Com novos cardeais, papa continua internacionalizando a cúpula do Vaticano
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Com novos cardeais, papa continua internacionalizando a cúpula do Vaticano

Professor da PUC analisa peso político dos novos cardeais escolhidos por Francisco

Edison Veiga

18 Fevereiro 2015 | 14h39

Foto: Vicenzo Pinto/ AFP

Foto: Vicenzo Pinto/ AFP

Vinte novos cardeais da Igreja Católica receberam o barrete vermelho, o anel e a bula de nomeação, em cerimônia presidida pelo papa Francisco na Basílica de São Pedro, no último sábado. Os novos integrantes da cúpula católica são de 16 nações diferentes, muitos da Ásia e da África. Pela primeira vez, os países de Mianmar, Tonga e Cabo Verde têm representantes no colégio cardinalício.

Nenhum dos novos nomeados é do Brasil – havia a expectativa de que o arcebispo de Salvador, d. Murilo Krieger, fosse elevado ao cargo. Apenas seis são europeus. Do total, 15 cardeais têm menos de 80 anos e, portanto, estariam aptos a eleger um novo papa caso um conclave acontecesse hoje. No total, portanto, hoje há 125 cardeais eleitores, de 56 países, de um total de 227 cardeais vivos, de 74 países. (Completarão 80 anos em 2015 quatro cardeais que passarão a lista dos não-votantes. São eles: Antonios Cardeal Naguib, patriarca emérito de Alexandria, dos coptas, Egito, em 7 de março; Justin Francis cardeal Rigali, arcebispo emérito de Filadélfia, EUA, em 19 de abril; Velásio Cardeal De Paolis, presidente emérito da Prefeitura para Assuntos econômicos da Santa Sé, em 19 de setembro; Santos Cardeal Abril Y Castelló, arcipreste da Basílica de Santa Maria Maior, em 21 de setembro.)

“Historicamente havia um teto de 120 eleitores. Mas como o papa é o legislador e está acima das normas, ele ultrapassou, está ultrapassado”, avalia o teólogo e filósofo Fernando Altemeyer Júnior, professor de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Papa Francisco prefere promover ‘pastores’ a burocratas

Altemeyer fez uma aprofundada análise sobre os novos cardeais que permite traçar algumas conclusões sobre as consequências das nomeações recentes na política do Vaticano. “Francisco tem promovido uma internacionalização do colégio cardinalício, trazendo representantes de países secundários, periféricos”, comenta. “Mais que isso, ele está buscando personagens pastores, não mais burocratas ou experts em finanças. Está trazendo bispos que tenham bom contato com seu povo, com sua diocese, que sejam próximos dos padres e das comunidades. Nesse sentido, o papa está quebrando um pouco o padrão.”

Utilizando dados de todos os conclaves ocorridos desde 1903 e comparando-os com os números atuais, Altemeyer mostra as mudanças da cúpula do Vaticano. Eis os pontos:

– Quanto ao número de eleitores:
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Altemeyer: “Em 11 conclaves nestes 112 anos, o número de eleitores dobrou. Houve acréscimos significados durante os pontificados do papa Pio XII, João 23 e papa Francisco. O número de cardeais vivos em 31/07/1903 quando ocorre o primeiro conclave do século XX era 64 cardeais (62 eleitores e 2 que não participaram). Foram criados entre 1903 e 2015, 769 cardeais em 58 consistórios, sendo 49 consistórios no século XX e nove consistórios no século XXI. Morreram entre 1903 e 2015, 605 cardeais. Os cardeais vivos hoje são 228. Deste total há 125 eleitores em 15/02/2015.”

– Quanto ao número de países:
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Altemeyer: “O número de países quase quadruplicou, com destaque para a internacionalização realizada por João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e Francisco.”

– Quanto à média etária dos cardeais:
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Altemeyer: “A idade média dos cardeais eleitores tem oscilado entre 66 e 73 anos. Neste momento está no centro deste pêndulo com 70 anos, considerando que depois do pontificado do papa Paulo VI foram excluídos do conclave todos cardeais com mais de 80 anos.”

