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Casa ‘compartilhada’ vira opção em SP

Próxima do conceito de co-housing, ideia é utilizar casas enormes para convivência de até dez pessoas sem relação de parentesco

Edison Veiga

30 Abril 2016 | 18h01

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São casas enormes, com quatro, cinco, seis quartos. Nelas, vivem cerca de 10 pessoas, sem nenhuma relação de parentesco. São comunidades: eles se consideram parte da mesma família e compartilham a maior parte dos espaços – com exceção, na maior parte das vezes, dos quartos. À primeira vista, podem se parecer com repúblicas estudantis; mas, ao contrário do primeiro caso, quem vive ali o faz intencionalmente – e não por aperto financeiro – e todos são profissionais no pleno exercício de suas carreiras.

Os moradores das “casas compartilhadas” de São Paulo consideram experimentar o conceito de co-housing – surgido nos anos 1970 na Dinamarca e popularizado nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França e em outros países da Europa a partir do fim dos anos 1980.

“Nunca mais moro em prédio, numa mais moro sozinha. Não consigo mais me imaginar vivendo em apartamento ou em uma casa onde você nem sequer conhece os vizinhos”, afirma, convicta, a atriz, jornalista e gestora cultural Carolina Guedes, de 33 anos. Depois de se divorciar, ela saiu do apartamento em Higienópolis. Vive com a filha, Maria Beatriz, de 5 anos, na Casa de Trocas, no Pacaembu. “Essa vida em comunidade está sendo incrível”, avalia Carolina. “Tenho a sensação de que somos uma família.”

Ali são nove pessoas, distribuídas em quatro quartos – e uma edícula. Carolina e a filha têm o seu. Na edícula vive outra moradora. Outros dois quartos têm três moradores cada um. E um não é ocupado por ninguém de forma fixa. Batizado de “quarto do amor”, é um local da casa para que os moradores possam exercer sua privacidade – seja meditando, seja passando momentos a sós com um namorado ou uma namorada, por exemplo.

Uma das idealizadoras desse espaço comunitário é a arquiteta Inês Fernandes, de 27 anos. “Era um sonho antigo: uma vida compartilhada e mais sustentável. Então comecei a chamar alguns amigos”, diz ela, que trocou o apartamento em Pinheiros pela nova vida em agosto.

Na casa, as contas são abertas. “A gente coloca em uma lousa na entrada todos os nossos gastos: do IPTU à limpeza, passando por aluguel, água, luz…”, explica. “Uma vez por semana, temos um encontro do acerto. E no primeiro domingo do mês, resolvemos a parte prática das contas. O valor da contribuição varia com o momento de cada um.”

Localizada no bairro da Saúde, a casa Dedo Verde tem, atualmente, seis moradores adultos e uma criança. Em comum, todos são praticantes da dança circular – e foi assim que o grupo acabou se conhecendo e se formando. “A gente percebeu que as pessoas iam para o mato para dar uma pausa na vida e, quando voltavam, tinham a sensação de que ‘o sonho acabou’”, afirma a publicitária Marina Prathes, de 38 anos. “A Dedo Verde se tornou um ponto de referência àqueles que querem dar uma sustentação ao espaço interior.”

Marina diz que o propósito da comunidade é que cada morador consiga “viver a sua verdade”. “Aqui podemos experimentar ser aquilo que a gente sentia, independentemente de crenças, julgamentos e cobranças da sociedade. Conseguimos nos libertar do que não é nosso para viver o que é nosso.”

Em Perdizes está a Casa da Gente, projeto concebido em 2014. Vivem ali nove pessoas. “Em minha cabeça, é uma evolução natural: primeiro você mora com os pais, depois vai estudar e vive em uma república, aí passa a viver sozinho e depois, quem está afim, dá um passo além e acaba em um espaço compartilhado como este”, afirma o empresário Winston Petty, de 37 anos, um dos idealizadores.

Ele acredita que, para dar certo, os moradores precisam ter uma visão em comum. “Em qualquer co-housing, a filosofia é importante. Não é algo provisório, como uma república: as pessoas precisam acreditar nesse modelo de vida.”

Como ele atua no mercado de aplicativos, trouxe a tecnologia para a gestão da casa. “Usamos plataformas on-line para administrar os custos e até as listas de supermercado”, conta. “De forma que quem vai fazer compras, consegue saber quais itens estão em falta na despensa.”

Conceito. Especialista em co-housings, a arquiteta e urbanista Lilian Avivia Lubochinski é taxativa: de acordo com o conceito, não existe ainda nenhuma experiência do tipo no Brasil. “O que há é de forma latente, dentro de muitas pessoas. E também grupos que vivem em ‘casas compartilhadas’ e têm o propósito de avançar mais em breve”, explica.

Segundo Lilian, dentro do que é conhecido como “comunidades intencionais”, as “casas compartilhadas” são experiências que, ao contrário das repúblicas ou dos cortiços, unem pessoas que estão lá por opção, por intenção. “Elas resolvem diminuir seu custo fixo de vida para poder ter mais liberdade”, define. “São pessoas de bastante brilho, inteligência e cultura. Que se equacionam dentro de um mercado imobiliário em que há um número grande de casas espaçosas vazias e disponíveis para aluguel.”

Já co-housing de fato é uma comunidade que consegue resolver a questão da vida em comunidade com privacidade. “Pode ser uma vila, pode ser um prédio. Cada indivíduo ou família tem a sua própria casa, com seus próprios espaços. Mas a gestão é consensual, muitos bens – carros, por exemplo – podem ser compartilhados, as compras e custos comuns são coletivos”, exemplifica. “E há espaços de uso comum, como lavanderia e horta.”

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