Arnesto
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Arnesto

Edison Veiga

06 de agosto de 2010 | 14h00

A reportagem abaixo saiu em 23 de abril, dois dias antes de evento organizado pela Secretaria de Estado da Cultura para homenagear Adoniran Barbosa. Mas como hoje, de fato, é celebrado o centenário do músico, vale o repeteco.

Nota necessária: após a publicação, Arnesto foi convidado. E, feliz da vida, até cantou na festa ocorrida no Parque do Ibirapuera.

E ninguém se lembrou de convidar o Arnesto
Inspirador do samba ainda não recebeu convite para festa do centenário de Adoniran

FOTO: LEONARDO SOARES/AE
 
Ninguém se lembrou de chamar o Arnesto, aquele que nos convidou para um samba no Brás, para participar da festa armada para comemorar o centenário do seu grande amigo Adoniran Barbosa (1910-1982). Ficou com uma baita de uma “reiva”? Arnesto faz que não se importa e, assim, sem recado na porta nem nada, ele recebeu a reportagem para uma longa conversa, em sua casa, na Mooca, zona leste, na tarde de quarta-feira.

“Prazer, meu nome é Ernesto Paulelli. E-r-n-e-s-t-o”, apresenta-se, com um sorriso. “Mas pode me chamar de Arnesto, que é como Adoniran me rebatizou.” É isso. A música, feita por Adoniran em 1955, virou sua segunda certidão de nascimento.

Com voz afinada, Arnesto cantarola o samba que o imortalizou. “Faço isso sempre. Ontem mesmo (terça), cantei no aniversário de minha neta”, diz, orgulhoso. Para depois emendar numa espécie de continuação da música: “O Arnesto mora na Mooca/ Está aposentado/ Tem saudades da maloca.” Chama-se Sobradão do Arnesto – em referência a sua casa – e foi composta pouco tempo atrás pelos músicos Nando Távora e Sonekka.

A lucidez impressiona, aos 95 anos. “Estou com quase um século… Não é brincadeira, não!”, afirma. Ele relembra tudo com detalhes, cores, nome e sobrenome. “O segredo é que a cabeça não para”, garante. “Estudo sem cessar, diariamente.” E o que estuda? “Português, Filosofia, Matemática…”, aponta para a pilha de livros com equações para lá de complicadas. “E teoria musical. Porque só tocava violão de orelha. E não pegava bem o Arnesto do samba não saber teoria musical.”

Saúde. A idade avançada, é claro, deixa suas marcas. Há uma semana, Arnesto não sobe mais as escadas do sobrado onde mora – com filha e genro. Ordens médicas. “Descemos a cama aqui para a sala”, mostra a filha Valéria Paulelli Barbosa, de 62 anos.

“Demos uma bela recauchutada nele e agora está melhor. Vai chegar ao centenário”, confia seu cardiologista, Cosmo Feliciano da Silva. “Mas quero ele quietinho que nem uma pedra preciosa.”

Arnesto é só gratidão ao “Doutor Cosmo”. O médico se tornou amigo – e conseguiu tratamento de saúde gratuito para ele. Há dois meses, uma angioplastia. Semana passada, check-up completo. E, nesta semana, duas consultas em sua clínica particular. “Cardiologista. Meu médico do coração”, trocadilha Arnesto.

Palavras. A habilidade com trocadilhos revela a faceta erudita de Arnesto. Dono de um vocabulário impressionante – ainda mais se lembrarmos sua origem humilde: filho de sapateiro, passou a infância trabalhando como engraxate e vendedor de chuchus na vizinhança – ele dá um ritmo saboroso às frases graças ao esmero na escolha das palavras. Assim, saem de sua boca “hombridade”, “engodo”, “setentrional”, “insígne”…

Verdade que Arnesto nunca parou de estudar, cultor do autodidatismo. Mas foi só aos 60 anos que ele, depois de uma vida dedicada ao comércio, realizou o sonho de ser diplomado em Direito – ainda advogou por 30 anos. “Só me aposentei porque tive um AVC (acidente vascular cerebral) em 2005”, recorda-se.
Aprendeu a falar bonito bem antes, com os livros mesmo. “Meu pai assinava uma coleção de romances em fascículos. Toda quarta-feira chegava um”, conta. “Enquanto ele trabalhava, eu tinha de ler em voz alta. Meu pai era um exímio artista: confeccionava cada sapato como se fizesse um violino.”

Saudades. Ali, na sala do sobrado, a conversa se alonga gostosa – interrompida a cada 15 minutos pelo cuco do relógio que, renitente, lembra que o tempo urge. Mais ou menos a cada 15 minutos também, lágrimas escorrem do rosto do Arnesto. “Perdoe-me se eu choro”, murmura, meio constrangido. “Fico comovido quando relembro minha vida.”

Ele aprendeu a tocar violão com 16 para 17 anos, ensinado por um vizinho. Na época, já morava na Mooca – e não no Brás, bairro em que nasceu e em cuja história se misturou, por causa do samba de Adoniran. “Eu tomei gosto, cheguei a tocar em conjuntos e até em rádios.”

Bons tempos. Os ecos desses acordes ainda ressoam na cabeça de Arnesto. Tão fortes quanto a amizade – e gratidão – que cultivou com Adoniran. “Tenho saudades das noitadas que passei tocando violão e cantando nas cantinas de São Paulo. Saudades mesmo”, declara. E, pulsos cerrados, olha firme para o repórter. Mais uma lágrima.

 

Amizade com compositor nasceu em 1938, num estúdio de rádio
E há 55 anos Ernesto Paulelli se dedica a desmentir a fama de ‘furão’ que ganhou após canção ficar famosa

É batata. Ernesto Paulelli sabe muito bem. Basta ser reconhecido por alguém e, pronto, já tem de responder a primeira (óbvia) pergunta, que vem sempre em tom de repreensão:

– Por que você deu bolo no Adoniran Barbosa, Arnesto? Não custava ter deixado ao menos um bilhetinho na porta?

“O Adoniran é umfanfarrão”, apressa-se em justificar, com um eterno sorriso paciente nos lábios. “Nunca o convidei para um samba em casa.” Uma vez, aliás, quando Arnesto cobrou uma satisfação do músico, pela “história mal-contada”, a resposta veio pronta, na voz rouca característica dele:

“Arnesto, se não tivesse mancada não tinha samba. Segura essa pra mim!”

Teve de segurar. Tem de aturar até hoje.

Amizade. Arnesto e Adoniran se conheceram em 1938, quando ambos trabalhavam nas rádios paulistanas.O primeiro bate-papo foi no estúdio da Record, então no 13.º andar da Rua Conselheiro Crispiniano, no centro de São Paulo.

“Ele logo me chamou de Arnesto”, conta, lembrando do sotaque típico do músico. “E disse que meu nome dava samba.” A homenagem veio quase 20 anos depois, em 1955. “Foi a maior emoção da minha vida”, confessa Paulelli.

Tempos depois, Adoniran deu a ele um presente valioso, guardado até hoje: a partitura número 001 da música. E veio com a seguinte dedicatória histórica: “Ao acadêmico Ernesto Paulella, a quem dediquei esta composição quando do seu lançamento, em maio de 1955. Homenagem do autor, Adoniran.” Para o músico, a criação da melodia havia os transformado em, mais que amigos, compadres.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 23 de abril de 2010

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