Choveu, parou
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Choveu, parou

CRÔNICA

Edison Veiga

09 Maio 2017 | 06h39

Foto: José Patricio/ Estadão

São Paulo é assim mesmo: choveu, parou. Tá vendo o semáforo? Fica piscando. Ou nem acende. Sabe aquele ponto mais rebaixado, ali? Enche tudo. Vai ver é a natureza se revoltando porque, tenho certeza, tenho certeza, ali mesmo naquele ponto era antes um rio. Veio o progresso, veio a cidade crescendo, veio um prefeito fazedor de obras qualquer e o que era rio virou cano debaixo da terra. A natureza se revolta, não tem jeito.

Mas São Paulo sempre foi assim. Veja só o Anchieta, aquele homem de batina que fundou tudo isso aqui. Não, ele não sabia que ia virar tudo isso, não. Ele fundou uma vila. Piratininga. Ofereceu a São Paulo, era dia do santo. São Paulo de Piratininga. Hoje em dia é lembrado como fundador e como santo. Virou santo, não viu? Por decreto do papa, nem milagre teve de provar. É o verdadeiro santo de casa, este.

Como eu ia dizendo, o José de Anchieta escreveu, até ele, sobre as tragédias das chuvaradas paulistanas. “Com os trovões tremem as casas, caem as árvores e tudo se conturba”, está lá em carta do religioso datada de 31 de maio de 1560. “Não há muitos dias, estando em Piratininga, depois do pôr do sol, de repente começou a turvar-se o ar, a enevoar-se o céu, a amiudarem-se os trovões e os relâmpagos; o vento Sul envolveu a terra pouco a pouco até chegar ao Nordeste, donde quase sempre costuma vir tempestade, ganhou tal violência que parecia o Senhor ameaçar com a destruição. Abalou casas, arrebatou telhados, derrubou matos, arrancou pelas raízes grandíssimas árvores, partiu ao meio ou destroçou outras, de maneira que nos matos se taparam os caminhos sem ficar nenhum.”

E ele não para por aí. “Em meia hora (que não durou mais) é de espantar quanta devastação produziu em árvores e casas; e na verdade se Deus não abreviasse aquele tempo nada poderia resistir e tudo se arrasaria”, prossegue Anchieta. Na mesma carta, ele explicou que era “muito grande a abundância das chuvas”, na primavera e no verão. “Há então as enchentes dos rios e as grandes inundações dos campos”, diz o padre.

Não foi o único ilustre do passado a se impressionar com a chuvarada. Entre 1816 e 1822, período em que ficou no Brasil, o botânico, naturalista e viajante francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire fez duas expedições em São Paulo. Anos mais tarde, publicaria Viagem à Província de São Paulo. No livro, há 63 menções à chuva – e o verbo inundar e variações aparece nove vezes.

“Como já se sabe, eu me encontrava em São Paulo durante a estação das chuvas. Por grande parte do tempo em que ali permaneci, o céu se manteve sempre encoberto. Algumas vezes o sol mostrava-se entre as nuvens, sentindo-se, então, fortíssimo calor; quando o astro desaparecia a temperatura era moderada e, geralmente, as noites e as manhãs eram frescas. Segundo me informaram, cai geada todos os anos, nos meses de junho e de julho; por esse motivo, a cana de açúcar e o café são pouco cultivados nos arredores de São Paulo, ao passo que prosperam essas plantas, com muito êxito, em Campinas, Itu e Jundiaí, lugares que, certamente, são muito menos elevados como o comprova facilmente a direção que segue o rio Tietê”, atesta seu relato. “É indiscutível — disse um dos presidentes da província de São Paulo — que o clima de nossa cidade é bastante salubre, porquanto, durante seis meses do ano, ela permanece, por assim dizer, no meio de um lago formado pelas enchentes do Tietê e do Tamanduateí, sem que, entretanto, a saúde de nossos concidadãos sofra qualquer alteração.”

Saint-Hilaire era rapaz esperto. Atento. Notou que até a arquitetura paulistana da época era pensada por conta das famigeradas chuvas. “Os telhados não avançam desmesuradamente além das casas, mas têm bastante extensão para dar sombra e garantir as paredes contra as chuvas”, diz um de seus relatos. O botânico ainda escreveu que “constitui um verdadeiro suplício viajar pelo Brasil na época das chuvas” e que, em uma das paradas, “a chuva forçou-me a permanecer três dias no local”.

Mas que ninguém venha se aproveitar dessas verdades históricas para eximir governantes de agora ou de antanho de suas responsabilidades. Todo esse cenário natural teria consequências menos graves ao dia a dia se a cidade de São Paulo não tivesse sofrido, ao longo de seu crescimento, nas mãos de sucessivas desastrosas gestões urbanas.

Pode um mísero semáforo não ser à prova d’água afinal?

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