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Antonio Candido e o manifesto proibido

Crítico literário morreu nesta sexta em São Paulo, aos 98 anos; confira capítulo sobre ele do livro 'O Theatro Municipal de São Paulo: histórias surpreendentes e casos insólitos', de Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise

Edison Veiga

12 Maio 2017 | 10h44

Foto: Evelson de Freitas/ Estadão

Janeiro de 1945. Peri?odo final do Estado Novo. A temperatura poli?ti- ca do pai?s subia, aumentava a pressa?o da sociedade pelo fim da ditadura Vargas.

A? tarde, (o documento) foi lido no theatro Municipal, com solenidade, muita gente e temperatura emocional elevadi?ssima. a sua importa?ncia foi grande, por ter sido a primeira vez que uma declarac?a?o contra a ditadura era feita na presenc?a de pelo menos 2 mil pessoas, com aquela forc?a de adesa?o coletiva.

Encerrava-se no Municipal o Primeiro Congresso Nacional dos Escritores, no qual os intelectuais brasileiros exigiram o retorno da liberdade de expressa?o perdida em tempos de censura e poli?cia poli?tica. O primeiro encontro nacional da classe terminou com a leitura “apoteo?tica” de uma Declarac?a?o de Princi?pios – documento simples e direto, corajoso manifesto contra o Estado totalita?rio que agonizava.

O panfleto com os tre?s princi?pios – legalidade democra?tica como garantia de liberdade de expressa?o, sistema de governo eleito pelo povo e defesa da soberania popular para convive?ncia paci?fica e independe?ncia econo?mica – foi distribui?do aos milhares, para a gente de dentro e de fora do Theatro Municipal. Mas na?o foi publicado por jornal nenhum – o medo da censura ainda imperava, mesmo no fim da ditadura getulista.

Aos 27 anos, Antonio Candido, professor-assistente da Universidade de Sa?o Paulo (USP), “um menino ainda”, ajudou a distribuir os milhares de panfletos. Era o cac?ula da delegac?a?o paulista dos escritores, que contava com Ma?rio de Andrade, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida.

– Quem leu o manifesto foi o Ani?bal Machado. O teatro estava cheio. E cheio de gente com ideais poli?ticos diferentes. O Congresso serviu para congrac?ar as oposic?o?es. Analisando hoje, aquele documento e? ate? ameno. Mas, na e?poca, circulou o Brasil todo, de ma?o em ma?o. Porque nenhum jornal teve a coragem de publicar.

Ao longo dos cinco dias do evento, o que havia de melhor nas letras brasileiras esteve em Sa?o Paulo. Do Rio, vieram Se?rgio Buarque de Holanda, Vinicius de Moraes, Jose? Lins do Rego e Gilberto Freyre. Da Bahia, Jorge Amado. De Minas, Fernando Sabino, Otto Lara Resende e He?lio Pellegrino.

– A ideia de fazer o Congresso em Sa?o Paulo teve motivos pra?ticos. A censura na?o era ta?o articulada entre os estados naqueles dias. Se voce? estava ameac?ado num estado e fosse para o outro, provavelmente na?o haveria problemas. Como o Rio era a sede da ditadura, a organizac?a?o achou por bem fazer em Sa?o Paulo.

Durante o Congresso, a posic?a?o poli?tica dos escritores, francamente oposicionista, dominou os debates. Em meio a? euforia do encerramento, Oswald de Andrade considerou conveniente se livrar das amarras do ja? fra?gil protocolo do Congresso. E se deu direito a uma intervenc?a?o-surpresa.

– Todos sabem como o Oswald era arrebatado. Pois, em certo momento, mesmo sem discutir com o restante da organizac?a?o, anunciou quem seria o candidato da oposic?a?o para as eleic?o?es que seguiriam. Seria o brigadeiro Eduardo Gomes, anunciou em primeira ma?o o modernista, para espanto geral.

– Foi o momento de maior tensa?o do Congresso, porque na?o foi combinado. Depois, houve cri?ticas, disseram que foi uma leviandade, e que podia queimar a candidatura. Mas, arrebatado que era, Oswald foi em frente e anunciou o apoio ao brigadeiro. Foi bastante criticado. Ele achou que era o momento, viu todos reunidos e se empolgou.

E o jovem literato Antonio Candido, com esperanc?a inabala?vel e ideais do socialismo democra?tico, tambe?m achava leviana e inconsequente a atitude do guru Oswald?

– Eu na?o! Jovenzinho que era, apoiei aos berros! Pulava como um maluco!

O Municipal foi palco de outros momentos memora?veis na trajeto?ria do professor Antonio Candido, mais tarde reconhecido como um dos maiores cri?ticos litera?rios do pai?s. Alguns ate? pitorescos. Como na de?cada de 1940, quando serviu de “ponto” em uma pec?a de Alfred de Musset, em novembro de 1942, dirigida pelo amigo dramaturgo Alfredo Mesquita.

Ao menos uma vez, viveu situac?a?o embarac?osa no esconderijo no centro do palco do Municipal: encarou ali debaixo as formas de uma das protagonistas da pec?a de Musset, cujo figurino era um vestido transparente.

– Fiquei um pouco constrangido, com certeza. Bem, o que mais posso dizer do teatro e? que e? a maior instituic?a?o cultural de Sa?o Paulo, a meu ver. Ia toda semana, assisti a grandes espeta?culos la?, como os gregos recitados em grego mesmo. Sabi?amos as histo?rias, mas assisti-las na li?ngua original? So? em uma grande casa de cultura. Foi esse o ni?vel dos espeta?culos a que assisti no Municipal.