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“Concreto, sim, mas não tanto…”

Edison Veiga

03 de outubro de 2010 | 00h01

O quarto participante da série por escrito é daqueles que dispensam apresentações. Trata-se de Augusto de Campos, da santíssima trindade de uma das coisas mais originais que já foram feitas em termos de poesia: o concretismo, brotado na São Paulo dos anos 50.

FOTO: JOSÉ PATRÍCIO/AE

Trechos da entrevista estão publicados na edição impressa de hoje do Estadão, na seção Paulistânia. O formato, aliás, é uma exceção ao modelo consagrado nos últimos três anos, desde a criação dessa página publicada aos domingos no caderno Cidades/Metrópole.

A íntegra, só aqui.

Qual o maior desafio em traduzir poesia?
“A técnica é o teste da sinceridade”, dizia Ezra Pound.
Mas a técnica não basta. É preciso capturar a emoção e a criatividade originais. “Impersonar-se” no autor do poema, além de reiventar os achados estéicos do original. Um problema de forma, que é também um problema de alma.

FOTO: JANETE LONGO/AE

Como você e seu irmão Haroldo se tornaram amigos de Décio Pignatari (foto acima), visto que eram de círculos diferentes?
Conheci Décio em 1948. Eu tinha 17, ele 22 anos. Um amigo do Colégio São Bento queria fazer uma revista literária. Eu tinha lido, em O Estado de S. Paulo, um poema do Décio, O Lobisomem, que me impressionara muito. Encontrei-o no Instituto dos Arquitetos e o convidei para colaborar conosco. Logo o apresentei a Haroldo. A publicação saiu no ano seguinte: Revista dos Novíssimos. Décio era terceiroanista da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Haroldo estava no 2º ano. Eu ingressava na Faculdade. Passamos a nos encontrar nos fins de semana em nossa casa, na Rua Cândido Espinheira, nas Perdizes. Décio vinha de trem, de Osasco, onde morava. Discutíamos poesia o tempo todo. E começamos a publicar juntos a partir de 1952, na revista-livro que batizamos de NOIGANDRES (foto abaixo), como signo do experimentalismo poético. A enigmática palavra, citada por Ezra Pound, no seu Canto XX, provinha de uma canção do trovador medieval Arnaut Daniel e, como soubemos mais tarde, significava “que livra do tédio”, qualificando o perfume de uma flor imaginária – o poema.

FOTO: REPRODUÇÃO

Você acha que a atual poesia que se diz herdeira do concretismo ainda é refém das experiências iniciais dos concretistas dos anos 50 e 60? Não seria o concretismo atual apenas um formalismo concreto?
Eu não colocaria a questão nesses termos. A rigor, não há novos “concretistas”. Há, sim, gerações de poetas mais jovens que tomam nossa poesia como referência para novos experimentos multidisciplinares. Se forem bons poetas, serão todos “formalistas”, tal como entendo essa palavra. Haverá sempre os mais e os menos inventivos. Não considero obrigatória a poesia visual, mas não vejo de modo algum esgotados os seus recursos, que hoje, mais do que nunca, podem integrar-se ao som e a outras artes, na projeção do que chamamos, desde o início, de “verbivocovisual”. Assim, não há por que rotular de “concretistas” ou desencorajar os poetas jovens que continuam a experimentar e aprofundar as práticas na verdade suscitadas pela derradeira poesia de Mallarmé, nos fins do século 19, as quais encontram um “habitat” natural na linguagem digital do século 21. Na verdade, não gosto da expressão “formalista”. É um resíduo do jargão dos regimes autoritários do século passado, subservido nos redutos mais maniqueístas do sociologismo literário das nossas universidades. Nos anos 50, tudo o que era novo era “formalista”. Em país subdesenvolvido, poesia de vanguarda era uma afronta aos pobres: “formalismo” das elites. No entanto, “Viver é defender uma forma”, ensinou o poeta Hoelderlin. E Maiakóvski, a vida toda acusado de “formalismo”, como os demais artistas modernos perseguidos na Rússia soviética: “Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”. Quando não tem forma, a poesia não dura.

