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As lágrimas alegres de Helena Vieira

Iuri Rodrigues conta sobre a mulher que o 'ensinou' a ser jornalista

Edison Veiga

04 Junho 2016 | 15h49

Por Iuri Rodrigues*

Mal apontei na porta e Helena já estava em pé, de vestido florido, um pano de prato no ombro e um olhar que brilha tanto quanto o dente de ouro toda vez que solta uma gargalhada. Foi uma visita que fiz a ela outro dia. Almoçamos e papeamos a tarde inteira.

Eu devia ter uns quatro anos, eu acho, quando vi Helena pela primeira vez. Talvez esse dia foi o que mais chamou a minha atenção. Sempre gostei dos papos com pessoas mais velhas. Na infância, então, adorava rodas de conversas com tias que sempre lorotavam regadas a café. Quando minha avó morreu, Helena, eu penso, era a pessoa que mais sabia sobre ela, talvez.

Foi na mesa comprida de madeira, que comportava até 12 cadeiras, em que pessoas recorriam no mais das vezes, entre comilanças e soluços, que vi Helena pela primeira vez na vida. Ah, se aquela mesa falasse…Era a mesa da casa dos meus avós paternos. A praça Rui Mendes, centro de Lagarto, não era só o endereço dos meus avós, Helena e muitos outros lagartenses, ela também fazia parte daquele roteiro.

Helena tem 66 anos, completados recentemente, nasceu no Tanque, em Lagarto, mesmo povoado em que nasceram meus avós. Mãe de 11 filhos, tem costume de chamar, carinhosamente, as pessoas de meu ‘hômi’ e ‘minha moça’. Helena Vieira conhece Lagarto mais até que a sua própria vida. Na cidade, as pessoas a têm como uma figura folclórica, daquelas que nem mesmo o tempo poderá esquecer. Acolhe pessoas de rua, animais e presta serviços na comunidade. De parteira a rezadeira, de sabedoria popular ela entende como poucos. Até a previsão do tempo ela acerta mais que Maju, a moça do tempo da Globo. Helena Vieira é minha fonte jornalística preferida.

Foi uma das fundadoras da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Lagarto e até a igreja do povoado Tanque foi construída num terreno doado por ela. O sagrado e o profano gritam em Helena Vieira do Tanque, que era amiga de todas as horas de Luiza de Zé Grande e de Rosalvo Sandes, todos falecidos, todos do Tanque, todos primos.

Em meu último encontro com Helena, lembrei do nosso primeiro. Minha avó, de lenço na cabeça, um cigarro de fumo grosso entre os lábios, unhas bem aparadas e uma aliança contornando um dos dedos. Já Helena apoiava os dois cotovelos na mesa e embargava a voz com o óculos embaçado. Era uma cena forte, mas as lágrimas de Helena me causavam muita atenção. Nem lembro o papo qual era, em meu pensamento de criança, só lembro que as lágrimas pingavam na mesa.

Eu era, digamos, um jornalistazinho, de corpo franzino, barriga grande e cabelos loirinhos diante de uma cena em que enquanto uma soluçava e uma outra consolava, eu observava. Acho que foi diante daquela ação que me tornei jornalista. As lágrimas de Helena decidiram a minha vida profissional.

Naquele manhã, na mesa de vovó Luiza, diante de uma mulher que chorava, decidi ser jornalista.

* Iuri Rodrigues é jornalista.

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