Cor e arte ‘ocupam’ ruas de São Paulo no fim de semana
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Cor e arte ‘ocupam’ ruas de São Paulo no fim de semana

Edison Veiga

08 de abril de 2013 | 12h51

Cidade teve comemoração de grafiteiros e também o Festival Baixo Centro, cuja programação continua até o próximo domingo

O fim de semana foi animado para hipsters de camisa xadrez e bigode, neo-hippies de vestidos estampados, os que posam de intelectuais com óculos de aros grossos e, enfim, todas as tribos urbanas que, munidas de um discurso cheio de palavras como “colaborativo”, “ocupação”, “ressignificar” e “gentrificação”, têm decretado uma espécie de nova ordem municipal: é tempo de humanizar as ruas de São Paulo.

De um lado, o farto cardápio do Festival Baixo Centro, que começou na sexta-feira e vai até o próximo domingo. Organizado em sites e redes sociais, a iniciativa coletiva não tem apoio financeiro nem de órgãos públicos nem de empresas privadas. Neste ano, a programação traz 530 atividades culturais – música, dança, artes plásticas, teatro e literatura – em locais públicos de Santa Cecília, Barra Funda, Campos Elísios, Vila Buarque e Luz.

Do outro, o evento comemorativo ao Dia do Grafite, que fechou um trecho da Rua 13 de Maio, no Bexiga, para uma série de shows musicais e dezenas de grafiteiros em ação.

Menos cinza. Ou seja: em diversas ruas, praças e viadutos, a cidade respirou cores e convivência, graças aos que apregoam que “existe amor em São Paulo”. Ou que “mais praça, acho graça; mais prédio, acho tédio”.

Nem a chuva que caiu – forte, mas rápida – no início da tarde de ontem atrapalhou a euforia. Os grafiteiros começaram logo a encher de desenhos as fachadas dos imóveis da Rua 13 de Maio. E, no Elevado Costa e Silva, o Minhocão – já pisoteado por pés sujos de tinta colorida no evento “passo marcado” –, uma tatuada moça dizia que “essa chuva vai servir para lavar o cinza de São Paulo e de nossas almas”. “Ok. Então, tá”, pensou a reportagem, com tênis e calças já um tanto encharcados.

Alguns metros abaixo do Minhocão, um pouco mais cedo, crianças e adultos se divertiam em um parquinho improvisado com balanços. O festival ainda teria um desfile de moda alternativa, o Fashion Walk, com concentração na agora queridinha Praça Roosevelt – ponto de encontro preferido dessas turmas desde a reinauguração, em setembro do ano passado – e caminhada pelo Minhocão. No câmpus da Unesp, na frente da Estação Barra Funda, tinha um palco com programação musical.

Nas redes. E como não podia deixar de ser nesse modelo de mundo interativo online social-midiático em que vivemos, o festival pode ser acompanhado – da agenda de eventos às fotos de repercussão – pelo Facebook oficial (www.facebook.com/BaixoCentro).

Ou, claro, pelas próprias timelines alheias, uma vez que entre os frequentadores o que não faltam são smartphones para postar comentários, videozinhos e fotos nas redes sociais. Mais que viver, o importante é compartilhar – e ser curtido.

Menino prodígio. Na comemoração pelo Dia do Grafite, quem chamou a atenção foi o talvez mais jovem grafiteiro em atividade em São Paulo, o menino Caio Augusto, de 9 anos. Por volta das 13h30, ele transformava a fachada de um imóvel com as clássicas figuras do game Space Invaders, sucesso lançado mais de 25 anos antes de seu próprio nascimento. O que ele mais gosta no processo de grafitar? “O que eu mais gosto é do grafite, ué!?”, diz ele, sem parar o que está fazendo.

Seu pai é o grafiteiro Mok, de 42 anos. Conta que tentou fazer uma parceria com o filho seis anos atrás. “Mas ele nem tinha forças para apertar o spray, aí não deu certo”, diz. Aí recomeçaram há menos de um mês. “Os brinquedos dele acabam inspirando nossos trabalhos”, diz, apontado para uma floreira recém-ilustrada pela dupla com dois piões.

A cena é emblemática da transformação da própria atividade do grafiteiro de quando Mok começou, nos anos 1980, para cá. “Eu cheguei até a ser preso”, lembra. Depois do sucesso de grifes como Rui Amaral, Osgemeos, Kobra e tantos outros, o estilo ganhou status de arte – e acabou criando uma geração de gente que consegue viver do spray.

Mok e Caio Augusto compõem uma cena impensável décadas atrás: um pai incentivando o filho a se tornar grafiteiro. “Ou mesmo que não seja grafiteiro”, comenta Mok. “O importante é que desenvolva uma atividade artística.”

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 8 de abril de 2013

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