As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Breve comentário à carta encíclica Laudato si’, do Papa Francisco, sobre o cuidado com nossa casa comum

Exposição apresentada na mesa-redonda Laudato Si’, a encíclica ecológica do Papa Francisco: primeiras impressões, realizada no Auditório das Paulinas Livraria, no dia 19 de junho de 2015

Edison Veiga

28 Junho 2015 | 07h46

Foto: Reuters

Foto: Reuters

_____________________
Paulistices no Facebook: curta!
E também no Twitter: siga!
_____________________

Por Francisco Catão*

“Louvado seja Senhor meu, pela nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa, produz numerosos frutos, flores multicolores e capim.”
São Francisco, Canto das Criaturas
Citado em Laudato sí, 1

A forma com que Francisco, o papa, abre sua segunda encíclica no tom do canto da terra de Francisco de Assis, é, por si só, reveladora da mensagem que nos quer comunicar nessas suas substanciais quase 150 páginas: louvemos a Deus, em consonância com nossa irmã criatura, a mãe terra, que nos sustenta, ornada de frutos e flores.

O louvor é o reconhecimento de Deus como Deus. Todas as criaturas, em uníssono com a mãe Terra, somos chamados a reconhecer o criador, de quem dependemos inteiramente na existência.

Maltratada e ofendida, porém, pelos seus filhos, que a usam de maneira irresponsável e abusam dos bens que lhes oferece, a Terra protesta contra a violência que lhe é feita, “geme e sofre dores de parto” (Rm 8,2). Esquecemo-nos de que também o nosso corpo é feito com os mesmos elementos do planeta, respira o ar que a terra nos dá e vive da água que nos oferece.

A linguagem poética de Francisco de Assis tem a força de nos convocar pelo coração

Começando sua Encíclica com o canto das criaturas, o papa Francisco se dirige a todos os que têm sensibilidade para se deixar tocar pelas terríveis consequências da deterioração do meio ambiente, que afetaram a todos, a começar pelos mais pobres e mais desprotegidos. A linguagem poética do pobrezinho de Assis, capaz de transmitir um sentimento impossível de ser expresso em conceitos, tem a força de nos convocar pelo coração para o esforço comum de salvar o planeta.

– o 

Por incrível que pareça, há apenas pouco mais de cinquenta anos, começamos a tomar consciência dos “protestos” da Terra. Hoje, porém, ninguém tem mais o direito de lhe fechar os ouvidos.

Quando, nos fins do século 19, o clamor do operariado atingiu o auge, fez-se ouvir a voz de Leão XIII. A Encíclica Rerum novarum abordou com coragem a questão operária e provocou intensa movimentação em favor do reordenamento mais justo da sociedade.

No século XX, em face da questão ecológica, o Concílio Vaticano II levou os dirigentes cristãos a tomar consciência mais aguda de sua responsabilidade em relação aos problemas da terra. Na medida em que a crise se agravava, acharam-se no dever de fazer o que estivesse a seu alcance.

A Laudato si’ é um passo de gigante nessa direção: quer se tornar uma contribuição relevante para que nos empenhemos todos na solução dos problemas ambientais que a todos afetam.

– o –

Vale a pena chamar atenção para a construção do conjunto da Encíclica, como o faz o próprio Francisco. Os seis capítulos seguem o roteiro de uma aula, tal como a entendiam os mestres, desde os albores da universidade: primeiro se faz o levantamento do que acontece numa área determinada da realidade ou do saber, aduzindo-se no fim, os princípios genéricos que se devem respeitar. Coloca-se então a questão na perspectiva em que deve ser tratada, desenha-se seu verdadeiro perfil e esclarecem-se seus fundamentos, o que permite concluir, tirando as consequências práticas para se consolidar a solução encontrada.

Francisco, na sua Encíclica segue roteiro análogo (cf. nº 15 e índice). Começa constatando “o que está acontecendo em nossa casa”, a crise ecológica (c. 1) e lembra o princípio a ser levado em conta, pelo menos segundo a tradição monoteísta (judaico-cristã e islâmica) (c. 2).

Nessa perspectiva, vê a crise ecológica como o problema atual do ajustamento do ser humano ao universo (c. 3) e propõe um caminho teórico de solução: o reconhecimento do verdadeiro lugar que o ser humano ocupa no universo, o que chama de “Ecologia integral” (c. 4).

Carta se encerra com duas orações: uma a todos, outra aos cristãos

Pode, então, propor “algumas diretivas de orientação e ação”, que se resumem no diálogo nos diversos fori e instâncias político-econômicas, inclusive religiosas (c. 5). Acrescentando uma nota própria, a que atribui grande importância, trata, enfim, da pedagogia e da espiritualidade ecológicas (c. 6) e conclui com uma oração que oferece a todos, e uma segunda oração, que recomenda aos cristãos.

