de mais uma fase das obras da centenária igreja do Largo de São Bento

Edison Veiga

26 Março 2016 | 15h00

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Na tarde da última segunda, a imagem barroca de Cristo crucificado voltou ao seu lugar, na imponente parede do transepto, à esquerda do altar-mor da Basílica Nossa Senhora da Assunção, mais conhecida como igreja do Mosteiro de São Bento. Auxiliado por quatro homens, o restaurador João Rossi colocou a preciosidade de volta. Simbolicamente, o maior restauro da centenária igreja, marco histórico-religioso do centro paulistano, completou mais uma etapa.

Agora, as três imagens sacras mais importantes do acervo do Mosteiro de São Bento, estão novinhos em folha. Primeiro, foram recuperadas as estátuas de São Bento e de Santa Escolástica (fotos abaixo), ambas de barro, feitas pelo monge beneditino Agostinho de Jesus no século 17, pioneiro da escultura no Brasil. Agora, foi a vez do Crucificado, obra em cedro de autoria de José Pereira Mutas, esculpida em 1777 sob encomenda para os beneditinos.

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

“E ninguém que está vivo a conheceu como era de fato”, conta o restaurador, que dedicou-se à imagem nos últimos cinco meses. Isto porque a cruz onde ele está preso era totalmente coberta por uma tinta preta. No trabalho de recuperação, Rossi descobriu que na verdade, originalmente havia um friso folheado a ouro 22 quilates. “Pelo que pude verificar, deve ter sido recoberto por tinta preta nos anos 1920”, afirma ele.

Antes do atual restauro, a peça estava danificada pela poluição e também pela gordura das mãos das pessoas. “É comum que os fiéis toquem nos pés dessa imagem, em sinal de veneração”, afirma o monge beneditino João Baptista. “Apesar de ser uma obra de arte, preferimos não interferir na devoção.”

Rossi confirma: os pés do Cristo estavam bastante deformados e ele precisou corrigir, com uma camada de gesso. Até hoje, os monges preservam um trato firmado pela instituição com o escultor em 1777. “Pelo termo, ele pedia que duas lamparinas ficassem acesas de modo perpétuo ao lado da imagem”, conta Baptista. “Claro que hoje usamos iluminação elétrica, por segurança: mas o Crucificado tem luz 24h por dia.”

A parede onde fica o santo também foi totalmente recuperada nesta fase. Descobriu-se a cor original, por baixo do marrom que havia ali. “Era vermelha, e vermelha tornou a ficar”, celebra Rossi. “Também encontramos detalhes em folha de ouro, e os recuperamos.” Essa parede continha uma rachadura grande, que também foi corrigida.

A basílica dos beneditinos integra o conjunto arquitetônico – projetado pelo alemão Richard Berndl (1875-1955) – erguido de 1910 a 1914 no Largo de São Bento, centro de São Paulo. Tombada desde 1992 pelo órgão municipal de proteção ao patrimônio (Conpresp), a igreja havia passado apenas por uma restauração, de menores proporções, em 1978 – para recuperar danos causados pela construção da Estação São Bento do Metrô.

O valor investido na obra não é informado pelos beneditinos, que mantêm em sigilo também o nome do patrocinador. “Mas o pagamento está garantido até a conclusão de toda a obra”, diz Baptista. Pelas contas de Rossi, até julho a outra parede do transepto será concluída. Depois, com mais um ano de obra, ele e sua equipe terminam toda a nave da igreja. O órgão de 6 mil tubos também está sendo restaurado: uma vez a cada seis meses, um especialista argentino vem a São Paulo e realiza uma etapa do trabalho.

Isso tudo respeitando a rotina dos monges. Em ocasiões especiais, como a Páscoa, não podem haver andaimes dentro do templo – é por isso que os cronogramas são organizados de modo a prever que cada etapa seja encerrada nas proximidades de tais datas. As obras são executadas de segunda a sexta, das 8h às 17h – mas Rossi precisa interromper a labuta por 15 minutos às 11h30 – para oração dos monges – e por uma hora às 13h – para a missa. “Os restauradores aproveitam para fazer o horário de almoço”, afirma Baptista. “Enfim, eles precisam se adaptar à nossa rotina.”

Rotina de tradição ímpar. O Mosteiro de São Bento ocupa, desde 1598, o mesmo terreno no centro de São Paulo. Ao longo dos séculos, vários edifícios foram reformados, demolidos e construídos. Este último conjunto, que completa cem anos, foi decorado entre 1912 e 1922.

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

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