Causos da cidade
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Causos da cidade

Histórias afetivas de São Paulo, agora em livro

Edison Veiga

21 de abril de 2016 | 05h42

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Entre 2003 e 2009, o antropólogo e historiador Juliano Spyer coletou mais de 8 mil histórias afetivas da cidade. Era o VivaSP, ‘um projeto de biografia viva e colaborativa de São Paulo’, na definição do próprio idealizador. As crônicas paulistanas (e de paulistanos) eram publicadas on-line e muitas delas acabaram convertidas em pílulas veiculadas pela rádio Eldorado, emissora do Grupo Estado.

Passados sete anos, o projeto ressurge, em nova versão. O plano é publicar as 99 melhores histórias do acervo em livro impresso e digital. De quebra, também está no programa uma versão customizada – com fotos e vídeos. Mas o projeto só vai sair do papel se conseguir financiamento coletivo: uma campanha está aberta, até a primeira semana de maio, em www.catarse.me/vivaSP. O passo a passo pode ser acompanhado pela página no Facebook (facebook.com/vivaSPnoFace). Como aperitivo, trechos de algumas das histórias selecionadas estão disponíveis abaixo:

“LOGO DEPOIS DAS HORTAS DOS PORTUGUESES, começava a grande várzea do Tietê que se espalhava a perder de vista e a qual nossa turma costumava percorrer, chapinhando a água à procura de rãs, ovos de codorna, passarinhos, preás, bananas do brejo, morangos-silvestres, mangas, goiabas, amoras, enfim, tudo que se encontrava num “safári urbano”.
Quando chovia, o Tietê inundava aqueles campos, e, então, acrescentávamos ao nosso “safári de caça” a temporada de natação. Nossa turminha procurava o poço que ficava próximo da Companhia Vidraria Santa Marina. Não raro algum garoto mais “metido” pagar com a vida o excesso de arrojo nas águas barrentas das chamadas “lagoas”. (…)
Ainda iríamos participar de muitas histórias em nossa infância feliz e despreocupada na várzea do Tietê. Depois, transformaram a várzea num canal de esgoto, criando um problema infeliz e insolúvel para tantas gerações”.

(“A várzea do Tietê”, de Walter Santos Macedo)

“NAQUELE DOMINGO DE CÉU AZUL, RESOLVI VESTIR UMA CALÇA COMPRIDA (imaginem!) e um top discreto. No ônibus, percebia o desconforto das pessoas. Calça comprida era para ser usada por mulheres só no inverno, durante as férias, em lugares distantes como Campos do Jordão. Voltei a pé até a Praça da República, para tomar meu ônibus, o João Ramalho, que parava em frente ao Cine Marabá (o máximo!), quase na esquina da Ipiranga com a São João. Não ?cou por menos. Foram contar à minha mãe que me viram, em plena Praça da República (que era linda e bem cuidada), no domingo, ao meio-dia, de calça comprida!”
(“Escândalo na República”, de Neusa Longo)

“UM CAVALO ERA O MEU SONHO DE CONSUMO e tudo o que eu gostaria de ganhar de presente de Natal. Naqueles idos da década de 1960, com a imaginação correndo solta pelos bairros tranquilos e recém-implantados na cidade, entre os campos formados pelo desmatamento ou terraplenagem, tudo era possível para mim. Até ter um cavalo!
Como não tínhamos espaço suficiente, meu pai burlava as minhas investidas e me levava, juntamente com os meus irmãos, para Interlagos, onde se podia alugar cavalos por hora para passeios pelo bairro, que era uma seguida interligação de várias porções de mato. (…)
Como as corridas eram mais raras que os cavalos de aluguel, nosso caminho para a diversão semanal tinha como ponto final a represa [de Guarapiranga]. A cavalo andávamos em torno da mesma e íamos até o Clube Castelo, atravessando riachinhos limpos em pontes de madeira com muita vegetação típica da Mata Atlântica”.

(“Interlagos a cavalo”, de Silvana Boni de Souza)

“ERA UMA RUA DE UM SÓ QUARTEIRÃO. Ligava a Cardoso de Almeida à Monte Alegre, no alto das Perdizes. Chamava-se Rua Doutor Estevam de Almeida (…). Eu disse chamava-se porque ainda existe uma rua no lugar mas não é, nem de longe, a rua de minha infância.
Era uma rua cheia de vida. Logo cedo vinham o Turco Verdureiro com sua carroça multicolorida de verduras e legumes; a Cabreira, anunciada pelos guizos de suas cabras, vendendo leite tirado na hora, seguidos do padeiro português em sua carrocinha, oferecendo pães para todos os gostos arrumados em uma cesta de vime.
(…) Começava a escurecer. As mães surgiam nos portões chamando para o banho. “Só mais um pouquinho!” Era nessa hora também que, vez por outra, passavam dois personagens marcantes: um negro alto e forte apregoando – “Olha o pinhão! Pinhão cozido!” – e um tipo caipira, balaio na cabeça – “A pamonha! Pamonha quentinha!”.

(“A minha Doutor Estevam”, de Roberto Pereira da Fonseca)

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