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Arouche, o chá e outros comentários sobre a Academia Paulista de Letras

Edison Veiga

25 Fevereiro 2011 | 12h01

Por Benedito Lima de Toledo*
FOTO: JOSÉ PATRICIO/ AE

O recém-eleito presidente da Academia Paulista de Letras, advogado e cronista Antonio Penteado Mendonça, em entrevista ao Estado, afirma, com razão, que a “Academia é da sociedade paulista” e, adiante, “infelizmente, ainda encontramos vozes dissonantes, que gostariam de continuar ganhando seu jetonzinho, ficar bebendo Coca-Cola e chazinho às 5 da tarde antes das sessões, sem fazer nada de útil para a sociedade”.

O chá em São Paulo traz à memória a generosa personalidade de Arouche de Toledo Rendon, primeiro diretor da Academia de Direito do Largo de São Francisco e responsável por imensos benefícios à cidade, entre eles a introdução da cultura do chá. Importou mudas e fornos para produção que franqueou a quantos se interessaram pela cultura.

A Academia situa-se em antigo campo de cultura de chá.

Como arquiteto, urbanista e professor da Universidade de São Paulo, fui responsável pela restauração de vários edifícios notáveis como o Caetano de Campos, salvo de demolição pela movimentação da opinião pública, o “Deutsch Schule” – Colégio Alemão da Praça Roosevelt – e o Colégio “Sud Menucci” em Piracicaba, todas guardando a physique du rôle, estimada pela população.

Nesta cidade, a Pinacoteca do Estado atesta um documento vivo não desvirtuado da técnica construtiva de tijolo aparente. Já o Mosteiro da Luz, projetado e construído pelo primeiro santo brasileiro – Frei Galvão –, abriga o Museu de Arte Sacra, do qual sou conselheiro, onde ocorrerá, em breve, a muito aguardada exposição subordinada ao tema O Crucifixo.

Afirma, ainda, o novo presidente: “com a reforma do nosso espaço, pretendemos alugá-lo para eventos”. E, mais adiante, “Eu não posso negar o espaço a quem quer que seja”. Aí reside a preocupação. Locais de eventos proliferam na cidade. Sempre ruidosos e espalhafatosos por natureza. Locais de eventos discrepam das finalidades essenciais da Academia.

Nossa sede pode se tornar conhecida como casa de eventos, onde às quintas feiras, pessoas desocupadas ganham seu jetonzinho “sem fazer nada de útil à sociedade”. O jetonzinho, por sua vez, não constitui motivação de comparecimento para qualquer acadêmico.

O Largo do Arouche, referido como região deteriorada, pode merecer um projeto de reurbanização e, para tanto, não faltam profissionais qualificados. Os governos que assumam suas responsabilidades.

* O arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.