Cansei do carnaval de SP, viva o carnaval de SP!
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Cansei do carnaval de SP, viva o carnaval de SP!

CRÔNICA

Edison Veiga

23 Fevereiro 2017 | 22h16

Foto: Vitorio Maddarena Jr.

Foto: Vitorio Maddarena Jr.

Faz seis ou sete anos que eu, folião bissexto na infância interiorana, apaixonei-me pelo carnaval. Já estava rolando o revival dos festejos momescos de rua aqui em São Paulo e animei-me a conferir um bloco de Pinheiros, cujo cordão sairia a poucas quadras de minha casa.

Foi o máximo.

Voltei a ser criança cantarolando clássicas marchinhas – sem nenhuma preocupação em soar politicamente correto, confesso –, vesti-me com a roupa mais deselegante e confortável do armário, tomei cervejas na rua.

No ano seguinte, ao repetir o mesmo programa, fiquei com uma certa ciumeira: o que tinha acontecido que tanta gente havia descoberto o meu bloco? O cordão sossegado transformou-se numa pequena batalha de ir e vir. O conforto da brincadeira virou um empurra-empurra. O ápice da negatividade foi abortar o cortejo pela metade para enfrentar uma fila daquele fast-food pseudo-árabe quase onipresente e muito barato. Foi uma luta pelo espaço para conseguir saciar a fome com umas esfirras.

De lá para cá, apesar desses dissabores – e dos gases estomacais advindos de tais esfirras –, nunca deixei de curtir o redivivo carnaval de rua de São Paulo. E, garanto, jamais irei condená-lo pela sujeira consequente, pelas eventuais confusões advindas das grandes aglomerações, pela chatinha onda do politicamente correto. Criticá-lo, sim; condená-lo, nunca. O carnaval de rua é resultado da contemporânea e salutar onda de apropriação do espaço público – vêm na mesma toada as ciclovias, os parklets, os piqueniques em praças e parques, as ruas abertas às pessoas aos fins de semana.

Então, com todos os defeitos, o carnaval de rua é lindo.

Mas, desnecessário frisar, a coisa cresceu. Muito. E nos últimos anos eu fiquei meio triste porque o carnaval a poucos quarteirões de casa – moro na boêmia, barulhenta e ao mesmo tempo aprazível Vila Madalena – deixou de ser aquele que eu conheci. Virou uma pantomina dos blocos de Salvador. Virou uma muvuca, uma coleção de grandes shows, um caô – lindo, mas diferente daquele carnaval de rua que me encantou alguns anos atrás.

Cansei. Devo estar ficando velho.

Não, não vou sair em marcha inútil pedindo o fim do carnaval de rua de São Paulo. Porque mesmo que, como morador, o barulho me incomode, a sujeira me incomode, as interdições e o trânsito decorrente me sejam estorvos, seguirei defendendo sempre a existência de eventos como este – e que sejam o mais livres quanto possível, sem muitas amarras que não combinam com a própria essência do carnavalizar.

Neste 2017 decidi, entretanto, optar por um plano de salutar convivência com a festança momesca que toma conta do meu bairro. Viajei para fora de São Paulo nas duas primeiras semanas do pré-carnaval. Na terceira, fiquei por aqui: mas tanto no sábado quanto no domingo fui curtir blocos menores em outros bairros – Pompeia e Vila Romana, respectivamente; e estes me deram saudades daquela festança de seis ou sete anos atrás.

No carnaval propriamente dito vou viajar. Estarei nos confins da Amazônia, em um lugar onde nem celular pega. (O paraíso na Terra. Se o mundo acabar enquanto eu estiver lá, certamente só ficarei sabendo quando retornar a Manaus.)

Mas que ninguém use estas parcas linhas para criticar o carnaval de rua. Que ninguém se apóie nestes escritos para condená-lo. O carnaval é incrível, necessário e prescinde de regras. Viva o carnaval de São Paulo.