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Crônica de Réveillon

Edison Veiga

31 Dezembro 2010 | 10h30

Mais um ano vai para o ralo. Mais uma década acaba.

Alguém disse uma vez que genial mesmo foi o sujeito que teve a ideia de fatiar o tempo em anos, industrializando a esperança, dando à humanidade a ilusão de que, pá-bum, a meia-noite do dia trinta e um do mês doze carrega um estranho poder de zerar tudo, começar de novo, renovar-se-nos na plenitude.

Não sei se acredito em datas, nos deuses do calendário, na folhinha de papel amarelado que minha vó até hoje pendura atrás da porta – e troca, ritualisticamente, todo dia primeiro de janeiro. Fato é que a timeline do meu twitter exala hoje a estranha depressão da perda do tempo: mais um ano vai para o ralo, mais uma década acaba. E tomem planos fúteis, promessas incumpríveis, metas incompletas.

Desconfio que o ser humano seja isso mesmo: uma lua crescente que, teimosa, vira nova antes mesmo de cheia. Porque cheios, só os sacos.

Amanhã é um novo ano, uma nova década. Mas Raimundo, o lixeiro que todos os dias passa em minha rua, continuará levando os detritos do consumismo – certamente com umas garrafas de espumante barata a mais. Marcelo, o porteiro do meu prédio, chegará pontualmente às 7h para render o colega que varou a madrugada – comemorou o réveillon na guarita, será que ouvindo os fogos da Paulista? Osmar continuará dirigindo o ônibus que faz a linha 117Y Cohab Antártica. Valdete seguirá sua rotina de faxineira, limpando apartamentos variados, de segunda a sábado, R$ 50 por dia mais a condução. E o japonês da feira passará mais um ano fritando pastéis, o português da padaria assará pães franceses, o italiano do Bixiga abrirá todas as noites sua cantina.

Bobagem, adverte-me em pensamento o astuto leitor, a atenta leitora. Com a globalização que vivemos, nem esta cidade tão simpática aos estrangeiros respeita mais as atribuições históricas de cada um. Uma hora dessas o pasteleiro é italiano, o padeiro, japonês e o dono da cantina, o português de bigodes fartos e caneta detrás da orelha. E os pães franceses, na vitrina da padaria chique, têm a companhia de portugueses, italianos e, olhem só, até australianos.

– Feliz Ano-Novo!

– Para você também, igualmente!

E abraço para cá, abraço para lá. Pelo menos por um dia, vamos brincar dessa coisa utópica a que chamam fraternidade universal. São Paulo não vai parar por isso.