Após fogo, museu demite e troca equipe
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Após fogo, museu demite e troca equipe

Mantidas neste ano, atividades externas foram suspensas em 2017 pelo Museu da Língua Portuguesa; meta interna é de reabertura em 2019

Edison Veiga

25 de outubro de 2016 | 03h02

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Quase um ano após um incêndio que destruiu suas instalações, o Museu da Língua Portuguesa demitiu seu diretor técnico, Antonio Carlos de Moraes Sartini, e estrutura o ano de 2017 sem funcionários relacionados ao trabalho museológico da instituição e sem nenhuma atividade cultural e educativa.

Ao contrário do que ocorreu neste ano, quando a decisão do Museu da Língua foi manter exposições e eventos externos enquanto sua sede, no histórico prédio da Estação da Luz – tombado como patrimônio nas esferas municipal, estadual e federal -, precisa ser recuperada dos danos do incêndio, todo o planejamento de 2017 está sendo feito com foco nas obras de reconstrução.

“Estamos reconfigurando o escopo de atuação da organização social (o IDBrasil Cultura, Educação e Esporte, que faz a gestão do museu desde 2012), de modo a focar os trabalhos nesse acompanhamento. A prioridade passou a ser as obras: há uma demanda legítima da sociedade para que devolvamos isso o mais rápido possível”, afirma Renata Motta, coordenadora da unidade de preservação do patrimônio museológico da Secretaria de Estado da Cultura.

“No ano que vem, portanto, possivelmente não teremos atividades ao público, já que há esse revocacionamento do contrato”, completa ela. Atividades externas só ocorrerão se houver algum patrocínio da iniciativa privada.

Conforme o Estado apurou, dos cerca de 60 funcionários que atuavam no Museu da Língua Portuguesa até o incêndio, apenas 12 seguem trabalhando atualmente, até o término dos projetos externos em andamento – em fevereiro do ano que vem. A partir de então, da equipe original, devem ser mantidos apenas dois ou três da área administrativa. “O fato de o museu não ter um acervo físico, ou seja, todo o nosso acervo é digital, acabou sendo uma vantagem diante da fatalidade que aconteceu”, afirma Renata. Ou seja: a natureza da instituição prescinde equipes zelando pelos seus itens enquanto se aguarda a obra.

No momento, secretaria e organização social estão preparando o plano para o ano que vem. Entre os aspectos em discussão, está a própria renovação do contrato, que vence em 30 de novembro. Já há um consenso entre as partes que o mesmo deve ser renovado. O valor do repasse do Estado para a organização ainda não foi definido, mas deve ser semelhante ao deste ano – R$ 2,7 milhões. No ano passado, com o museu em pleno funcionamento, o aporte foi de R$ 6,7 milhões.

No dia 21 de dezembro de 2015, o local foi destruído por um incêndio de grandes proporções, que deixou um morto e levou à sua interdição. Ocupando 4,3 mil m² em três andares da Estação da Luz, o museu foi inaugurado em 2006 e, em seus últimos três anos de operação, recebeu 1,6 milhão de visitantes.

Obras. Para as obras de reconstrução, já há o valor total da indenização do seguro – R$ 39 milhões, dos quais cerca de R$ 5 milhões já foram utilizados para obras emergenciais no início do ano. Com este valor, entretanto, seria possível, conforme avaliam os gestores, apenas um museu “como o anterior”. “A ideia é fazermos uma atualização tecnológica. Para tanto, já está em curso um plano de captação com parceiros da iniciativa privada”, diz Renata.

É tabu falar em prazo. O receio é de que qualquer descumprimento seja interpretado como atraso. Internamente, discute-se como meta a reabertura em 2019.

DUAS PERGUNTAS PARA ANTONIO CARLOS DE MORAES SARTINI, EX-DIRETOR DO MUSEU

1. Como avalia a decisão de o museu não oferecer atividades culturais?
Entendo que o museu foi vítima de um cenário econômico complicado, mas pessoalmente acredito que seria possível continuar, até sua reabertura, pensando na população. Um museu não é apenas o espaço físico de exposição de longa duração, mas também o serviço educativo, as palestras, as exposições itinerantes, os trabalhos de educação patrimonial – uma série de atividades que poderiam ser desenvolvidas mesmo com a sede fechada.

2. Depois de comandar o museu desde a inauguração, qual o legado o senhor acredita ter deixado?
Saio com o dever cumprido e a sensação de que muita coisa ainda teria a realizar. Mas estabelecemos uma marca, um museu onde as pessoas se sentiam em casa, um equipamento cultural muito simpático. Agora pretendo me dedicar a outros projetos culturais.