Cine Belas Artes reabre neste sábado
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Cine Belas Artes reabre neste sábado

Em entrevista ao 'Estado', o proprietário André Sturm fala sobre a depressão e a euforia dos últimos três anos e meio

Edison Veiga

18 Julho 2014 | 22h00

Foto: Werther Santana/ Estadão

É um filme longo, cheio de altos e baixos, mas com final feliz. Três anos e quatro meses após seu fechamento, o Cine Belas Artes, clássico cinema de rua da Consolação, reabre as portas na tarde deste sábado. Com direito a cerimônia “de devolução à cidade” e, claro, filmes. “Estarei lá e já pretendo ver de cara uns três”, diz o designer Helcio Hirao.

Um dos maiores frequentadores do cinema – ia quase diariamente, seja para um café, seja para um filme –, ele foi um dos órfãos do Belas Artes que se mobilizaram nos meses que antecederam o fechamento do espaço, em março de 2011, e jamais desistiram de lutar por sua reabertura. “Frequentava o cinema desde os anos 1980”, conta ele, que hoje tem 47 anos. “Vi muitos altos e baixos, vi um incêndio (em 1982), uma interdição pelo Contru (Departamento de Controle de Uso de Imóveis, da prefeitura, também nos anos 1980), vi a crise do começo dos anos 2000, a reinauguração após reforma…”, recorda-se ele, para quem o drama de três anos atrás, portanto, tinha cara de reprise – de um filme triste, diga-se.

O habitué conhecia os funcionários pelo nome, assistiu a pelo menos duas vezes Medos Privados em Lugares Públicos – filme de Alain Resnais que ficou 3 anos e meio em cartaz no Belas Artes, recorde histórico em São Paulo, e retorna à programação neste sábado –, conheceu amigos na fila do cinema. Na solenidade ocorrida no início do ano, na Praça das Artes, em que foi assinado o contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal, ele também estava lá. “Fui testemunha desse momento. Pudemos festejar o retorno do nosso cinema”, diz.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Fechamento. Em 17 de março de 2011, com uma sessão de A Doce Vida, de Federico Fellini, o Belas Artes fechou suas portas. Aparentemente, chegava ao fim uma história iniciada em 1943, sob o nome Cine Ritz – o endereço só passaria a se chamar Belas Artes em 1967 e viveria seu auge nos anos 1980, quando era programado pela produtora francesa Gaumont.

Sem o patrocínio do banco HSBC, o encerramento das atividades teve seu estopim por desentendimentos financeiros entre o dono do cinema, André Sturm, e o proprietário do imóvel, Flávio Maluf. Este decidiu reajustar o valor cobrado mensalmente como aluguel, de R$ 63 mil para R$ 150 mil. Sturm chegou a propor R$ 85 mil, mas a oferta foi recusada. As chaves foram devolvidas, portanto, em março de 2011.

A mobilização dos paulistanos, entretanto, começou antes disso. Com a iminência do fim do patrocínio, no segundo semestre de 2010, quinze restaurantes da cidade incentivavam seus clientes a doarem R$ 5 além da conta, para reverter ao cinema. Foi uma ideia da proprietária do La Casserole, Marie France Henry (foto abaixo). “A ação começou por uma crença minha de que ia ser muito ruim para São Paulo se perdêssemo mais um cinema de rua, já que o número deles está cada vez mais reduzido”, conta ela. “Estava indignada.”

Foto: Felipe Rau/ Estadão

Com a doação, os clientes dos restaurantes ganhavam um ingresso para assistir a um filme no Belas Artes. Depois da sessão, o bilhete carimbado dava direito a uma sobremesa cortesia em qualquer um dos restaurantes participantes. “Era um combo totalmente paulistano: o programa de ir ao cinema e depois jantar, ou vice-versa”, diz Marie. Não há um valor consolidado de quanto a ação rendeu ao Belas Artes.

