As vidraças estão quebradas, senhor governador
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As vidraças estão quebradas, senhor governador

CRÔNICA

Edison Veiga

20 de junho de 2017 | 17h39

Foto: Google/ Reprodução

Estudei a maior parte da vida na Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau José Penna, na minha querida cidade natal, Taquarituba. Gostava muito de lá. As espaçosas salas de aula, sempre lotadas com mais de quarenta alunos, onde fiz amigos que considero até hoje. As duas quadras onde, zagueiro perna de pau ou goleiro frangueiro, joguei muita bola – em quantidade, nunca em qualidade. Os pátios internos, nos quais brincava sobretudo nos dias chuvosos. O bosque. A biblioteca, onde descobri livros como ‘O Guia dos Curiosos’ e outros que saciavam minha vontade de aprender. O laboratório de ciências – uma vez, fiz um experimento com eletricidade e derrubei a luz de todo o colégio.

Foi no Penna que tive alguns dos professores mais incríveis de minha formação. A começar pelo xará Edison, que acabou sendo Professor, com P maiúsculo, por toda a vida – até sua precoce partida. Alguns, sei, ainda continuam lecionando por lá. Outros se aposentaram. Há os que foram encarar desafios em outras cidades, em outras escolas.

Na última sexta-feira, meio do feriadão prolongado de Corpus Christi, estive em Taquarituba com meu filho, Chico, três anos e meio de idade. Passei em frente à escola e, com indisfarçável orgulho:

– Filho, esta é a escola onde o papai estudou.

Ele ficou quieto, só observando. Fiquei imaginando que o menino devia estar embasbacado pelo gigantismo. O Penna é grande, ocupa todo um quarteirão; a escola de educação infantil que ele frequenta, em Pinheiros, na zona oeste paulistana, se resume a dois casarões assobradados e um pequeno quintal.

Repeti:

– Filho, esta é a escola onde o papai estudou.

Ao que ele respondeu:

– Mas está quebrada, papai.

Logo pensei que o moleque estava se referindo aos portões fechados, devido ao feriado.

– Não, Chico, não está quebrada. Só está fechada. Hoje não tem aula.

– Está quebrada, papai – insistiu.

– Como assim, quebrada?

– Olha.

Ele apontou para cima. Olhei. As vidraças estavam quebradas. Engoli em seco e comecei a me lembrar que aquelas vidraças, na maior parte das lembranças de minha infância, estavam mesmo sempre quebradas. Pensei em responder apenas dizendo:

– É porque é escola pública.

Mas não estava certo dizer isso. Acabei me autocensurando. Justamente por ser uma escola pública, do povo, deveria ser exemplo de zelo e manutenção. Lembrei-me da Finlândia, onde presídios estão sendo desativados e acabam se tornando escolas, hotéis, um monte de coisa. Lembrei que Taquarituba ganhou um presídio pouco tempo atrás. Pensei que a coisa pública é de todos, não é porque é escola pública que tem de ter vidros quebrados, sujeira, falta de professores, banheiros pichados, qualquer mazela dessas. Era para funcionar. Funcionar bem. Funcionar direito.

Eu ainda refletia, em silêncio, quando ele continuou:

– Papai, minha escola é pequena. A sua é grande. Mas, papai, minha escola não tem vidro quebrado.

Só consegui responder isso:

– Papai vai falar com o responsável pela escola.

Faz tanto tempo que não moro mais em Taquarituba, quinze anos, que não tenho a menor ideia de quem é o diretor ou a diretora do Penna. Então, porque acredito que a educação é a base para um futuro com menos presídios, gostaria de avisar o senhor governador, responsável pelo Penna e por tantas outras escolas paulistas: do lado de fora, vi que as vidraças estão quebradas; do lado de dentro, não sei quais são os problemas.

Consultei a base do Enem, apenas por referência. Dentre as 14.998 escolas avaliadas, o Penna ocupa a nada honrosa 13.536ª posição. Não, não tive a menor pachorra de consultar o número de vagas do presídio que foi inaugurado recentemente na minha querida Taquarituba.

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