Belas Artes se torna patrimônio cultural do Estado
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Belas Artes se torna patrimônio cultural do Estado

Tradicional cinema da Rua da Consolação teve processo estadual concluído

Edison Veiga

12 Novembro 2015 | 17h45

Foto: Wether Santana/ Estadão

Foto: Wether Santana/ Estadão


_____________________
Paulistices no Facebook: curta!
E também no Twitter: siga!
_____________________

Em resolução publicada no Diário Oficial do Estado desta quinta, a Secretaria de Estado da Cultura reconhece decisões do Condephaat, o órgão estadual de proteção ao patrimônio, e declara, a partir de então, o Cine Belas Artes – atualmente Caixa Belas Artes – protegido.

De acordo com a publicação – que lembra que o Condephaat analisou o caso em duas sessões, uma em outubro de 2012 e outra em agosto de 2013 -, ao cinema se atribui “papel de relevo na formação de quadros expressivos da produção cinematográfica do Cinema Novo Brasileiro”, tendo a casa funcionado “durante sua história como espaço de formação qualificada de público, importante para a cinefilia e cinematografia paulistas”. O documento também reconhece que “o edifício abrigou, na sala subterrânea, o primeiro local de reuniões da Sociedade Amigos da Cinemateca, cuja atuação para a valorização do cinema nacional é inegável” e que “se trata de um lugar de memória no panorama da cinematografia paulista”.

A partir desta quinta, portanto, o Belas Artes é patrimônio cultural do Estado. A proteção se limita à fachada frontal do cinema, com destaque para a marquise existente sobre a calçada da Consolação e os brises.

Fechamento e abertura. Em 17 de março de 2011, com uma sessão de A Doce Vida, de Federico Fellini, o Belas Artes fechou suas portas. Aparentemente, chegava ao fim uma história iniciada em 1943, sob o nome Cine Ritz – o endereço só passaria a se chamar Belas Artes em 1967 e viveria seu auge nos anos 1980, quando era programado pela produtora francesa Gaumont.

Sem o patrocínio do banco HSBC, o encerramento das atividades teve seu estopim por desentendimentos financeiros entre o dono do cinema, André Sturm, e o proprietário do imóvel, Flávio Maluf. Este decidiu reajustar o valor cobrado mensalmente como aluguel, de R$ 63 mil para R$ 150 mil. Sturm chegou a propor R$ 85 mil, mas a oferta foi recusada. As chaves foram devolvidas, portanto, em março de 2011.

A mobilização dos paulistanos, entretanto, começou antes disso. Com a iminência do fim do patrocínio, no segundo semestre de 2010, quinze restaurantes da cidade incentivavam seus clientes a doarem R$ 5 além da conta, para reverter ao cinema. Foi uma ideia da proprietária do La Casserole, Marie France Henry (foto abaixo).

Foto: Felipe Rau/ Estadão

Com a doação, os clientes dos restaurantes ganhavam um ingresso para assistir a um filme no Belas Artes. Depois da sessão, o bilhete carimbado dava direito a uma sobremesa cortesia em qualquer um dos restaurantes participantes. Não há um valor consolidado de quanto a ação rendeu ao Belas Artes.

Nas redes sociais, a mobilização também foi grande. Grupos debatiam a importância do cinema para a história de São Paulo, alguns defendiam seu tombamento por órgãos de proteção ao patrimônio, ações, passeatas e abaixo-assinados eram organizados. Entre idas e vindas dos órgãos municipal e estadual de proteção ao patrimônio e até uma CPI aberta pela Câmara para debater a questão, o imóvel teve sua fachada reconhecida pelo conselho pela primeira vez em 2012. Mas permanecia fechado. Vazio, deteriorando-se e transformado em alvo de pichações – uma delas, inclusive, por ativismo, conforme o próprio autor explicou ao Estado na época: confira neste link.

Em um dos primeiros dias à frente do Executivo, em janeiro de 2013, o prefeito Fernando Haddad (PT) declarou que a questão do Belas Artes seria uma das prioridades da Secretaria da Cultura. De acordo com os envolvidos, o papel da Prefeitura foi de auxiliar na busca por um novo patrocinador – no caso, a Caixa – e mediar o acordo entre proprietários do imóvel e do cinema. O novo valor do aluguel não foi divulgado – de acordo com os envolvidos, por causa de uma cláusula de confidencialidade.

Pelo contrato, o banco pagou R$ 1,8 milhão pelo primeiro ano de patrocínio, renovável por outros cinco anos. O Belas Artes também arrecadou fundos com uma bem-sucedida campanha de venda de poltronas cativas – por R$ 3 mil, cinéfilos têm seus nomes estampados em uma das cadeiras e podem assistir a uma sessão por dia, com acompanhante, durante um ano.

CRONOLOGIA

Foto: Acervo Estadão

1943: Cine Ritz é aberto
1952: Local passa a ser chamado de Cine Trianon
1967: Mudança de nome: vira Cine Belas Artes, sob o slogan Espetáculo, Polêmica e Cultura
1981: Inspeção: Prefeitura aponta irregularidades no prédio, como salas revestidas com material combustível e poucas saídas de emergência. Local não é fechado
1982: Fogo: é alvo de incêndio criminoso
2004: Um ano após André Sturm assumir o comando do cinema, o Belas Artes passa por uma grande reforma
2010: Perde patrocínio de banco HSBC. Dono pede imóvel de volta
2011: Em março, é realizada a última sessão. No segundo semestre, Conpresp e Condephaat negam tombamento. Justiça manda reabrir processos
2012: Câmara Municipal abre CPI do Belas Artes. Em outubro, Condephaat vota favorável ao tombamento da fachada, mas cinema segue fechado e prédio, abandonado
2014: Com intermédio da prefeitura, Caixa passa a patrocinar o Belas Artes. Cinema reabre