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Consciência, Brasil!

Edison Veiga

20 de novembro de 2010 | 07h37

Por José Vicente*

O Quilombo de Zumbi dos Palmares inaugurou os primórdios de uma sociedade nova, onde brancos, negros e índios fugidos da opressão, escravidão e perseguição uniram-se para construção de um país imaginário que garantisse possibilidades iguais. Os brasileiros libertários da época compreenderam que cooperação, lealdade, solidariedade e honestidade de propósitos eram condições insuperáveis para a vivência, a sobrevivência e perenidade daquela construção. Tinham a consciência certa e definida que raça ou cor de pele nada significavam senão a certeza de mais braços fortes, talentos e inventividade para defender a integridade, a vida, a segurança, a liberdade e a esperança de todos.

Por essa crença e por esses valores aqueles homens e mulheres se uniram e lutaram bravamente, resistiram a todas investidas que lhe foram assacadas e com coragem e decisão combateram e transformaram aos desígnios da realidade do seu tempo. Quando finalmente tombaram por não lhe restarem mais forças tiveram a convicção de que os valores daquela luta de resistência pela liberdade, pela vida e pela dignidade humana jamais seriam apagados da memória dos que viriam depois. Imaginaram que aqueles motivos e fundamentos seriam constituídos num legado de virtudes a iluminar para sempre o futuro daquele sentido de nação que propugnaram.

Neste dia 20 de novembro, o dia Nacional da Consciência em que celebramos o aniversário da morte do líder negro e herói nacional Zumbi dos Palmares, um superficial olhar para a realidade do nosso tempo dá a pista do tamanho da distância entre aqueles desígnios inauguradores da nação utópica e os valores que embalam as virtudes da nação do nosso tempo.

A pesquisa do Instituto Ethos de Responsabilidade Social e Ibope lançada no mês de novembro na sede da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo e que analisa o Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas em 2010 faria Zumbi e nossos demais antepassados quilombolas revirarem-se no túmulo.

Na República miscigenada brasileira onde os negros segundo IBGE representam 51% da população brasileira, isto é, 92 milhões de indivíduos, 93,3% dos cargos executivos, 84,7% dos cargos de gerência, 73,% dos cargos de supervisão e 67,3% do quadro funcional são compostos por homens brancos.

A mulher negra compondo 50,1% das mulheres brasileiras, em relação à mulher branca representa respectivamente 9,3% do quadro funcional contra 33%, 5,6% na supervisão contra 26,8%, 2,1% na gerência contra 22,1% e 0,5% no quadro executivo, contra 13,7%.

Proporcionalmente nem o regime do apartheid americano ou sulafricano no seu auge chegou a tanto. Tem se relato de empresas no Brasil que não possuem um negro sequer e por incrível que possa parecer, muitas delas ostentam orgulhosamente os mais variados certificados nacionais e internacionais de prática de responsabilidade social e sustentabilidade. Mesmo empresas multinacionais que no seu país de origem possuem e praticam longamente a cultura da diversidade étnica racial, não reproduzem aqui aqueles valores consolidados, ainda assim, ostentam tais ações e certificados nos balanços sociais.

O absurdo e inexplicável e, pior de tudo, na pesquisa, é o fato de a percepção da maioria dos presidentes dessas empresas concluírem que a situação está adequada e, pasme-se, 1% deles afirmar que o nível de negros no seu quadro executivo está acima do que deveria. É bem vinda tanta transparência e honestidade, mas se o mercado de trabalho é a porta de entrada para a realização pessoal, espiritual e profissional dos cidadãos, estamos sim, diante de um holocausto. Um verdadeiro massacre contra o sonho e a esperança de milhões de brasileiros negros em acessar e ascender no ambiente corporativo e realizar a felicidade geral sua e da nação. Tudo diante dos nossos olhos, tudo suportado e avalizado pelo nosso republicanismo e pelo nosso estado democrático de direito. Seguramente está faltando sanidade nas corporações, decididamente esta faltando consciência no Brasil.

Registre-se por oportuno, que no mais das vezes tratam-se de empresas financiadas com recursos públicos das agencias de fomento, fundos de pensões ou empréstimos subsidiados do BNDES ou do tesouro nacional, ou seja, o dinheiro de 51% dos brasileiros ajuda a financiar a segregação, ajuda a financiar a irresponsabilidade social, sem contrapartidas e sem exigir que o ambiente corporativo cumpra os marcos regulatórios nacional e internacional da justiça social, da igualdade de oportunidades e da dignidade da pessoa humana.

Como garantidor e fiador da soberania e do equilíbrio sócio-econômico-político da nação é responsabilidade nuclear do Estado mediar os legítimos interesses dos grupos, e intervir diretamente para garantir isonomia e justiça, as demandas e necessidades dos grupos vulneráveis, e, conforme demonstram à saciedade um só dos itens da questão, o tema negros é daqueles que, no início do terceiro milênio merecem a prontidão, o esforço e o empenho do país.

O Governo Dilma Roussef, na esteira dos avanços proporcionados pelo Presidente Lula, no conforto de sua maioria parlamentar e do alto da sensibilidade de mulher valente e provada que é, reúne importantes ingredientes e tem a rara oportunidade de avançar de maneira significativa nessa questão de indispensável prioridade nacional. Igualdade de oportunidades e participação na vida nacional asseguradas por ações e medidas efetivas, objetivas e eficazes permitirão fundir os dois brasis e debelar de uma vez por todas a grande chaga que se abate sobre metade dos cidadãos da nação. Como aqueles que se juntaram a Zumbi, precisamos de coragem, precisamos de vontade, precisamos de consciência. Consciência, Brasil!

* O advogado e sociólogo José Vicente é reitor da Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares

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