– o –

Mas esta não é a única forma de ler a Encíclica. Além de seu aspecto claramente didático, vinculando o cuidado da casa comum ao cuidado com o próprio ser humano – como poderia o ser humano habitar numa casa desarrumada? – Francisco manifestou claramente sua posição de homem, de cristão e de pastor em resposta aos grandes problemas que hoje nos desafiam a todos e a cada um de nós em particular. Enumera em seguida, no nº 16, o que chamou de eixos que atravessam a Encíclica inteira, nove questões em que toma posição, com o peso de sua liderança internacionalmente reconhecida: enfatiza, em primeiro lugar, a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, recorrendo sempre ao dado de que, no mundo, tudo está estreitamente ligado e criticando severamente o paradigma tecnológico atual e sua associação às mais variadas formas de poder. Convida, então, a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, levando em conta o valor próprio de cada criatura e o sentido humano da ecologia.

Debates precisam ser estimulados

Ninguém detém a forma de resolver todos os problemas. Precisamos estimular amplos debates, sinceros e honestos, em nível internacional, nacional e local, em vista da superação da cultura do descarte e do consumismo, em vista da adoção, na liberdade, de um novo estilo de vida.

Todas as observações, sugestões, lições, orientações teóricas e recomendações práticas que a Encíclica contém são de uma riqueza inestimável e devem ser lidas em função desses nove objetivos que as suscitaram e que dão unidade a toda a Encíclica.

– o –

Todos eles, no entanto, convergem e encontram seu ponto de arrimo nos dois capítulos centrais, em que o papa Francisco procura demonstrar que a crise ecológica é antes de tudo humana (c. 3), em virtude de três grandes fatores que influenciaram e influenciam decisivamente a ação humana, no conjunto do universo: a ciência e a tecnologia praticadas sem outro critério a não ser o seu próprio desenvolvimento, a globalização do padrão tecnocrático, que contraria a diversidade do planeta, e o antropocentrismo moderno, que considera o ser humano como absoluto, colocando-o no centro do universo, destituído, ipso facto de toda lei ou ordem, que ele mesmo não tenha absolutamente livre, estabelecido.

Ora, a ideia de que o indivíduo humano seja uma mônada absoluta é uma falácia total. Prevalece, no universo em todos os planos e níveis, uma interdependência incontestável, a que nada nem ninguém pode escapar, sob pena de se cortar da realidade e da vida, perturbando o conjunto de que todos fazemos parte.

Caminho deve ser resgate de uma ecologia integral

Com base nessa constatação elementar, que se verifica em todos os níveis do universo, fica evidente que o caminho de solução para a crise ecológica é o resgate teórico e prático de uma ecologia integral, em todos os planos da vida e da existência da Terra. Só assim, o ser humano, situando-se no seu verdadeiro lugar, poderá usufruir em paz de todos os benefícios a que tem direito, levando em consideração tudo que devemos uns aos outros e ao planeta que nos abriga.

É o que Francisco desenvolve em síntese (c. 4), retomando sucessivamente o mesmo argumento da interdependência ambiental, econômica e social, mas igualmente, cultural, na vida cotidiana, lembrando o princípio do bem comum e a justiça, inclusive entre as gerações.

São quinze páginas, extremamente densas, em que o papa elabora um discurso de sabedoria, que ultrapassa os limites setoriais da religião e da política, das culturas e das ideologias, e fala ao ser humano como ser humano, abrindo a possibilidade de um diálogo universal, abrangendo todos, desde os povos mais ricos, até às periferias existenciais, mais afastadas dos bens da humanidade.

– o –

O diálogo, tema do capítulo quinto, é universal. Francisco, em primeira pessoa a ele se propõe, no âmbito internacional e em suas diversas latitudes.

Estimula o diálogo, nas esferas nacionais e locais, nos mais diversos setores, sempre orientando-o para a plena realização dos seres humanos, quer nas esferas políticas e econômicas, quer na área das religiões entre si e com os poderes públicos.

Mas não podemos nunca nos esquecer de que o ser humano não nasce feito para o diálogo. Este é fruto da educação, que humaniza a vida das pessoas e da sociedade, preparando-as para se realizarem plenamente, na adesão e vivência dos valores que dão sentido a tudo e a todos, expressão de uma Realidade para a qual estamos orientados como criaturas, pelo que há de mais íntimo em cada um de nós.

A ecologia de Francisco alcança toda a realidade da pessoa, envolve a interdependência como realidade divina, do Pai com o Filho no Espírito Santo, em comunhão além do tempo, mas à qual, segundo o ensinamento de Jesus, somos todos chamados.

Uma ecologia mais do que sagrada, teologal, que, longe de relativizar, confirma, consolida e dá sentido a toda ecologia, coroa sua integralidade e nos coloca em prece: Laudato si’, Signore.

* Francisco Catão é teólogo.

Leia em português a íntegra da encíclica:

Mais conteúdo sobre:

Igreja CatólicaReligião