Casas-museu abrigam histórias de ilustres de SP
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Casas-museu abrigam histórias de ilustres de SP

Residências reúnem acervos de livros, documentos, móveis e imagens de personalidades que marcaram época na capital

Edison Veiga

06 Junho 2015 | 18h47

Casa de vidro: antiga residência de Lina Bo Bardi. Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

Casa de vidro: antiga residência de Lina Bo Bardi. Foto: Gabriela Bilo/ Estadão


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Entrar na casa, conhecer a vida vivida. São várias as residências paulistanas que pertenceram a moradores ilustres e, depois, acabaram convertidas em instituições culturais. Vencidas as portas, os visitantes de hoje conseguem compreender um pouco do contexto daquele que habitou ali.

“Este é o principal sentido de uma casa-museu: trata-se de um tipo particular de museu exatamente porque ele não é pensado como museu; ao contrário, a coleção que está na própria casa foi que propiciou que fosse pensada a sua transformação em museu”, analisa o escritor e publicitário Marcelo Tápia, ele próprio diretor da Casa Guilherme de Almeida, espaço cultural que funciona onde viveu o poeta, jornalista e advogado. “Essas instituições são criadas de dentro para fora. Elas se transformam em museu por sua peculiaridade e pela importância de seus acervos.”

Casa Guilherme de Almeida: escritório do jornalista. Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Casa Guilherme de Almeida: escritório do jornalista. Foto: Hélvio Romero/ Estadão

É isso mesmo. Percorrer os imponentes cômodos do sobrado de 230 m² onde viveu Guilherme de Almeida (1890-1969) é um revés no tempo. Tempo em que o som vinha da vitrola – preservada, na sala -, os textos eram datilografados – sua Remington Rand, sobre a escrivaninha na mansarda, não tem pingo na letra i – e São Paulo contava com tão menos luzes que era possível brincar de ser astrônomo e passar horas observando estrelas – o telescópio de Almeida ainda está lá, na casa em que morou por 23 anos, de 1946 até a sua morte.

Depois de ficar fechado por quase três anos, o imóvel, que pertence ao governo paulista desde a década de 70, passou por uma série de adequações para ser reaberto, em 2010, como museu e Centro de Estudos de Tradução Literária. Tombado pelo órgão municipal de proteção ao patrimônio (Conpresp) desde 2009, neste ano a residência ganhou proteção também do órgão estadual (Condephaat).]

Frequentar a “casa da colina” – como Guilherme de Almeida apelidou o sobrado – é respirar uma atmosfera vivida por muitos ilustres contemporâneos do poeta. Por ali, saraus eram constantes. Entre os convivas, estavam o escritor Oswald de Andrade (1890-1954), o escultor Victor Brecheret (1894-1955) e as pintoras Tarsila do Amaral (1886-1973) e Anita Malfatti (1889-1964). Quadros e livros – há um acervo de cerca de 6 mil títulos, entre eles muitas primeiras edições de autores modernistas, autografadas – espalhados pela casa evocam lembranças dessa efervescência cultural.

Mobiliário e livros: interior da Casa de Vidro. Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

Mobiliário e livros: interior da Casa de Vidro. Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

Emblemática não só pelo acervo, mas pelo prédio em si, é a “casa de vidro”, primeira obra construída da famosa arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) – que projetou, entre outros, o prédio do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, cartão-postal da Avenida Paulista. “A casa foi concebida e construída entre 1951 e 1952 e o casal Bardi (a arquiteta e o colecionador de arte Pietro Maria Bardi) morou lá até a morte de cada um deles – Lina em 1992, Pietro em 1999”, contextualiza o arquiteto Renato Anelli, diretor do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi e professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP São Carlos).

