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Campos Elísios: era um pedacinho de Paris em SP

ARTIGO

Edison Veiga

03 de junho de 2017 | 16h00

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Por Milton Nishida*

Falar do bairro dos Campos Elísios é falar de uma das áreas de maior importância para a história da cidade de São Paulo.

O então novo Champs-Elysées da Pauliceia representava o local de refúgio para a tranquilidade das famílias de posses, onde grandiosos casarões foram erguidos sob as diretrizes de um bairro realmente planejado, com tudo que havia de mais singular e de maior sofisticação nas construções da época.

A maior parte dos materiais construtivos foi trazida do exterior e suas elaboradas aplicações foram feitas por mãos de obra habilidosas, também estrangeiras em grande parte, que, por suas vezes, tiveram o importante papel de ensinar aos construtores brasileiros o que se fazia no hemisfério norte, revolucionando silenciosamente a profissão do construtor brasileiro.

São tantos os patrimônios históricos de importância espalhados pelo bairro, que se trata de um grandioso conjunto urbano representativo do que havia de mais esplendoroso para o ato de morar, viver e circular pelas ruas.

Ali se desfrutou a possibilidade de ter ruas com excelente pavimentação, com ótimo calçamento, arborização, belas praças, casarões com recuos e enormes jardins, sistemas de gás e ainda: iluminação pública! Numa época em que andar no escuro era comum. De fato, um espaço urbano de altíssima qualidade.

Era um pedacinho de Paris em São Paulo. Era a vitrine do bem morar na América do Sul, o modelo mor da vida em conforto e sofisticação. Era a cristaleira reluzente na sala da cidade de São Paulo.

Hoje, tristemente, vem sendo reduzida àquela poeira que se quer varrer para debaixo do tapete. Representa um esquecimento, às costas viradas de quem mira e vislumbra para o lado oposto da cidade.

São várias as edificações maravilhosas que resistem bravamente à fúria dos dias de hoje:

– o Palacete Elias Chaves, que foi a morada da família Pacheco e Chaves e que depois passou a sediar o governo do Estado de São Paulo por décadas.

– a Estação Júlio Prestes, importante estação da Estrada de Ferro Sorocabana, integrando o oeste ao litoral e hoje convertida numa das salas de concerto mais importantes do mundo, a Sala São Paulo.

– o complexo do Museu da Energia do Estado de São Paulo, onde foi morada da família de Henrique Santos Dumont, irmão de Santos Dumont, também é um importante pilar da memória da área e da cidade, hoje abrigando este importante museu e seu rico acervo técnico.

– E ainda, a Estação Pinacoteca, instalada no antigo prédio do Dops, que anteriormente servia como local de armazenamento para as descargas da ferrovia.

– E, há poucos metros dali, o importante Liceu Coração de Jesus, uma centenária instituição de ensino, hoje sitiada no meio da chamada cracolândia.

Alguns destes exemplos citados acima, como a Sala São Paulo, a Estação Pinacoteca, o Museu da Energia e até mesmo novos equipamentos construídos na região, como o Sesc, tidos como importantes núcleos irradiadores para a requalificação, esperava-se que seriam de grande impacto para a revitalização da área.

Entretanto, a experiência se mostrou insuficiente, tornando estes polos de qualificação, verdadeiras ilhas banhadas por uma área extremamente degradada, deixando claro que a ação deve ser no âmbito amplo, multidisciplinar e não apenas reduzida a esta ou àquela edificação.

É preciso preservar e resgatar o patrimônio histórico, mas, sobretudo com o devido acompanhamento das demais áreas que envolvem a sociedade no meio urbano, especialmente o ser humano.

* Milton Nishida é arquiteto e urbanista.

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