No campo adversário (jogo 1: Croácia 1 x 3 Brasil)
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No campo adversário (jogo 1: Croácia 1 x 3 Brasil)

Edison Veiga

13 de junho de 2014 | 14h06

Foto: Paulo Liebert/ Estadão

Na sede do clube croata Sociedade Amigos da Dalmácia, na Mooca, não teve só Copa. Teve cevapcic (tipo de bolinho assado, feito com carnes suína, ovina e bovina) e riba slana (sardinha curtida por 40 dias na salmoura). E também teve copo – no caso, com cerveja. Cerca de 200 imigrantes croatas e descendentes se reuniram ali, na tarde de ontem, para ver a estreia do Mundial.

A festa foi animada – principalmente logo após o primeiro gol da Copa ter sido anotado em favor da seleção croata. No amplo salão de festas do clube, em frente a um telão, ninguém gritava Croácia, mas sim Hrvatska (que é como se diz Croácia no idioma pátrio). Ou ainda “ajde” (que significa “vai” e costuma ser entoado pelas torcidas de lá).

A maior parte dos imigrantes croatas chegou a São Paulo ainda na década de 1920 – quando desembarcaram no Porto de Santos cerca de 500 famílias da região que, na época, pertencia à Iugoslávia (a Croácia só se tornou independente em 1991). Outros imigrantes vieram após a Segunda Guerra – e esses são os mais antigos ainda vivos.

Foto: Paulo Liebert/ Estadão

É o caso do Nikola Cetinic (na foto acima, com a mulher, brasileira), de 71 anos. Ele chegou ao País em 1954, aos 9 anos. “Era pós-guerra, minha mãe estava viúva… Miséria por todo lado”, conta ele. “Aí viemos para cá em busca de uma vida melhor. Foram 18 dias de navio.”

No começo, dificuldade mesmo havia com o idioma. “Era tudo por mímica. Mas como entrei para a escola, logo aprendi o português”, diz. Ele acabou se casando com uma brasileira, Eliete Petris, hoje com 68 anos, fazendo uma carreira como técnico ferramenteiro (hoje está aposentado e tem uma empresa de embalagens), criando dois filhos (que agora lhe deram três netos)… “Por isso, na Copa, fico meio dividido. Acabei me tornando brasileiro, não é?”, afirma. Ano passado decidiu retornar à terra natal pela primeira vez. “Encontrei a casa de meu pai e a casa de meus avós. Foi emocionante”, recorda-se ele, que já está de viagem marcada para lá novamente em setembro.

As deliciosas sardinhas servidas ontem foram preparadas por Nikola, um especialista na receita típica. Marija Vlasic Bartol, de 79 anos, tem história parecida. Ela veio sozinha ao Brasil em 1955, também em busca de condições melhores de vida. “Foi fácil me arranjar por aqui porque eu já sabia trabalhar como cabeleireira”, diz. Casou-se com um brasileiro – filho de iugoslavo -, com quem teve dois filhos. Hoje a família ainda tem dois netos e três bisnetos. Todos brasileiros. E a torcida, como fica? “Quero que o Brasil se dê bem na Copa. Mas hoje sou Croácia, né? Você me desculpa?”, diz ela, à reportagem. Para depois emendar, simpática: “Olha, Croácia e Brasil são uma coisa só para mim: duas pátrias, duas mães”.

Foto: Paulo Liebert/ Estadão

Mas também há casos de imigrantes recentes. Sinóloga (estudiosa da China) e professora de mandarim, a croata Kristina Bodrozic-Brnic (à direita na foto acima), de 33 anos, vive em São Paulo desde 2011. Era uma das torcedoras mais empolgadas – carregava leque vermelho e branco e ainda tinha uma enorme bandeira do país. “Em 2008, quando eu morava na Alemanha, onde fazia mestrado sobre a China, conheci meu atual marido, um brasileiro que trabalhava lá como engenheiro”, explica ela, sobre o motivo de ter vindo morar no Brasil.

“Já tinha vindo cinco vezes para cá, sempre a passeio. Aí surgiu uma oportunidade profissional para ele, que é consultor de TI, e viemos”, diz ela, fluente em croata, português, mandarim, inglês, francês, alemão – e um pouco de japonês. “Gosto de coisas raras. Por isso, acabei me tornando uma croata que dá aulas de mandarim”, brinca. “Encantei-me por São Paulo. Acho uma cidade charmosa, cheia de cultura, com muitos museus e teatros”, define. “Só estranhei da primeira vez que precisei pegar um ônibus e ele demorou 45 minutos para passar.”

Três anos depois, agora ela se diz habituada aos jeitinhos brasileiros, atrasos e, enfim, o caos de uma cidade como São Paulo. “Split, minha cidade-natal, tem 400 mil habitantes. Nunca antes tinha vivido em um lugar tão populoso como aqui”, diz ela que escolheu a Vila Madalena para viver. Fim do jogo, derrota croata, mas no clube não havia espaço para tristeza. “Foi muito divertido assistir aqui. Claro que o juiz foi um pouco imparcial e acabou ajudando o Brasil… Mas, mesmo assim, tivemos uma experiência boa”, foram as palavras de Kristina.

Confira a série completa:
Jogo 1: Croácia
Jogo 2: México
Jogo 3: Camarões
Jogo 4: Chile
Jogo 5: Colômbia
Jogo 6: Alemanha
Jogo 7: Holanda

Versão ampliada de reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 13 de junho de 2014

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