Antonio
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CRÔNICA

Edison Veiga

16 Maio 2017 | 14h23

Foto: Helvio Romero/ Estadão

Outubro do ano passado, era uma noite de terça-feira quando telefonei ao professor Antonio Candido pela última vez. Cordial, paciente e solícito como sempre, com sua voz baixa ele ouviu o meu pedido demonstrando atenção. Eu sabia, é claro, que fazia muito tempo sua sabedoria se resignava a não comentar sobre novidades literárias, isso era algo já muito dito, publicado, repetido. A mim mesmo, o professor já havia negado análises sobre autores contemporâneos.

Minha ligação, entretanto, tinha seus motivos. Eu escrevia, então, uma resenha sobre uma obra até então desconhecida de um autor sobre o qual Antonio Candido havia tecido comentários críticos ainda nos anos 1960. E a obra em questão era uma revisita ao livro de 50 anos atrás – uma autobiografia literária, por assim dizer, em que o tal escritor dissecava seu próprio processo criativo.

Mesmo assim, ouvi um não.

– O meu tempo de crítico já passou – limitou-se a justificar.

Evidentemente que silêncio desse quilate só pode ser respeitado. Mas a frase, vinda de quem veio, mereceu registro na resenha assinada por mim e publicada no caderno Aliás. O tempo, afinal, é mestre até de mestres como Antonio Candido. O tempo, onipotente, é a explicação mais bonita e bem-acabada de tudo, até mesmo da literatura.

Quando Antonio Candido nos deixou, na última sexta-feira, aos 98 anos, eu me lembrei dessa breve derradeira conversa como quem tenta compreender o tempo. Não o tempo da literatura, que da mesma forma que é fugaz consegue conduzir para a eternidade os nomes que se sobressaem por conta das letras e das ideias. O tempo da vida. Este que leva Antonios Candidos e nós mesmos.

No início dos anos 1990, em um encontro que se tornaria célebre, registrado em livro e em vídeo, os quatro maiores Antonios que o Brasil já teve se encontraram para filosofar, tomar vinho e cerveja, jogar conversa fora. Os outros três Antonios eram Callado, Houaiss e Jobim. Em determinado ponto da conversa, quando falavam sobre a morte, essa indesejada das gentes, esse fim comum que nos iguala um a um e a todos, um deles (não me recordo qual) brinca que somente Tom Jobim, o caçula dos quatro, veria o século 21.

Ironia das ironias, Tom Jobim foi o primeiro a silenciar seu piano. O maestro morreu em 8 de dezembro de 1994, aos 67, de parada cardíaca em Nova York. Lembro-me perfeitamente de como recebi a notícia, então aluno da Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau José Penna, na minha Taquarituba natal. Eu tinha 10 anos e foi com tristeza que o professor Edison da Cruz Salaki, o maior de todos os docentes que tive, entrou na sala de aula e anunciou a partida, já aproveitando o ensejo para ensinar o obituário.

Antonio Candido foi o único dos quatro a ver o novo século. Callado morreu aos 80, em 1997; Houaiss em 1999, aos 83 – depois, viraria famoso dicionário. Não sei o quanto o professor gostou do que viu, aliás. Nos últimos tempos, parecia bastante desgostoso com os rumos da vida, do país, do mundo.

Talvez o seu tempo tivesse mesmo ficado para trás. Mas mais triste do que esta frase só mesmo imaginar um lugar em que há a aceitação decantada de que um sábio como Antonio Candido não coubesse mais.

Mas o tempo não é uma linha reta; muito pelo contrário, apresenta-se sempre na forma de sinuosidades bruscas. De forma que, caminhando, vencendo-o, tentando iludi-lo, não conseguimos fazer a menor ideia do que vem adiante: se uma nova curva para o outro lado, se um caminhão ao encontro, se uma paisagem única e entusiasmante, se um deserto inóspito.

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