– Quanto ao peso político da Europa no Vaticano (em % de membros do colégio cardinalício):04
Altemeyer: “A Europa mantenha secularmente a hegemonia e controle absoluto das eleições papais desde 1058 e começa a ver diminuído este número a partir do pontificado do papa Pio XI e mais fortemente com Paulo VI e agora com o papa Francisco. De 98,4 % de europeus em 1903 temos 54,4 % no ano 2015.”

– Quanto ao peso político da Cúria Romana no Vaticano (em % de membros do colégio cardinalício):
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Altemeyer: “A Cúria Romana manteve milenarmente seu peso nos votos do colégio eleitoral. No século XX durante os quatro primeiros conclaves teve média de 44 % e em 1958 cai para 21% no pontificado de Pio XII, pela longa enfermidade papal. Sobem com o papa João 23, cai com Paulo VI, mantendo-se estável com João Paulo II. Sobem com Bento XVI e cai com Francisco. A atual Cúria Romana possui 28,8% dos votos com 36 cardeais eleitores sendo 17 italianos e 19 estrangeiros.”

– Quanto aos representantes africanos no colégio cardinalício (em %):
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Altemeyer: “O continente africano que despontou com um crescimento imenso no número de católicos permanece sem representação cardinalícia até o papa Pio XII. Paulo VI fará a virada em favor da presença da África. De 1% do colégio, os cardeais africanos passarão a ser 10%. Com o papa Bento irão diminuir e com Francisco 10,4 % do Colégio de votantes.”

– Quanto aos representantes asiáticos no colégio cardinalício (em %):
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Altemeyer: “O continente asiático tem trajetória similar a do africano. Da representação nula nos três primeiros conclaves do século XX, subirá fortemente com Papa Pio XII e, manter-se-á até Bento XVI. Agora um significativo aumento com o papa Francisco atingindo 10,4 % do colégio eleitoral cardinalício, idêntico ao continente africano.”

– Quanto aos representantes americanos no colégio cardinalício (em %):
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Altemeyer: “O continente americano começou com o século com um cardeal norte-americano, o bispo de Baltimore, presente no conclave de 1903. Em 1922, serão dois cardeais: um norte americano, de Nova York, e um brasileiro, Rio de Janeiro. O número atual do continente chega a 29 cardeais eleitores, com 23,2 % dos votos do colégio.”

– Quanto aos representantes da Oceania no colégio cardinalício (em %):
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Altemeyer: “A Oceania ficou totalmente ausente dos quatro primeiros conclaves do século XX, passando a participar com um cardeal australiano em todos os demais conclaves desde 1958. Um neozelandês nos dois conclaves de 1978, em 2005 e em 2015. Um de Samoa nos dois conclaves de 1978 e agora um de Tonga em 2015.”

– Quanto aos representantes italianos no colégio cardinalício (em números absolutos):
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Altemeyer: “A representação de cardeais italianos nestes onze conclaves gira em torno de nove cardeais eleitores. O número de bispos italianos é 616. Há 9 cardeais eleitores na Conferência italiana além de 17 cardeais italianos na Cúria Romana. Vale lembrar que são bispos atuando na Itália 537, e 79 bispos italianos na Cúria Romana. O episcopado americano possui 501 membros com 7 cardeais eleitores (+ 4 na Cúria Romana). O episcopado brasileiro tem 472 membros e 3 cardeais (+ 1 na Cúria Romana). Os cardeais italianos em 15/02/2015 são 9 eleitores (+ 17 na Cúria Romana).”

– Quanto aos representantes brasileiros no colégio cardinalício (em números absolutos):11
Altemeyer: “O número de cardeais eleitores brasileiros oscila de 1 a 5. O momento de maior representação de deu em 1978, em que durante os dois conclaves, cinco cardeais brasileiros votaram. O total de cardeais do Brasil desde o primeiro, cardeal Arcoverde, soma 21 prelados. Hoje existem 10 vivos, sendo quatro eleitores, três deles vivendo e atuando em dioceses do Brasil e um na Cúria Romana – d. João Brás de Aviz, antigo bispo de Brasília, hoje na Congregação da Vida Religiosa.”

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