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Como um ser humano normal decidiu limpar sua timeline

Edison Veiga

02 Junho 2015 | 07h47

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão


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Esta é uma história de ficção, mas podia não ser.

É sobre um ser humano normal, desses com Facebook. É sobre um dia de fúria, mas em pleno ano de 2015 – quando as armas são os posts. E esse ser humano normal, que podia ser eu, podia ser você, podia ser qualquer um – de fato, era qualquer um – acordou decidido a exercer sua intolerância contra os intolerantes, limpar a timeline de tudo o que não concordava ele, pacifista, do bem, decente, cidadão.

Então, foi dada a largada ao festival de bloqueios em “amigos-com-o-qual-não-concordo-tanto-que-nem-sei-por-que-afinal-existe-amizade”. Começou na maciota, golpes certeiros do mouse excluindo todos aqueles que, direta ou indiretamente, defendiam a volta de homens fardados ao poder. Ao Poder, eu quis dizer. Na sequência, até porque alguns acumulavam os dois deméritos, aproveitou e tirou também de sua tela aquele sujeito que postava, com orgulho e identificação, frases do Bolsonaro. O quê? Vejam só: tem um cara aqui defendendo o Eduardo Cunha? Block.

Chegou a vez de eliminar mais um grupo intolerante: os recalcados que não conseguem conviver com a existência de famílias não-tradicionais. Que não aceitam quaisquer formas de amor que não sejam protagonizadas por um homem e uma mulher. O ser humano normal gastou uma boa meia hora identificando tais discursos em sua timeline. Vinham com os argumentos mais rasos, mas sob várias formas: da estatal à religiosa, da biológica à escatológica, dos fãs de Bolsonaro (de novo, galera!) aos que criticam (desdobrando-se nos vieses positivo e negativo) declarações e gestos do papa Francisco. Block, block, block.

Então vieram os xenófobos, sim, que ainda existem. No caso, não só aqueles que postam mensagens preconceituosas contra estrangeiros, como se não fôssemos todos uma só humanidade – mas também os que xingam brasileiros de outros estados e, em última leitura, os que destilam o ódio geral clamando pela separação política de São Paulo. Novos blocks.

O ser humano normal parou para almoçar. Respirou fundo. A faxina na timeline ainda custaria a terminar. Havia os que acham que “quem usa droga é bandido” – ali, do conforto de seus lares, cervejinha em um punho, cigarro no outro. E os que defendem cegamente este ou aquele partido político, sem entender que são tão semelhantes a ponto de conseguirem reproduzir os mesmos problemas em instâncias administrativas diferentes? Festival de blocks.

O grupo de amigos estava se reduzindo. Chegou a vez de encarar, totalmente desarmado, os que, não só acreditam, mas querem fazer com que os outros acreditem também que só com uma população civil armada venceremos a guerra contra a criminalidade. Sim, são os que querem um retrocesso para antes do Estatuto do Desarmamento, meio na linha do “tiroteio em todos e salve-se quem puder”. Block, né?

Vieram outros ainda: a turba que advoga pela redução da maioridade penal, os que creem que bandido bom é bandido morto, os saudosos de um tempo em que não havia democracia (ops, esses já foram).

Caía a noite quando o ser humano normal notou que já não tinha mais nenhum amigo em sua timeline. A intolerância da intolerância lhe rendeu isto: zero.

Mas ele foi dormir mais leve, feliz.

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