O Instituto foi criado em 1990 com uma doação do casal, com o objetivo de estimular e divulgar o estudo sobre arte, arquitetura e cultura brasileira. Com a morte de Lina, a entidade priorizou a sistematização e divulgação de sua obra por meio de exposições, publicações e documentário. Quando Pietro morreu, a casa perdeu sua função de residência sendo adaptada para uma melhor preservação do acervo e propiciar melhores condições de consulta a pesquisadores. “A casa foi restaurada e continua a ter uma manutenção cuidadosa”, conta Anelli.

“Além da casa em si, cuja inserção no exuberante bosque tropical plantado no terreno é uma atração muito especial, o acervo conta com cerca de 7 mil desenhos, 15 mil fotografias, além de documentos, livros e outras publicações da biblioteca do casal”, enumera o arquiteto. “Existem móveis, objetos e obras de artes em exposição permanente na casa. A coexistência entre diferentes tipos de objetos artísticos ou não é um ponto forte do interior da sala. Ensaia o tipo de expografia que o casal Bardi utilizaria em suas exposições no Masp e em outros museus.”

Marquesa de Santos: mais famosa amante de d. Pedro I viveu perto do Pátio do Colégio. Foto: JF Diorio/ Estadão

Marquesa de Santos: mais famosa amante de d. Pedro I viveu perto do Pátio do Colégio. Foto: JF Diorio/ Estadão

Próximo do Pátio do Colégio, marco fundador da cidade de São Paulo, fica o Solar da Marquesa de Santos, onde viveu Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), a mais famosa amante do imperador d. Pedro I. Ela morou ali de 1834 até a morte. O endereço hoje é a sede do Museu da Cidade de São Paulo e mantém em exposição móveis que pertenceram a Domitila. Ali, podem ser vistos, por exemplo, a cama da marquesa – provavelmente trazida de seu palacete no Rio no período em que ela, amante do imperador, morou na então capital do Brasil -, um mobiliário para chá em madeira com apliques de madrepérola e um canapé de palhinha.

Klabin: palacete também foi transformado em museu. Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

Klabin: palacete também foi transformado em museu. Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

A Fundação Ema Klabin, onde viveu a empresária, mecenas e colecionadora Ema Gordon Klabin (1907-1994), fica no Jardim Europa, bairro nobre paulistano. Obra do engenheiro-arquiteto Ernesto Becker, a mansão de 900 metros quadrados foi inspirada no Palácio de Sans-Souci, de Potsdam, na Alemanha. “A decoração da casa foi preservada da maneira como ela deixou. São cerca de 1590 peças, entre obras de arte e objetos”, afirma o curador da fundação, o arquiteto Paulo de Freitas Costa. “Congelada no tempo, a casa é um registro histórico, pois mostra como as pessoas da elite viviam na cidade nesse período.” Ema viveu ali de 1960 até a morte.

Museu Lasar Segall: fechado para obras, com reabertura prevista para agosto. Foto: Felipe Rau/ Estadão

Museu Lasar Segall: fechado para obras, com reabertura prevista para agosto. Foto: Felipe Rau/ Estadão

Outro exemplo valioso em São Paulo é o Museu Lasar Segall – atualmente fechado para obras, com reabertura prevista para agosto. Está instalado na antiga residência e ateliê do artista – que nasceu na Lituânia em 1891 e migrou para o Brasil, onde viveu até a morte, em 1957 – , projetados em 1932 por seu concunhado, o arquiteto Gregori Warchavchik (1896-1972).

SERVIÇO
* Casa Guilherme de Almeida. Rua Macapá, 187, Perdizes. (11) 3673-1883
* Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. Rua General Almério Moura, 200, Vila Tramontano. (11) 3744-9902
* Solar da Marquesa de Santos. Rua Roberto Simonsen, 136, centro. (11) 3105-1369
* Fundação Ema Klabin. Rua Portugal, 43, Jardim Europa. (11) 3062-5245
* Museu Lasar Segall (fechado, em obras). Rua Berta, 111, Vila Mariana. (11) 2159-0400