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As crianças do Lar Nossa Senhora da Consolação e o parque

Arquiteto defende uma função nobre para a área verde que está no centro de disputa

Edison Veiga

04 Março 2015 | 00h15

testeirapqaugusta

Foto: Benedito Lima de Toledo

Foto: Benedito Lima de Toledo


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Por Benedito Lima de Toledo*

O Lar Nossa Senhora da Consolação, mantido pela falecida irmã Irene Alves Lopes (foto acima) à Rua Gravataí, 111, abrigava pouco mais de cem crianças, número variável conforme a vida da instituição. Por ela eram recolhidas crianças que viviam nas ruas. Como é compreensível, nunca tive intimidade para ver como em uma casa isso era possível. Mais intrigante, ainda, era saber de onde vinham recursos para alimentar a criançada. Certa vez, enquanto conversávamos, presenciei uma senhora que estacionou seu carro na frente das casinhas, retirou pacotes de alimentos que se destinavam ao lar e…, até logo! Espontaneamente pessoas auxiliavam o lar. Deveria ser essa a forma com que as orações da irmã Irene eram atendidas.

Foto: Benedito Lima de Toledo

Foto: Benedito Lima de Toledo

Um pequeno grupo, do qual eu fazia parte, periodicamente se reunia para estudar a situação da instituição. Em uma dessas reuniões, um dos membros dirigiu a palavra à irmã: “Irmã, nós conseguimos acertar o número de caminhas e a senhora acolheu mais uma criança além do combinado”. A irmã, tranquilamente, respondeu: “Está bem, vá lá, escolha uma das crianças e ponha na rua”. Silêncio geral. Não havia o que responder. Tivemos o privilégio de conviver com uma santa.

Do outro lado da Rua Gravataí observava-se um terreno vago. A irmã, já com certa idade, sentada junto à janela no térreo de uma das casinhas, contemplava esse espaço e rezava. Tal local foi sucessivamente destinado, a partir de diversos políticos, a várias instituições. Uma delas chegou a colocar uma vistosa placa anunciando iniciativas empolgantes. Irmã Irene continuava rezando e olhando para o terreno, até que a placa, que nunca serviu para nada, foi se decompondo até cair e sumir.

Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução

A aspiração da irmã era ali fazer uma obra para abrigar melhor a criançada. Conversávamos sobre o assunto e do que seria necessário para a execução dessa obra. Um fato pitoresco aconteceu: nem a irmã me pediu um projeto nem eu me ofereci para fazê-lo. Houve apenas uma conclusão nesse papo informal: era urgente começar a construir no terreno. Dessa forma, fiz o projeto (imagem acima) e acompanhei a construção desde as fundações. De onde vinham os recursos, não sei. Mas, parodiando a música de Adoniran Barbosa, diria: “Cada laje que subia, era um salto no coração”.

A nova sede do lar finalmente ficou pronta e ali estão as crianças. Contudo, havia um aspecto, digamos “didático-urbanístico”: onde haveria um local adequado em que as crianças pudessem desfrutar de uma área verde, uma vez que ficavam sempre no interior do lar?

O terreno que abrigara uma escola poderia servir a outras crianças

Para tanto, uma ideia me perseguia: a Rua Gravataí é perpendicular à Caio Prado. A partir da Gravataí, as crianças poderiam ter acesso ao terreno que, outrora, fora ocupado por um colégio, o Des Oiseaux. Portanto, o terreno que abrigara uma escola agora serviria a outras crianças.

Nestes dias, a população tão carente de área verde se mobiliza firmemente para ali concretizar-se o sonho de se criar um local ensolarado com uma bela área verde, o Parque Augusta. Não imagine um parque com esse equipamento padronizado, mas um jardim a um tempo recreativo e educativo, confiado a paisagistas e botânicos. Ali, as crianças do Lar Nossa Senhora da Consolação e de prédios vizinhos encontrariam um local saudável de convívio. É preciso lembrar que o cidadão tem o direito de decidir os destinos de sua cidade. É o que chamamos democracia. Órgãos encarregados de zelar pelo bem público, como o Conpresp, acabaram por entregar os pontos.

Houve época em que a cidade pôde contar com notáveis homens públicos, como Prestes Maia. Quando concluiu seu mandato, ao deixar a sede da Prefeitura, na Rua Líbero Badaró, o motorista do carro oficial abriu-lhe a porta como de costume. Prestes Maia agradeceu e disse: “Obrigado, agora não sou mais prefeito”. A seguir, atravessou o Viaduto do Chá e foi tomar um bonde, rumo a sua residência.

A probidade é o apanágio dos nobilíssimos homens públicos.

* O arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

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