De que tipo de arte você gosta? Há coisas bem diferentes do que você faz e que o impressionam muito e positivamente? Quais?
É sabido que sou aficcionado de música. Publiquei no Suplemento Literário do Estado de São Paulo, então dirigido por Décio Almeida Prado, um dos primeiros artigos sobre música popular acolhidos em cadernos literários, VIVA A BAHIA-IA-IA, sobre os tropicalistas, e publiquei, também, além de outros estudos esparsos, dois livros, BALANÇO DA BOSSA E OUTRAS BOSSAS – como organizador e autor da maioria dos textos – e MÚSICA DE INVENÇÃO, este, sobre música erudita moderna, tentando resgatá-la do secular bloqueio cultural que a marginaliza entre nós. Acompanho com muito interesse também as outras artes. Foi essa relação transdisciplinar e translinguística que “fez a diferença” do trio dos poetas de São Paulo. O contacto com o concretismo plástico e a música experimental – concreta, eletrônica e aleatória – nos anos 50 e 60, assim como o conhecimento de vários idiomas no original, nos deu uma base sólida para que nos assenhoreássemos, “antropofagicamente”, das poéticas de ponta e pudessemos dar a voltar por cima, construindo uma poesia diferenciada e nova, mas de projeção internacional.

Depois de ter uma produção poética que começou a ser respeitada, que transformações no mundo e na arte mais o influenciaram? Em que sentido?
O fato de respeitarem ou não o que faço nunca influiu na minha poesia. Sempre fiz o que achei que tinha que fazer. Nos últimos tempos, o que mais me influenciou foram os desenvolvimentos tecnológicos, em especial o do universo digital. Há 20 anos não faço nada que não passe pelo computador. Uso-o não só como processador de texto, mas como ferramenta de criação para meus poemas, apoiado em programas de desenho e de animação.

Como você dialoga com aquilo que chamam de pós-modernidade?
Brinquei com esse termo, potencializando-o até o absurdo no poema PÓS-TUDO. O meu neologismo pegou, como a GELEIA GERAL do Décio, e hoje faz parte da “língua geral”. Para mim, “pós-moderno”, pelo menos no que se refere à poesia, é um factóide do critiquês literário, ou como diria Waldemar Cordeiro, uma meia-de-nylon-tamanho-único para encobrir ecletismos fáceis e diluições regressivas.

De que forma a poesia está presente em seu cotidiano?
É o meu “a-fazer” predileto. A arte faz parte do ar que respiro. E a poesia, a arte em que consigo me expressar. Mas é talvez a mais difícil das artes, embora pareça a mais fácil. Por isso mesmo prefiro ler e traduzir, ou seja, “interpretar” a poesia dos outros (o que também não é nada fácil) como uma forma de vivenciá-la e de conversar e aprender com os que admiro. Às vezes consigo fazer poemas. Penso como Valéry: “Ser poeta? Não. Poder ser poeta.” Meus primeiros poemas que se poderiam chamar de concretos, ou pré-concretos, de 1953, impressos em várias cores e propostos para várias vozes, denominavam-se POETAMENOS.

Como é sua rotina de criação, o seu fazer poético?
Passo a maior parte do tempo no computador. Dentro ou fora do universo digital, leio, ouço e vejo muito mais do que escrevo. O meu fazer poético é, antes, como disse, um “a-fazer” e a minha criação propriamente dita, um acidente de percurso.

FOTO: JOSÉ PATRÍCIO/AE

Anos atrás, quando ainda era vivo, Haroldo deu uma entrevista na qual falava sobre as mudanças no bairro de Perdizes. Como vê a mudança dessa região ao longo dos anos? De alguma forma essas transformações interferem ou interferiram em sua criação?
A minha maior crítica é ao excesso de prédios e automóveis e à falta de segurança – queixas comuns aos habitantes das megalópoles. Quando viemos morar na Rua Apinajés, contemplávamos a linha de montanhas com o Pico do Jaraguá à vista. Hoje não vemos mais nada. Prédios e mais prédios de todos os lados e ângulos. Concreto, sim, mas não tanto…