Nas redes sociais, a mobilização também foi grande. Grupos debatiam a importância do cinema para a história de São Paulo, alguns defendiam seu tombamento por órgãos de proteção ao patrimônio, ações, passeatas e abaixo-assinados eram organizados. Entre idas e vindas dos órgãos municipal e estadual de proteção ao patrimônio e até uma CPI aberta pela Câmara para debater a questão, o imóvel teve sua fachada tombada em 2012. Mas permanecia fechado. Vazio, deteriorando-se e transformado em alvo de pichações – uma delas, inclusive, por ativismo, conforme o próprio autor explicou ao Estado na época: confira neste link.

Em um dos primeiros dias à frente do Executivo, em janeiro de 2013, o prefeito Fernando Haddad (PT) declarou que a questão do Belas Artes seria uma das prioridades da Secretaria da Cultura. Sturm encheu-se de esperanças (confira entrevista abaixo). De acordo com os envolvidos, o papel da Prefeitura foi de auxiliar na busca por um novo patrocinador – no caso, a Caixa – e mediar o acordo entre proprietários do imóvel e do cinema. O novo valor do aluguel não foi divulgado – de acordo com os envolvidos, por causa de uma cláusula de confidencialidade. “O que posso dizer é que é mais do que pagávamos e menos do que ele (o proprietário Flávio Maluf) queria”, despista Sturm.

Pelo contrato, o banco paga R$ 1,8 milhão por um ano de patrocínio, renovável por outros cinco anos. O Belas Artes também arrecada fundos com uma bem-sucedida campanha de venda de poltronas cativas – por R$ 3 mil, cinéfilos têm seus nomes estampados em uma das cadeiras e podem assistir a uma sessão por dia, com acompanhante, durante um ano. A ação já contou com participação de figurões como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador Eduardo Suplicy e a atriz Marisa Orth, entre outros.

CRONOLOGIA

Foto: Acervo Estadão

1943: Cine Ritz é aberto
1952: Local passa a ser chamado de Cine Trianon
1967: Mudança de nome: vira Cine Belas Artes, sob o slogan Espetáculo, Polêmica e Cultura
1981: Inspeção: Prefeitura aponta irregularidades no prédio, como salas revestidas com material combustível e poucas saídas de emergência. Local não é fechado
1982: Fogo: é alvo de incêndio criminoso
2004: Um ano após André Sturm assumir o comando do cinema, o Belas Artes passa por uma grande reforma
2010: Perde patrocínio de banco HSBC. Dono pede imóvel de volta
2011: Em março, é realizada a última sessão. No segundo semestre, Conpresp e Condephaat negam tombamento. Justiça manda reabrir processos
2012: Câmara Municipal abre CPI do Belas Artes. Em outubro, Condephaat fachada, mas cinema segue fechado e prédio, abandonado
2014: Com intermédio da prefeitura, Caixa passa a patrocinar o Belas Artes. Cinema reabre neste sábado

ENTREVISTA: André Sturm

Foto: Maira Vieira/ Estadão

Gaúcho que vive em São Paulo desde os 4 anos, formado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, dono da distribuidora de filmes Pandora e diretor do Museu da Imagem e do Som (MIS), André Sturm, 47 anos, viveu emoções dignas de um thriller nos últimos anos. Depressão, euforia, alívio, desilusão, estresse e felicidade fizeram parte de seu cotidiano desde o ano anterior ao fechamento do Belas Artes – cinema que ele adquiriu em 2003 – até a reabertura marcada para este sábado.

Em maio, ainda sem saber a data exata para a reinauguração, ele recebeu a reportagem do Estado em sua sala no MIS, nos Jardins, para contar como foram esses anos todos. Confira os principais pontos da entrevista:

Como você se tornou proprietário do Belas Artes?
Em 2002, vi no jornal que o dono do cinema estava de saco cheio, que só dava prejuízo e que ele iria fechar o Belas Artes. Eu sempre tive o sonho de um dia fazer a programação desse cinema. Anos antes, em um momento de maluquice, até havia procurado o dono dizendo que queria ser sócio. Bom, em 2003 eu o convenci a não fechar o cinema e entrei como sócio. Ele achava que eu era um louco, dizia que não ia dar certo. Mas assumi a programação, fiz uma reforminha básica, fui atrás de conseguir recursos. Depois entrou o pessoal da O2 (produtora do diretor Fernando Meirelles, que fez parte da sociedade do Belas Artes até 2011) e conseguimos o patrocínio do banco HSBC. Foi quando fechamos por quatro meses, em 2004, e realizamos um boa reforma. Aí o Belas Artes voltou a ser referência em São Paulo.

