Após ‘seca’, SP volta a ter fonte com água
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Após ‘seca’, SP volta a ter fonte com água

Edison Veiga

02 Maio 2013 | 05h00

PATRIMÔNIO

Obra na Praça Julio Mesquita, no centro, terá grade de vidro para evitar invasão do público

Depois de oito meses de obras, orçadas em cerca de R$ 500 mil, será reinaugurada hoje a Fonte Monumental da Praça Julio Mesquita, no centro de São Paulo. Será o primeiro chafariz paulistano a ter uma espécie de redoma de vidro protetora, à prova de vandalismo.

“Essa proteção não é uma grade que exclui, mas que provoca uma distância valorativa”, afirma a arquiteta Nadia Somekh, diretora do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) do Município e presidente do órgão paulistano de proteção ao patrimônio, o Conpresp.

“Vamos perder o estigma de que as fontes se tornam banheiro público. A fonte será protegida como uma joia da cidade, como uma escultura em um museu ”, diz Nadia.

Depois de longo período de seca, a Fonte Monumental é o primeiro equipamento paulistano do tipo que volta a funcionar. Conforme o Estado revelou em fevereiro de 2012, todos os 16 chafarizes públicos de São Paulo estavam fora de operação – de acordo com a Prefeitura, por causa de vandalismo e furtos constantes de peças necessárias ao funcionamento.

“A Fonte Monumental estava completamente pichada, com partes faltantes e muita impregnação de urina – havia pessoas que praticamente moravam ali”, diz a arquiteta Fernanda Lapo, da empresa contratada pelo DPH para executar as obras de restauro. “Assim, precisamos fazer a limpeza e a recuperação total do equipamento, para podermos entregá-lo na quinta-feira (hoje) em pleno funcionamento e com uma proteção de vidro.” No total, dez operários trabalharam no restauro.

História. A história da Fonte Monumental remonta o início do século 20 e é cheia de idas e vindas. A ideia vigente era a da construção do “Centro Cívico”, enaltecendo o urbanismo da região central. Em meio a obras de alargamento de vias, transformações de pequenas ruas em largas avenidas e demolição de velhos imóveis, a Prefeitura contratou a escultora Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto (1874-1941) para confeccionar “uma fonte em mármore branco de Carrara e bronze dourado a fogo”, conforme o texto da lei municipal publicada em 1913.

A ideia, de acordo com registros do DPH, era instalar o chafariz-monumento na frente da nova Catedral da Sé – cujas obras começavam naquele mesmo ano, depois da derrubada da velha igreja, em 1911.

Entretanto, o tempo passava e nada de Nicolina entregar a obra. Dez anos após a assinatura do contrato, a Prefeitura resolveu endurecer: em resolução datada de junho de 1923, rompeu com Nicolina “sob pena de cobrança das despesas a que der causa com a aquisição e assentamento da fonte, no local designado, conforme o contrato referido”.

No ano seguinte, surge um novo problema. No episódio imortalizado como Revolução de 1924, a cidade foi invadida por tropas do General Isidoro Dias Lopes (1865-1949). Os bombardeios interromperam serviços e obras. Só depois desse período, foi aberta nova concorrência pública para a contratação dos serviços necessários à montagem da fonte.

Quem venceu foi o arquiteto italiano Giovanni Bianchi. A Prefeitura, então, firmou outro contrato e, dessa vez, coube ao escultor Roque de Mingo (1890-1972) fundir as peças decorativas em bronze – em forma de lagostas.

A essa altura, as obras de alargamento da Avenida São João haviam resultado na abertura de uma praça em formato triangular, denominada Praça Vitória – em homenagem à Guerra do Paraguai (1864-1870). Decidiu-se, então, instalar a Fonte Monumental ali, em vez de manter o plano original da Praça da Sé.

O monumento foi inaugurado em 1927, ano em que a Praça da Vitória passou a se chamar Julio Mesquita, em homenagem ao diretor deste jornal O Estado de S. Paulo de 1891 até 1927.

PARA LEMBRAR:

Obra inspirou Adoniran

No início dos anos 1970, o vandalismo e a depredação da Fonte Monumental – conhecida como “fonte das lagostas”, por causa dos adereços em bronze em forma do crustáceo decápode marinho – revoltaram o músico Adoniran Barbosa (1910-1982), autor de sucessos como Trem das Onze e Saudosa Maloca.

Em parceria com Tasso Rangel, ele compôs o samba Roubaram a Lagosta, cuja letra diz:

Na praça Julio Mesquita
Tem a estátua da lagosta
Quem passa de longe enxerga
Quem passa de perto gosta
E a lagosta de bronze
Fica esperando bom dia
Mas tem gente distraída
Que nem para ela espia.
Por uma razão muito forte
Ela em bronze foi lembrada
Inauguração na praça

Uma fita foi cortada,
Teve discurso, foguetes,
Teve churrasco e bebidas,
Teve mágicos e palhaços,
Futebol, flerte e corrida.
Mas isso ficou para trás
Não sei que forma que tinha
Essas coisas não se faz

Agulha não vai sem linha
Deixe a lagosta em paz
Muito bom ficar sozinha
Mas é melhor ficar seca ou molhada
Do que ser derretida ou roubada.

Reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 2 de maio de 2013

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