São Paulo foi o berço do concretismo. O movimento precisava desta cidade para existir? De alguma forma poderia ter surgido em outro lugar?
Como o Movimento de 22, tinha de nascer em São Paulo. Nos anos 50, aqui se concentraram os museus de arte moderna, a cinemateca, as bienais, as importadoras de livros e discos estrangeiros. O Rio, maior rival, sempre encantador, não era tão avançado e multi-informativo e era mais sentimental e francês (leia-se: surrealizante). Bastava falar em “matemática” e o mundo desabava. No entanto, já Edgar Allan Poe escrevia que poesia é 1/3 metafísica e 2/3 matemática. Lautréamont, pai do surrealismo, dedicou-lhe todo um Canto de Maldoror: “Ó matemáticas severas, eu não vos esqueci, desde que vossas sábias lições, mais doces que o mel, se infiltraram em meu coração, como uma onda refrescante.” Pound: “A poesia é uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações para as nossas emoções”. E Maiakóvski: “Eu, à poesia só admito uma forma: concisão, precisão das fórmulas matemáticas.” Com um discurso sentimental e complacente não se poderia virar a mesa da poesia e atualizá-la. Só mesmo paulistas para assumirem o desafio pignatariano: “Na geleia geral brasileira, alguém tem de exercer as funções de medula e de osso.”

Como é sua relação com São Paulo?
Gosto da cidade, especialmente pelo que tem de civilizado e moderno. Lembro de ter ouvido João Gilberto dizer ao radialista-jornalista Walter (Pica-Pau) Silva: “São Paulo civiliza, Waltinho…”

FOTO: ROBSON FERNANDJES/ AE

Por que você escolheu Perdizes para viver?
Não escolhi. Nasci na Avenida Angélica. Em meados da década de 1940, meus pais vieram residir nas Perdizes, numa casa da Rua Capitão Messias. Eu e Haroldo gostávamos muito de futebol e jogávamos na rua, que era pequena e plana, com poucos automóveis circulando… A nossa única preocupação era uma vizinha que não devolvia a bola e às vezes chamava a “rádio-patrulha” para acabar com a festa. Era futebol o dia inteiro. De lá meus pais se mudaram para uma casa da Cândido Espinheira. Quando me casei, fui para um pequeno apartamento na mesma rua, próximo do Parque da Água Branca, depois para a Rua Bocaina. Haroldo (foto acima) também continuou nas Perdizes. Por um bom tempo, nos anos 60, Décio Pignatari e Waldemar Cordeiro vieram morar no bairro. Também Ronaldo Azeredo. Por fim, em 1990, mudei-me para a Rua Apinajés, sempre nas Perdizes. Mas moraria com muito agrado em outros bairros – Higienópolis, por exemplo, perto da Praça Vilaboim, um recanto que aprecio muito.

Culturalmente, o que mais gosta de fazer na cidade?
Sempre gostei de ir a exposições e eventos culturais, além de restaurantes e bares, às vezes sedes de muitas conversas “entre pessoas inteligentes”. Hoje, naturalmente, quase-oitenta, meu ritmo é muito menor. Fico muito em casa. Não vou mais a livrarias e casas de disco. Compro tudo na internet. Cinema, não dá mais: sou da geração pré-“pipococa”. Prefiro “zapear” a TV, onde, a par de futebol e noticiário, entrevejo, com atraso, os filmes da moda, de preferência sob forma de montagem (dois ou três ao mesmo tempo). Melhor ainda: o meu Mac e o YouTube, onde assisto a coisas que nunca imaginei rever, como o Anemic Cinema, de Duchamp, ou ver, como o “Nude Soul”-antistrip de Erykah Badu (“… eles estão sempre prontos para assassinar o que não entendem”), a versão robotizada do Ballet Mécanique, de George Antheil; Billie Holiday, ao vivo, falacantando My Man, ou o Un Coup de Dés, de Mallarmé, em versão polonesa. Tudo existe para acabar em YT… Mas tenho muito carinho pelo Parque da Água Branca (foto abaixo), onde eu e minha mulher levávamos nossos filhos, quando pequenos. Já foi mais bonito, com viveiros de pássaros e de pequenos animais. Nas últimas vezes em que lá estive, achei-o descuidado e rumoroso. Li, outro dia, que está sendo reformado. Tomara que volte a recuperar o encanto de outrora.

FOTO: HÉLVIO ROMERO/AE

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