Como foram, para você, os últimos dias do Belas Artes, no início de 2011?
Eu fiquei muito deprimido. A pior depressão foi em dezembro (de 2010), quando ele (o proprietário Flávio Maluf) falou que ia tomar o cinema. Então eu decidi o que iria fazer: aceitei que fecharíamos e resolvi promover uma celebração do cinema, com duas mostras de filmes clássicos. Eu iria fechar em janeiro (de 2011), apesar de, por contrato, poder ficar até 28 de fevereiro. Não queria viver aquele clima de “morte anunciada”. Mas houve tanta repercussão que acabamos decidindo ficar até o último dia. Depois o advogado do proprietário nos procurou para conversar de novo sobre uma possibilidade de acordo… No fim, funcionamos até 17 de março. A cobertura da mídia, o apoio das pessoas, tudo foi lindo, foi maravilhoso. Mas vivemos dias de muita tensão – os jornais tinham “setoristas” de Belas Artes, gente me ligando todo dia, toda hora. Admito que, quando fechamos, apesar de megatriste, senti um grande alívio. Foi um desapego, apesar de muito duro e difícil emocionalmente. O Belas Artes não era um negócio, apenas; era uma coisa pessoal.

Você acreditava que um dia fosse reabri-lo?
Eu não esperava que houvesse uma comoção tão grande. Não imaginava que o tema Belas Artes virasse uma questão municipal. Claro que sabia que receberíamos manifestações de solidariedade, afinal tínhamos um público médio mensal de 25 mil pessoas. Mas achava que dali a três meses todos já teriam superado e esquecido. Por isso, preparei-me espiritualmente para fechar o cinema, sem nutrir esperanças futuras.

Nesses três anos, você conversava com o proprietário do imóvel?
Poucas vezes. Cheguei a cogitar, no início, reabrir o Belas Artes em outro imóvel. Mas o projeto acabou não sendo viável. Uns 18 meses após o fechamento procurei o proprietário pela primeira vez, para saber se poderíamos negociar novamente. Não rolou. Depois, acho que houve uma segunda vez. Enfim, eu também não tinha motivo para procurá-lo. Os caras estavam fechados, não queriam.

Quando você passou a acreditar que a reabertura seria possível?
No quarto dia de mandato (início de 2013), o prefeito (Fernando Haddad) deu uma declaração colocando o Belas Artes como prioridade. Então procurei o secretário (municipal de Cultura, Juca Ferreira) e contei a ele a história do cinema. Eles foram fundamentais para sensibilizar o proprietário e na intermediação das conversas com a Caixa. Só quero deixar claro que não tem um centavo de dinheiro público nesta história. A Prefeitura fez seu papel de liderar o processo de recuperação de um espaço importante para a cidade. Foi mediadora e estimuladora.

Quando o acordo com a Caixa foi assinado, a previsão era que o cinema reabrisse em maio. Por que o atraso?
Eu fiquei três anos sem entrar lá. Depois que peguei a chave, fui ver o imóvel e percebi que a situação era mais complicada do que parecia. As paredes estavam em ordem, não havia infiltração, não havia telhado quebrado. Mas sumiram todos os fios elétricos, o ar condicionado estragou… São coisas com custo alto, que atrasam qualquer obra. Se eu ligasse uma lâmpada, havia o risco de pegar fogo em tudo. No começo, usávamos lanterna para andar dentro do Belas Artes, para você ter uma ideia.

E a partir de agora, vai conciliar a direção MIS com o Belas Artes?
Sim. O difícil é abrir o Belas Artes. Depois, o dia a dia, tem uma equipe que toca. Só vou fazer a programação – e isto me exige uma manhã por semana.

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